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Um paraíso estranho

Tiago Cabreira

Orange County é o ensolarado - e endinheirado - paraíso da rica comunidade do país mais rico do mundo, onde tudo parece ser perfeito. Esse pomposo cenário serve de pano de fundo para as tramas melodramáticas de The O.C. - Um Estranho no Paraíso, o novo seriado mais badalado dos Estados Unidos.

Ambientado na sofisticada cidade costeira de Newport, O.C., é mais um enlatado norte-americano disposto a ressaltar os grandes valores desse feudo do sul da Califórnia: dinheiro e beleza. 

No Estado em que Schwarzenegger é o governador, The O.C. dispõe do cenário ideal, com mansões e piscinas luxuosíssimas para a criação de uma história com amores e desamores tão fúteis, a ponto de disseminar a pouca, do que ainda resta, consciência dos adolescentes menos desprovidos.

A nova Malhação norte-americana se assemelha muito ao grande sucesso dos anos 90, Berverly Hills 90210, chamado aqui no Brasil de Barrados no Baile. Os ingredientes são os mesmos: jovens bonitos, pais jovens, bonitos e modernos, todos ricos vivendo num ambiente maravilhoso. Qual será a influência desse programa, para nós brasileiros, que vivemos à margem e sem acesso a riqueza propagada do outro lado da telinha?

Enganados pelo pseudomundo de superfícies idealizadas de O.C., os adolescentes recebem uma enxurrada de trocas de lealdades e identidades, de adolescentes vivendo vidas secretas escondidos de seus pais e pais vivendo vidas secretas escondidas de seus filhos. Os dramas dos jovenzinhos da Fox se limitam ao superficialismo de Orange County: conflitos e traições da burguesia americana. 

Um estranho no paraíso

The O.C é a história de Ryan, um garoto problemático que faz a escolha errada ao decidir em quem confiar. Ele mora em uma kitnet com a mãe boêmia que está mais preocupada em aumentar sua lista de amantes do que cuidar do próprio filho.

Co-autor de um frustrado roubo de automóveis, Ryan acaba indo para um reformatório onde encontra Sandy Cohen, um idealista promotor público de defesa que se identifica tanto com a trajetória do jovem que acaba o levando para dentro de sua própria casa. Logo ele irá descobrir que nada é o que aparenta ser.

A rica, bela, ex-rainha dos bailes da escola, Kristen Cohen, esposa perfeita e mulher de negócios, não fica contente com a chegada de Ryan. Ela se preocupa em como ele irá afetar o filho adolescente, Seth, um nerd sonhador que não tem muitos amigos. 

A família Cohen encontra a mãe de Ryan que, tão "amável", abdica, no mesmo instante, a guarda do filho. Seth acaba ganhando um irmão e companheiro para as partidas de videogame. Ryan agora é um morador de O.C., no entanto, sua origem paupérrima e sua passagem pelo reformatório o torna numa espécie de "leproso" para aquela sociedade preconceituosa.

E para o grande delírio das meninas que ainda acreditam em conto de fadas, existe o romance entre Ryan e Marissa, força matriz da série. A bela garota mora na casa ao lado, e vive as dificuldades de ter uma mãe oportunista que se divorcia, porque Jimmy, pai de Marissa, perdeu seus milhões.
 
Os outros personagens também têm seus "carmas", como Seth que vive uma paixão de infância quase que inalcançável pela melhor amiga de Marissa, Summer. Já a mãe de Seth, tem que conviver com seu namorado da época de adolescente, Jimmy, seu vizinho e pai de Marissa.

The O. C é um seriado sobre pais e filhos, maridos e mulheres e a chegada da idade adulta para três adolescentes. Relatos de namoros frustrados, drogas, festas, álcool, prostitutas, homossexuais e preconceitos. São valores veiculados na mídia para uma sociedade corroída que, ainda, tenta manter as aparências. 

Que tipo de "paraíso" O.C quer apresentar onde futilidades, divórcios e obscenidades são o destaque? A grande diferença desse seriado para as produções brasileiras é que, em vez de Leblon ou Barra, eles estão na terrinha do tio Sam com mais pares de olhos azuis.