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Pecados
globais
Diogo Cavalcanti
É lógico que os anões gostam de atirar pedras no gigante. Primeiro, por uma certa dor de cotovelo. Segundo, porque as pedradas não passam de cócegas para o colosso. Ciúmes à parte, a responsabilidade de ser grande transforma os erros jornalísticos da Rede Globo em escândalos, e os abusos, em eventos apocalípticos - para os críticos, claro.
Falar de ética e jornalismo da Globo gera certo mal estar. Pode-se falar de estréias do
Big Brother que viraram notícia. Algo do que chamaríamos de "dínamo interno de audiência", em que cada programa da Rede deve dirigir a atenção para os outros, engrossando os grilhões da audiência. Isto, porém não é o cerne da discussão.
É inegável a influência dos telejornais da Globo. Pela manhã, Renato Machado comanda o
Bom Dia Brasil, de feições requintadas e tendência econômica, voltado às elites. Busca a macroeconomia das bolsas e o Risco Brasil. No
Jornal Nacional, sobressalta-se o "padrão globo de jornalismo", com o predomínio da plástica, sincronismo e perfeição da "produto", avidamente consumido pela audiência.
O Jornal Hoje ressalta o "fato", enfoca o incêndio, a visita do presidente, a declaração de Bush, a logística do Brasil. Escapando à regra, o
Jornal da Globo, centraliza-se na personalidade de Ana Paula Padrão. É incisivo, concentra-se em temas específicos, tecendo análises críticas sobre assuntos eleitos pelo jornal.
Sem esquecer os jornais regionais e o Globo Esporte, a emissora completa o ciclo diário de informação com
oito telejornais diários.
Questionamentos
Desde que entrou no ar em 26 de abril de 1965, a emissora de Roberto Marinho revelou uma clara simbiose com os governos em exercício. Os seis milhões de dólares injetados na empresa pela
Time Life constituía uma relação ilegal, permitida pelos militares. Os mesmos militares ajudaram Marinho, subsidiando suas dívidas em troca de imagens.
Não é de estranhar omissão dos jornais da Rede Globo, frente os abusos da ditadura. Assustam escândalos como o do Proconsult, em que a emissora se envolveu numa manipulação da apuração das eleições para o governo do Rio de Janeiro nos idos de 1982, favorecendo
o candidato Moreira Franco. Durante a apuração, a emissora apresentava Franco como virtual governador.
Além das reclamações do candidato Leonel Brizola, denúncias surgiram entre os próprios funcionários da empresa, gerando manifestações populares contra a emissora e pressões internacionais. A Globo foi forçada a ceder espaço a Brizola para discursar. Por fim, constatou-se a vitória de Brizola por mais de 100 mil votos de diferença.
Talvez o Proconsult seja o caso mais gritante, porém certamente, o menos prejudicial. Mais perigoso do que isto é a abordagem superficial dos temas políticos e econômicos. Os cânceres sociais permanecem intactos no imaginário popular. Notícias do tipo "a inflação neste mês foi de 38%, mas as cadernetas de poupança renderam 37%" em contraponto, querem abater a insatisfação popular.
O mesmo pode-se dizer das falcatruas do governo Collor, e da iminência do
impeachment cobertos apenas quando já não dava mais para segurar. Da dívida externa, quintuplicada no governo FHC; da gritante concentração de renda e de terras, e de outros assuntos vitais mantidos encobertos à população.
Existe uma constante no comportamento jornalístico da Globo em dançar conforme o dono da boate. Nunca enfrenta o poder político e econômico com a verdade dos acontecimentos. Na rede das denúncias de corrupção só caem os peixes pequenos.
Quanto ao caso Waldomiro, Ivo Lucchesi denuncia a cobertura global da CPI em artigo publicado no Observatório da Imprensa,
em 20 de abril de 2004. Na edição, selecionou-se um momento de contrição: "Cometi um pecado. Cometi um pecado ao tentar ajudar um amigo, Armando Dile..."
Lucchesi também ressalta que a Rede Globo "não considerou jornalisticamente importante" um depoimento de Waldomiro em que afirmou que recebia 4 mil e quinhentos reais por mês e vivia em um apart-hotel do Leblon. Surpreso, perguntaram-lhe como mantinha seu estilo de vida. Waldomiro respondeu com a "ajuda de custo" de 8 mil reais mensais.
As coberturas parciais preocupam. Exemplo clássico é a abordagem criminosa do Movimento Sem Terra, sem dar espaço aos dois lados. A cobertura da ocupação americana do Iraque também demonstra certa tendenciosidade, comprada no pacote das agências internacionais. O dever de ouvir os dois lados é um pilar fundamental da ética jornalística.
Permanecem em destaque assuntos picantes, como CPIs, liminares do governo rebeliões carcerárias que refletem no Ibope, mas que não contribuem para o avanço nacional.
Os críticos querem crucificar a Globo. Entretanto a empresa não está sozinha em seus "pecados".

criação: lisandro staut |
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