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Vigia do próprio nariz

Márcio Tonetti

Poucas vezes na história da imprensa brasileira as suítes - seqüência de uma reportagem em outra edição elaborada mediante apuração de novas informações - permearam o noticiário com tanta extravagância como na atual conjuntura política. O escândalo do "mensalão", protagonizado pelo hilariante "Bob Jef" - Roberto Jefferson - diante das CPIs - seus "fãs" chegaram a emprestar seu nome até às comunidades do Orkut - rendeu aos jornais desenfreadas páginas que, não obstante, já enojam o leitor. Não só pelo calhamaço de informação, ou pela repetição da mesma, mas, sobretudo, pelo conteúdo que emitem. 

Dos muitos veículos envolvidos na magnitude da pauta, pode-se dizer que uma mísera parcela, realmente permaneceu lúcida, desenvolveu bem o seu papel e não deixou a peteca cair. O Observatório da Imprensa foi um deles. O senso crítico do veículo não se esvaiu, enquanto que outros esmoreceram diante das denúncias bombásticas. 

As informações foram exóticas, é verdade. E, conquanto muitos reclamassem da omissa frieza do jornalista diante do espetáculo, a perda do desconfiômetro foi algo que não se pôde avalizar. Repetidas vezes Alberto Dines denunciou o aviltamento ideológico da mídia e a reiterada prática da divulgação superficial. Seria a cegueira branca de Saramago chegada também aos resorts do quarto poder? 

Muitos veículos mostraram que não são "flores que se cheirem". No entra e sai dos escândalos, muitos erros prosperaram. Em editorial (19/7/05), Dines discorreu com intrepidez sobre vários veículos que se descuidaram nos cruzamentos informáticos e, no dia seguinte, tiveram que se prostrar diante da desconfiança do público. Entre os citados, Folha, Rede Record, e até "o impecável Jornal Nacional". 

Políticos na mira

A constante exposição do deputado Antônio Carlos Magalhães Neto também foi motivo para desabafos na revista eletrônica. Isso levou o editor-responsável a cutucar com vara curta o figurão político mais velho a respeito da oligarquia de concessões de rádio e TV outorgadas a ele, Antônio Carlos Magalhães, desde o governo José Sarney. 
Contudo, o periódico cujos ataques aos mandos e desmandos da imprensa são ferrenhos, não tem o mínimo interesse em atenuar a atual balbúrdia política, muito menos em avalizar as falcatruas da cúpula do governo. Antes,

"Este observador vem chamando a atenção desde os primeiros sacolejos desta sofrida temporada para uma série de irregularidades jornalísticas. Isto não deve significar um convite à atenuação das infrações (ou ilicitudes, para o usar o eufemismo do momento) escancaradas de forma tão clara e assustadora." (26/07/05)

Ainda na mesma linha de raciocínio o jornalista procura esclarecer eventuais dúvidas a respeito de sua posição:

"A tentativa de minimizar esta tragédia política ou, ao contrário, de agravá-la com a injeção de velhas toxinas ideológicas pode ser válida na esfera partidária, mas é inconcebível na delicada tarefa de monitoração dos comportamentos e procedimentos jornalísticos."

Na edição de 23/08, o consultor editorial da revista, Mauro Malin, esclarece ainda que

"Os dólares na cueca, as revelações feitas por insiders como Delúbio Soares, Marcos Valério de Souza e Duda Mendonça, as renúncias de José Genoíno e José Dirceu, o rebaixamento de Luiz Gushiken, as notícias sobre charutos, bebidas e garotas de programa, dezenas e dezenas de podres trazidos à tona - em poucos casos por investigação jornalística, embora em muitos casos só tenha faltado se esfregarem na cara dos jornalistas - balizam os contornos de uma grande maracutaia." (23/08/05)

Habeas-corpus

Ao mesmo tempo em que o Observatório não perdoou os "sanguessugas" do governo, exonerou o pedido de impeachment do presidente Luís Inácio Lula da Silva, ao contrário da maior parte da imprensa que escancarou o adiantado desejo de aplicar a "solução final" ao governo, tais como Época que levou uma de suas edições as bancas antecipadamente e o Datafolha que adiantou sua pesquisa eleitoral. Sem rodeios, o Observatório da Imprensa denominou tal ação de precipitada e antidemocrática. 

No entanto, o leitor pode questionar se não cabe à imprensa conduzir a opinião pública a fim de impetrar a ordem social como aconteceu no caso Watergate e a posterior deposição do presidente Richard Nixon após acurada investigação do jornal Washington Post? Quando se tem provas concretas, sim, fruto de boa investigação e não só de informações alheias muitas vezes contraditórias. Contudo, quanto à realidade brasileira, Dines responde: "Este falatório dos opinionistas e editores sensacionalistas sobre impeachment, etc. não tem base legal, é pura especulação. Incapacidade para trabalhar os fatos. Fruto da impaciência antidemocrática". (16/08/05) 

Pelo visto, Alberto Dines deixou o superego jornalístico falar mais alto e, ademais, o seu passado militante em off. Isso é um bom presságio. Aliás, sem querer desmerecer a imprensa nacional que de certa forma também contribuiu para as investigações das CPIs, já estava na hora de alguns dos que se dizem bons jornalistas começarem a vigiar também o próprio nariz.