|
|
|
editorial
| debate | opinião
imprensa em foco | mídia
| cultura
| perfil
leitor
| e-mail | expediente
anteriores | inicial
Apresentadores
do Olimpo
Daniel Liidtke
Eles são deuses. Seus gostos, traços, preferências e opiniões são norma para a maioria dos mortais. Idolatrados, recebem festas, admiração e, o que é mais importante, a obediência de seus súditos. Possuem características semelhantes aos humanos. Brigam por soberania, amam, traem, choram e lutam. Detêm, ainda, o dom mais alto do ciclo da vida: o poder de influência.
Na verdade, estes deuses estão bem longe do Olimpo; estão aí, do outro lado da
tevê. Como ninguém é original, os apresentadores brasileiros são, na maioria, réplicas dos antigos deuses gregos. Os da Grécia dominavam os templos. Os daqui têm a mídia.
Com a beleza de Afrodite, os apresentadores surgem com o poder de cativar os humanos através da aparência física. Luciano Huck, Xuxa, Adriane Galisteu, Fernanda Lima e Luciana Gimenez são alguns exemplos dos que usam a sensualidade como forma de conquistar espaço. Para eles não importa se seus programas possuem teor cultural quase nulo. O que convém é continuar "intertenindo" o público, ganhando cada vez mais audiência e adoração.
"Ser sexy para mim é lucro", declarou a afroditiana Luciana Gimenez à revista
Istoé Gente. O termo "lucro", neste caso, pode ser perfeitamente substituído por "ganhar dinheiro" - mas muito, muito dinheiro mesmo. Ela é apenas um dos casos de apresentadores que ganham uma fortuna em seu trabalho.
Vale ressaltar que nem precisa ser tão bonito assim para "lucrar" tanto. Ratinho, por exemplo, longe da exuberância destes outros deuses, recebe o
cachê mais alto da TV brasileira: mais de um milhão de reais.
A indústria que se move por trás destes deuses do palco não é novidade. Produtos, desde sandálias, brinquedos, jogos, cosméticos, até grifes, livros e CDs, são meios encontrados para o povo parecer um pouco com a divindade. Meninas de hoje usam a "sandalinha" da Xuxa - também podem optar pela da Angélica ou da Carla Perez - como se encarnassem a própria apresentadora.
Utilizando o mais puro marketing, os apresentadores criam necessidades na mente do público; necessidades que só poderão ser supridas por eles mesmos. Daí manipulam a moda, que, por sua vez, move o homem, que faz circular o capital, que gera a febre de consumismo, que movimenta os apresentadores, que... A roda de manipulação não
pára nem com a força de Hércules.
Outros conseguem atenção e popularidade dando uma de Hermes, mensageiro dos deuses. Eloqüente, ele tinha asas nos pés, símbolo de velocidade. Paulo Henrique Amorim, William Bonner, Ana Paula Padrão, Hermano Henning e Heródoto Barbeiro são alguns destes sagrados apresentadores que fazem parte da família deste deus.
De modo sutil, eles conseguem imprimir nas mentes terrenas as mensagens "divinas". Expondo os fatos regularmente na TV, o público acaba familiarizando-se com os âncoras, considerando-os próximos. Deste modo, acaba havendo uma associação dos apresentadores à verdade.
Bem mais cultos que os discípulos de outros deuses, os seguidores de Hermes transmitem inconscientemente a idéia de uma sabedoria superior, semelhante à de Atena. É quase impossível um dos idólatras do
Jornal Nacional nunca ter sonhado em saber tanto quanto Bonner, ou ter palavras tão firmes quanto as de Paulo Henrique Amorim, do
Conversa Afiada. São personalidades de peso na TV brasileira, cujas opiniões influenciam os telespectadores; principalmente os mais assíduos a seus cultos.
Agora, regredindo uma era, encontramos os clones de Prometeu - que lutava pelo bem-estar dos homens - e Themis, deusa da justiça, protetora dos fracos e oprimidos -, ao inverso. Tudo manjar do mesmo altar - para não dizer farinha do mesmo saco.
Esse é o tipo mais comum de deuses da atualidade. Sob o pretexto de preocupação social, eles só pensam no capital que gira em torno da vida humana. Sensacionalismo e depravação, principal atributo. Audiência, melhor oferenda.
Ouvem-se aí os gritos de Datena, Faustão, Gugu, João Kleber, Ratinho e uma série de outros animais; ou melhor, deuses do povo. Levam ao ar os casos mais absurdos, polêmicos e intrigantes: tudo com o objetivo de "resolver os problemas do mundo". Não ficam sequer um minuto sem descolar os olhos da pontuação do Ibope.
Pior de tudo é que a massa aprecia e adora estes deuses. Prova, é a grande audiência, investimentos em publicidade de classe A e surgimento constante de programas do mesmo gênero. Ira para os bem-intencionados. Bênção para os bolsos dos apresentadores.
O poder destes deuses midiáticos cresce tanto, que eles são até solicitados para dar uma forcinha sobrenatural em campanhas políticas.
Augusto Liberato, por exemplo, transformou-se na estrela principal das campanhas televisivas de José Serra, candidato à Presidência. Parece que o tucano enxergou o poder de influência que o deus do domingo poderia exercer sobre os candidatos. Alguma tempestade no céu, entretanto, atrapalhou os planos de Serra. Quem sabe Lula tenha contratado Ratinho nos bastidores...
Inteiramente controlados, os humanos permanecem inertes ao menor senso crítico. Hipnotizados pelos apresentadores, a raça inferior limita-se apenas a consumir todo o lixo divino. Mas lógico, alguns são recicláveis.
O Minotauro da verdadeira preocupação social, contudo, permanece solto, e os deuses da TV continuam correndo atrás de dinheiro.
Poder eles têm de sobra. Humanidade, tão verídica quanto a mitologia.

criação: lisandro staut
|
|