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Desdenho
animado
Sandro Heringer
South Park é uma pequena, vagabunda, atrasada, insignificante, simplória, pudica, antiquada, imprestável cidadezinha dos Estados Unidos, assim adjetivada pelos próprios habitantes, para dizer no mínimo excêntricos, deste polêmico desenho animado - que ganhou o mesmo nome, talvez por ter as mesmas características da cidadezinha - destinado ao público infanto-juvenil exibido em vários países, que ganhou sua versão para os cinemas em 1999.
A animação é uma miscelânea de tudo o que os pais, preocupados com a educação e os bons costumes, não gostariam que seus filhos assistissem. Palavrão, imundície, racismo, heresia, sexo, droga, violência e morte enchem a tela, misturados com cores e a façanha de tornar coisas "podres" em algo extremamente engraçado através dos quatro personagens centrais da
história: Cartman, Kyle, Kenny e Stan - meninos esquisitos com uma idade média de oito
anos.
Só no longa-metragem foram enumerados mais de 400 palavrões pronunciados. Sem contar as flatulências e os vômitos dos bonecos. Os judeus são retratados como classe inferior.
Há um episódio da série no qual Satanás luta com o Jesus, e perde propositalmente para ganhar o prêmio, pois o diabo foi o único que apostou que o Messias venceria.
O sexo está presente o tempo todo no imaginário coletivo e nos atos de personagens como a mãe de Cartman, que foi descoberta pelo filho atuando em um filme pornô, e nas depravações de Chef, o cozinheiro da escola que vive cantando músicas com letras depravadas e ensinando aos alunos que para fazer uma mulher feliz é só descobrir onde fica
o clitóris dela.
Mas a ousadia dos criadores do desenho, Trey Parker e Matt Stone, supera-se com a bizarra cena do "passivo" Satan com seu companheiro-amante Saddam Hussein em cima de uma cama discutindo a relação afetiva do casal.
As esquisitices não param por aí. O garoto Kenny, assim como no filme, morre em todos os episódios - cada hora de um jeito mais bizarro que outro. Hora esquartejado, hora baleado, eletrocutado, ou até morto em um microondas. E o pior é que se fizer uma
enquete, ele é o personagem preferido entre os adolescentes, que esperam ansiosamente como será a próxima morte de Kenny.
A animação, embora pareça para os adultos uma crítica a hipocrisia puritana dos norte-americanos, transforma o formato, que é um atrativo aos menores,
em uma entrada de influências anarquizadas e estímulos a impulsos agressivos e grosseiros.
A banalização do sexo, da violência e da cultura de que o bonzinho é o chato da história, transforma a mídia em munição para possíveis transtornos de personalidade. Exemplo tem de sobra nos noticiários:
"a vida imita a arte".
O contrário não existe, ou talvez nunca irá existir. Pois a idéia de que a arte deve ser uma superpolarização do cotidiano está fincada na mente dos criadores. Fazendo da
violência, a VIOLÊNCIA; fazendo do sexo, o SEXO; fazendo da morte: a MORTE e fazendo do
certo um mero coadjuvante. É a velha cultura do "vejo, não penso, logo executo".

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