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Unanimidade
questionável
Jeanne Moura
Foi anunciada a morte do papa. A Rede Globo já estava lá, a postos, cobrindo os detalhes. Tudo "nos conformes" para uma cobertura completa. E não só com a correspondente de Roma, Ilze Scanparini, mas também o próprio William Bonner, editor-chefe do
Jornal Nacional. Segundo ele, assim que foram informados do agravamento da saúde do pontífice, decidiram imediatamente se
dirigir à Roma.
A programação de 2 de abril foi destinada inteiramente à da morte do papa e suas conseqüências, fossem elas diretas, indiretas ou simplesmente possíveis. Uma hora e vinte e cinco minutos de telejornal. Com o passar da semana, o foco da notícia - que até então estava se falando sobre a vida
e os feitos do papa - foi sendo desviado para a cerimônia fúnebre e os possíveis candidatos
à sucessão papal. Uma semana após o falecimento de Karol Wojtyla, uma matéria, apenas, fez referência ao assunto. Procedimento normal. Afinal, já enterraram o João Paulo II.
Não só o Jornal Nacional salientou a morte do papa, mas o Fantástico e, inclusive, o
Globo Esporte, foram envoltos pelo clima de religiosidade e compadecimento. Essa "simpatia" mostrada pela Globo para com a religião católica sempre foi
evidente. Você se recorda de alguma novela em que o protagonista era evangélico?
Impossível não notar que a morte do papa determinou a direção da informação nas redações da emissora. O dever é noticiar, mostrar fatos verídicos. Mas, só havia uma notícia transmitida? O que definiu que toda a população brasileira tinha tanto interesse assim na morte do líder católico? Pode-se atribuir ao
fato de que o Brasil é o País com o maior número de fiéis católicos do mundo, mas isso dá o direito de excluir a opinião e interesse dos demais cidadãos?
As pesquisas apontam que no Brasil há entre 25 e 40 milhões de evangélicos, fora outras denominações, seitas, enfim, vários tipos de crenças. Considerando que a maioria das avaliações mal arranhou o novo século, pode-se supor que este número já seja bem superior. E, de qualquer maneira, num País com aproximadamente 180 milhões de habitantes, é preciso um motivo muito convincente para se guardar no bolso mais de 20% deles.
Isso tudo deixando de lado o fato de que boa parte dos que se dizem católicos, não são realmente praticantes, ou seja, é a religião que mais se aproxima daquela que algum dia podem vir a praticar.
A Constituição Brasileira assegura que "toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente. Em público ou em particular",
garante o Artigo XVIII.
O Brasil não sofre mais censuras e imposições estabelecidas no regime militar. Portanto, a liberdade não deveria ser ferida. Contudo, ao assistir um telejornal que aborda somente um assunto, ou uma emissora que mesmo
se dizendo imparcial no que se refere à religião, "embutindo" uma crença ou ideologia em sua programação, é possível concluir que algo está
fora de esquadro.

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