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Apenas um País do futebol

Rômulo Gomes

Em toda a história brasileira, os intelectuais que estudaram a formação cultural social e política do Brasil sempre divergiram em muitos aspectos. Entretanto, em uma característica sempre concordaram: "Existem vários 'brasis' no Brasil." Talvez, seja esse o traço unânime e conseguinte que promova tais dissensões. A discussão é válida. Afinal, o Brasil é realmente muito heterogêneo. O debate é tão grande que chega até aos povos que moram no Norte.

Essa ironia sarcástica adentra-se num espaço reservado aos especialistas, salvo os autodidatas. Ambos percebem como a mídia norte-americana se comporta como pedagoga, mentora e historiadora do Brasil para os povos americanizados - leia-se consumidores das notícias da CNN de todo o mundo. Debates a respeito de como os Estados Unidos criam, deformam ou estabelecem uma imagem de um país na mídia, sempre ocorreram. Nem sempre se conclui a questão. Mas os paradigmas criados persistem.

A CNN é uma das principais redes de televisão especializada em notícias. Ted Turner, o criador da CNN (Cable News Network), em 1980, almejava tornar o consumo de notícias a supremacia de sua obra. Por ter um elevado custo de produção, Turner desviou o enfoque da rede criando paralelamente a Headline News, que oferecia ao ávido mercado soluções para o tipo de informações que o telespectador buscava.

Nesse ínterim, surgem coberturas que fomentam especulações a respeito de personalidades, fatos e nações. Especulações. Porque as imagens transmitidas, instigadas em todos os signos cognoscíveis são de rigor particular da emissora ou de consenso americano-capitalista.

O Brasil tem diversas peculiaridades que o tornam um País extremamente rico. Suas atribuições físicas e culturais dão um panorama da diversidade social e humanística de uma nação. Uma rede de televisão que tem por princípio a cobertura jornalística de fatos que ocorrem em todo o mundo deveria se desprender de fatos obsoletos ou clichês que ocorrem em um país. Com um grupo de 42 sucursais internacionais é admirável que, a CNN responsável pelo Brasil tenha noticiado quase exclusivamente esportes no último mês, como notícias referentes ao Brasil.

Pode parecer uma generalização grotesca, mas na edição online da CNN norte-americana do mês de maio, todas as notícias dispostas fazem referência ao futebol. A única exceção é uma notícia citando a crítica do Ministério da Agricultura à imprensa internacional sobre a destruição da Floresta Amazônica. Parece ser também outra menção aos propósitos dos povos que moram ao norte.

De fato, uma cobertura que priorize características, fatos ou destaques do Brasil, notam-se como nobres, jornalisticamente falando. Melhor, escrevendo. Mas a criação, de uma imagem que delega o crédito de simplesmente um País do futebol não fornece base pra a credibilidade ética de um jornal. Principalmente depois da cobertura da guerra no Iraque pela CNN, que gerou tantas dúvidas no referido embate.

Exemplificando, nota-se uma gritante simbologia de caráter futebolístico no trecho do subtítulo de uma matéria de 3 de junho de 2004, que diz: "Assim como Brasil é sinônimo de futebol, na Hungria o memorável esporte de Fencing (esgrima) está intrinsicamente ligado." Particularidades à parte, o Brasil percebe como os turistas que chegam ao Brasil só sabem dizer que o Brasil é o País do futebol, carnaval e música. Parte desta enumeração é construída pela CNN.

Outro diferencial é que a CNN em espanhol dá um enfoque extremamente forte ao Brasil como País do Mercosul e do futebol. Não é muito difícil compreender a importância brasileira para a economia latina. Mesmo assim, a tendenciosidade permanece, pois o Brasil só se torna notícia nesses casos.

De fato, viver no Brasil é bem diferente do que viver no "Brazil". Em um deles, vê-se uma enormidade de fatos e histórias suficientemente importantes para o respectivo povo. Porém, como nona economia mundial, esperava-se que sua relevância fosse mais bem compreendida pela mídia norte-americana, em especial a CNN.

As aspirações de Turner poderiam ser executadas de forma mais eficiente se houvesse uma maior delimitação do que é notícia para a CNN. Isso porque uma crítica tão feroz, como essa é apresentada, dá-se pela forma como o Brasil é interpretado na América do Norte. A representação de uma nação não deve ser rotulada de forma incoerente com a sua realidade. Ao menos, calúnias não foram feitas em relação ao Brasil. Entretanto, criar uma atmosfera de interpretação de um País que não é o ideal para o mundo deveria ser revista. 

                                  



criação: lisandro staut