editorial | debate | opinião | perfil 
imprensa em foco
| mídia | cultura
leitor | e-mail | expediente
anteriores
| inicial


Prática em Washington

Sergio Telles

Prática jornalística. Rodamos, rodamos e chegamos ao mesmo assunto: a prática. Devido à proibição legal do estágio, o estudante de Jornalismo deve dar seus pulos para poder ter algo a mais em seu currículo após a formatura. Como todo brasileiro, gostaria de lembrar uma característica que nos faz alcançar algo desejado: o jeitinho. Quem não conhece? Para tudo dá-se um jeito. Na fila do banco, com o patrão, com o professor e assim por diante. Todos têm no sangue o tal do jeitinho.

Não contrariando a expectativa, e como bom brasileiro que sou, dei meu jeitinho para engordar o currículo e ganhar um pouco de prática. Primeira dica aos neófitos: mantenha contatos com pessoas que possam lhe ajudar a alcançar o objetivo delineado. Não estou dizendo para você ser um interesseiro ou puxa-saco, mas um conhecedor das pessoas-chave. Ofereça-lhes bons motivos para o projeto de estágio se tornar realidade. Seguindo esta dica, alguma coisa vai render. Digo isso porque pude vivenciar duas vezes essa situação.

Certo dia acordei decidido a oferecer meu trabalho de graça, apenas para ajudar e poder acompanhar de perto minha futura profissão. Pois bem, fui a um centro de mídia paulista de uma entidade religiosa e conversei com o diretor, Gilson Ferraz. De cara, mencionei que estava ali para oferecer meu trabalho e, se não fosse atrapalhar, gostaria de comparecer nos estúdios todos os dias. Ele olhou para mim e respondeu: "Você chegou na hora certa. Estamos precisando de um roteirista. Topa o desafio?"

Quase não pude acreditar que dera o primeiro passo. Permaneci cerca de cinco meses como roteirista e produtor. Selecionava as imagens que seriam utilizadas, assim como cuidava da entonação do âncora, do movimento de câmera e da formulação de idéias para a promoção do programa Educação Adventista que, ao todo, foram mais de quinze (apenas meus roteiros).

Agora, pare e raciocine comigo. Sem oferecer um serviço gratuito, como estudante do 2.º ano de Jornalismo, onde mais poderia conseguir uma oportunidade desta, aprender e desenvolver tudo aquilo que a faculdade não me proporciona? Com essa experiência minha maneira de ver a teoria mudou. Sei que a teoria é importante, é base do conhecimento. Contudo, apenas com certa vivência ou com o simples fato de ter passado por determinadas circunstâncias lhe tornam mais experiente, se comparado àqueles que têm apenas teoria. Este primeiro fato ocorreu no primeiro semestre de 2002.

Durante as férias de julho, tive a oportunidade de ir para Washington. A princípio seria mais um escravo do capitalismo, trabalhando como pintor, cortando grama e realizando outros trabalhos do gênero. Ao chegar lá, passaram-se dois dias e nada de trabalho. Fiquei sabendo que minha vaga pré-estabelecida tinha sido ocupada por outra pessoa. 

Nos meses de junho, julho e agosto, a sede mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia produzia o programa Adventist News Line. Como estava na casa de um parente, não tinha nada para fazer. Foi quando recebi o convite para conhecer os estúdios da Adventist Television Network. Para um estudante, conhecer estas instalações era um grande passo. Com a correia da pré-produção, ofereci ajuda na organização dos estúdios. Por ter um pouco de prática na área técnica televisiva, comecei organizando cabos, testando-os, montando e desmontando equipamentos, dentre estes uma ilha de edição não-linear completa. 

Assim se passaram os primeiros dias. Logo após dar uma organizada nos estúdios, chamaram-me para auxiliar em algumas filmagens (cerca de dez). Este foi o maior passo para minha carreira, trabalhando com uma equipe profissional e em equipamentos de última geração. Oportunidade única. A prática estava sendo enfatizada. Tudo o que aprendi no Brasil estava sendo de muita utilidade no momento certo. 

Conhecer como funciona uma produção e edição proporciona uma visão ampla do todo. Você aprende a ver criticamente o trabalho que está sendo realizado e a ter um vislumbre de como ficará no final. Nada como a prática, ainda que pouca.
 
Hoje, posso somar umas boas horas de estágio e muitas histórias para contar. O simples fato de conhecer a cúpula da produção do Adventist News Line e participar da produção de um programa deste porte é um excelente aprendizado, pois amplia os horizontes do conhecimento prático. Uma produção diferente das nossas, novos padrões de política editorial, uma gana de novas idéias a serem aplicadas no decorrer do curso e aperfeiçoá-las para quando chegar a hora de produzir algo como profissional remunerado, não seja apenas mais um no montante das produções. 

Um detalhe importante de todo este relato é o reconhecimento do trabalho realizado e a oportunidade de abrir portas a outras pessoas que prezem pela qualidade e estão dispostas a aprender mais e mais. Só a prática, unida à teoria e à corrida pelo ideal, pode formar um profissional capacitado a sair da faculdade com prática real.

Finalizando, posso dizer que a prática é a ferramenta que o estudante tem que correr atrás, seja na internet, no impresso, no rádio ou televisão, estar sempre em contato, envolvido com o meio para poder fazer parte dele.

                    



criação: lisandro staut