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E dá-lhe excessos

Sandro Heringer

A exaustiva cobertura jornalística da imprensa brasileira sobre a morte de João Paulo II foi o tema central da edição de 5/4 do Observatório da Imprensa. Com o título "O Papa Midiático", os articulistas do veículo online, sob tutela do tarimbado jornalista Alberto Dines, delinearam criticamente o papel da mídia, e do próprio Vaticano, explorando a imagem do pontífice como celebridade. Cada suspiro foi um flash.

Dines, que é de origem judaica, por sua vez, conhecedor dos dogmas da igreja, ressaltou no artigo de abertura, um dos problemas que foi primordial para um tratamento superficial nos textos pós-morte do papa pelos jornalistas: o desconhecimento sobre o assunto. "Por falta de tempo, ou mesmo de base cultural, não cogitam da questão espiritual. Aliás, não cogitam. Ponto", indignou-se Dines.

"O debate sobre a Igreja está hoje contaminado por preocupações laicas. É influenciado pelo fato de muitos jornalistas não serem católicos ou cristãos, por serem religiosamente indiferentes ou ateus." Este pequeno trecho do artigo escrito por Vinicius Torres Freire, que escreve para a Folha de S.Paulo, serviu para fomentar o texto cheio de farpas de Dines, acrescentando ainda que, além de laicos, são leigos.

Outro problema analisado por Dines, que o intitulou como sendo um "vexame", foi a inversão de papéis praticados pelos jornais e revistas diante de um assunto que marcou história no cenário mundial. "As revistas revelaram-se descartáveis e os jornais ofereceram material reflexivo de grande quilate."

É notório ao público leitor do Observatório o engajamento do veículo para um jornalismo de qualidade. Críticas são os pratos principais. E nesta edição a variedade foi fartamente aproveitada. Poucos saíram ilesos do disparo eletrônico.

Luiz Weis, em "A agonia de João Paulo Superstar e o êxtase da mídia", ressalta o posicionamento confortável adotado pela Igreja Católica de se criar uma celebridade clerical e da própria imprensa, que reserva espaços que transcendem os veículos segmentados. "Nem a mídia, nem a Santa Sé poderiam ter querido um papa melhor para as suas conveniências comuns", defende o articulista. 

"Ele já vê e toca o Senhor". Títulos de reportagem como este, extraída da edição do sábado do Estado de S.Paulo, dia da morte de Karol Wojtyla, construído sobre a frase pronunciada do cardeal Camillo Ruini, foi ingrediente para a porção nada crível do jornalista Ulisses Capozzoli. "Pode-se perguntar: de que pretenso poder desfrutaria o vigário-geral de Roma para fazer uma afirmação dessa natureza?", indaga.

"Alguém pode responder que ao vigário-geral de Roma - mesmo com toda sua distinção e poder político-religioso - não é dado o privilégio de observar a cena a que se refere e, por isso mesmo, o que disse não passa de uma frase de efeito, "um recurso alegórico", para sermos indulgentes", completa o jornalista.

O fato de que, o editor responsável do Observatório da Imprensa ter raízes no judaísmo, acaba se refletindo diretamente na óptica e no posicionamento adotado na edição do veículo. A abordagem jornalística isenta de paixões religiosas ao catolicismo, retratou o pontífice como uma figura que teve seu papel de importância no ciclo político e social do planeta, e ponto. Cabendo ao veículo a análise dos excessos, falhas e carências cometidas pelos colegas de profissão. E sem papas na língua.