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Malhando
e educação
Andréia Moura
Realmente um amontoado de paradigmas. Malhação surpreende não pela profundidade e relevância dos assuntos que aborda, mas exatamente por, com sua superficialidade, destruir com eficiência o âmago da moral e dos bons princípios.
Malhação é uma verdadeira maratona. A novela produz uma gama de exercícios fora do comum. Pais que malham com a responsabilidade de manter uma condição social condizente com o que o folhetim apresenta. Que malham para obter o respeito dos filhos empenhados em imitar o comportamento dos atores adolescentes. Pais que malham para aceitar a postura
liberalista e inconseqüente, que a novela prega a respeito do sexo. Malham para lidar com a gravidez adolescente que a novela insiste em induzir. Enfim, pais que malham para manter princípios ensinados a duras penas
que o seriado, com alguns sorrisos e frases de efeito, reduz à insignificância.
O que o folhetim faz é malhar a educação. O pior de tudo é que essa "malinha de porcarias" vem a nós pintada com pele de ovelha. Seu objetivo, na teoria, é discutir assuntos polêmicos e encaminhar os jovens para o bem. Mas não é segredo para ninguém: quanto mais a novela discute, mais os jovens se distanciam da verdade sobre ética, respeito, enfim, sobre o que é a realidade.
A novela, que é exibida desde 1995, já tratou de inúmeros temas: virgindade, roubo, pobreza, aids, câncer, violência e, insistentemente, sobre gravidez na adolescência. Mas o que sobra ao fim de cada historinha? Idéias como: podemos ser felizes para sempre; dinheiro nunca é problema; é possível ter um filho na adolescência e ainda assim estudar, se dar bem na vida. O fato é que a verdadeira consciência, o senso de realidade ficam bem distantes das situações descritas pela novela. As discussões que ela pretende manter, na maioria das vezes, não conseguem despertar o real senso de maturidade a que se propõe.
O que é válido
Não se pode, no entanto, ser partidarista a ponto de negar que alguns do temas propostos para discussão são, de fato, relevantes podendo se tornar importantes fatores de conscientização. Esses temas, geralmente, se relacionam com problemas que atingem um contingente grande de pessoas que não fazem parte da adolescência. A novela já discutiu temas como o câncer de próstata, violência contra a mulher, a vacinação de idosos, erros médicos e vários outros assuntos de interesse geral.
Esse tipo de proposta é muito benéfica, mas deve-se perceber que não se direciona exatamente aos jovens. É uma discussão que visa quebrar tabus e aumentar a aceitação do povo para determinada situação. Vale ressaltar que tais assuntos, na maioria das vezes, não interessam muito ao adolescente acostumado a assistir as historinhas do folhetim. Interessa aos pais que são - ou deveriam ser - telespectadores da novela.
O que deve ficar claro aqui é que, não se está desmerecendo o poder conscientizador que o programa tem, mas apenas constatando que o público que deveria estar sendo atingido com ele, na verdade não é afetado de maneira satisfatória por suas discussões. O foco está errado. A novela discute seriamente assuntos que, na verdade, não chegam à consciência adolescente, enquanto trata com futilidade assuntos que deveriam ser discutidos com mais profundidade e moral.
O que é inaceitável
A maneira como há anos assuntos como aids e gravidez na adolescência são discutidos na novela é revoltante. O tema é tratado com superficialidade e irrealidade. Alguém já parou para se perguntar se o número de adolescentes grávidas durante todos esses anos aumentou ou diminuiu? Ou se o número de portadores de HIV entre os adolescentes está menor? A verdade é que todos acham que a novela está ajudando sem ter fatos concretos que provem sua influência benéfica.
Sem hipocrisia. O folhetim dramatiza essas situações de forma que uma única mensagem fique gravada na mente adolescente. "Engravide porque no final tudo dá certo e todos viverão felizes para sempre". "Se você, por acaso, não usar camisinha, fique tranqüilo, a aids não é tão ruim assim se os amigos estão por perto". O mantra "tudo dará certo" é um tumor nessa novela. Essa não é a
realidade e deve-se notar que pregar utopias destrói o senso e a consciência dos adolescentes. A vida não é cor-de-rosa e o drama não faz a mínima questão de desfazer o equívoco.
Nada se compara, no entanto, com o incentivo explicito ao sexo que a novela faz. Essa é a questão central do problema. O fator essencial à gravidez e, quase sempre, a aids é o sexo. Se o adolescente faz sexo a possibilidade de que tenha problemas do gênero aumenta expressivamente. Antes dedicar milhares de capítulos a prevenção da aids e da gravidez, a novela deveria se lembrar que nada disso terá valor se durante todo o tempo o sexo é tratado de maneira leviana.
É preciso tratar as questões sociais a partir de sua essência. E é exatamente nesse ponto que a novela peca. Sua postura "cobre um santo descobrindo outro". Dessa forma, os objetivos idealísticos da novela não passam de demagogia. Em vez de educar e conscientizar, malhação está malhando a educação.

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