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Quem perde é o Tel, espectador

Vivian Vergílio

Tel, mais um espectador comum e brasileiro. Vítima da ordem capitalista, até deita na cama pra ver "as quentinhas" do noticiário. Conectado a três emissoras no horário nobre e no horário dos nobres, dá pra receber o mínimo de informação.

Na voz bem posta do âncora e nas imagens ele vê gente, muita gente. Vê gente correndo pra várias direções, gente fardada, gente curiosa, gente desesperada, gente sem saber de nada; e vê tanques de guerra e um carro, com um buraco na lataria (feito por uma bala que saiu de um fuzil... que só pertence ao...); ele vê sangue. 

Pouco tempo depois ele vê mais gente. Vê gente correndo pra várias direções, gente fardada, gente curiosa, gente desesperada, gente sem saber de nada; e vê tanques de guerra e um carro, com a lataria toda retorcida (retorcida depois da explosão); ele vê sangue, e vê um dedo. Conclusão: ataques terroristas.

O dedo podia estar apontando para a solução dos problemas, ou não. Tudo é relativo na "era do relativismo". Ainda bem que um homem vestido de azul e vermelho apareceu para trazer paz ao aflito e justiça aos transgressores. E nem a criptonita verde o detém. Tudo em nome da "paz mundial". E um bombardeio de informações não pára.

Pediram pela paz!

Se o super-herói viesse de outro canto, de um lugar um pouco mais abaixo do supermundo, ele diria: "Não contavam com minha astúcia?" E poderia fazer quantas trapalhadas quisesse porque isso já seria de esperar. Viva o defensor dos fracos e oprimidos! O libertador é outro, mas tão atrapalhado quanto.

No outro dia, as comemorações fantásticas do "Dia D". Aviões, desfiles dos ex-combatentes e líderes das nações (inclusive russa e alemã). O coração batendo forte e todo mérito às treze estrelas. Ah, se não fosse o libertador, hoje o mundo estaria no caos sob o governo de um ditador tirano! Isso se ainda existisse mundo (c
omo se hoje a história fosse bem diferente). Tudo pela paz! Vamos unir esforços pela paz mundial.

Enquanto isso as ruas de Belo Horizonte ainda estão tomadas pelo Exército porque os policiais militares e civis entraram em greve; a tensão na Casa de Custódia de Benfica, no Rio, ainda é grande, mesmo depois de terminada a rebelião que deixou 31 mortos. Pouco além da fronteira, Maradona continua em tratamento e a oposição venezuelana continua clamando pelo plebiscito para depor Chávez. Já do outro lado do mundo, presos torturados em Abu Ghraib continuam injustiçados e crianças definham subnutridas na Somália.

Quanta desgraça gera o subdesenvolvimento! O papa pede pela paz mundial. E os preparativos na Grécia continuam.

Não é o mesmo

No outro mundo continuam as festividades. Também, o tempo não pára! E as produções em série continuam aceleradas, afinal, faltam pouco mais de 150 dias para o natal. Ainda bem que o trenó é movido à rena que deve ter sua dieta baseada no panetone e não no petróleo e nem na cana.

E no novo mundo... O super-herói de azul e vermelho frustra os planos de seu arquiinimigo, só porque o inimigo, apesar de não ter recebido tantos superpoderes, é tão esperto quanto... O inimigo sabe compensar suas limitações com a esperteza, e faz charminho - não fala se é, ou não é - e todo mundo (aliás, basicamente nosso super-herói), se convence que realmente é. E não o convençam do contrário!

Um minuto de silêncio em homenagem ao ex-presidente norte-americano Ronald Reagan. E à princesa Diana também, agora acusada de infidelidade sem ter a chance de se defender. E, enquanto isso, lá na terra dos indisciplinados...

Malditos iraquianos! Não sabem que quando se faz um minuto de silêncio não se pode soltar bombas? Se não conseguem se controlar, se não têm disciplina alguma, ao menos usem suas armas silenciosas, as armas químicas que sabemos que vocês têm (não foram achadas, mas sabemos que vocês têm porque vocês têm). Também a intuição feminina da miss Estados Unidos, Shandi Finnessey, diz que "foi feito o que tinha que ser feito"; então elas devem estar escondidas em algum lugar.

Daí todos os rebeldes vão para Abu Ghraib, ficam em companhia da soldada Lynndie, aquela com carinha de menina, e sob vista grossa do secretário de Defesa Donald Rumsfeld. Pelo bom e claro português no extenso texto que descreve as torturas no Iraque (desde a época de Saddam), só mudou o sujeito porque o verbo e o predicado continuam o mesmo - inclusive o local - Abu Ghraib. E o sujeito é ativo, sob a forma de passivo, muito passivo. Passivo até demais, pra falar a verdade. 

Se correr, o bicho pega...

Foi no Vietnã e foi no Iraque. Ainda não foi em Cuba. Mas já foi na telinha brasileira. Daqui a pouco será na reserva indígena de Rondônia, afinal, os índios cintas-largas não cometem barbáries por lá? Só falta os norte-americanos invadirem a Padaria do Tio Pedro só porque lá ele tem armas de destruição "em massa". Facas de corte, de serra, garfos e outras utilidades domésticas. Armas brancas, é claro. Estas sim, existem.

E enquanto as olimpíadas não começam, o Tel, espectador, continua vendo as imagens cada vez mais "pobres" dos países pobres, e vê as desgraças e infortúnios - causados pelos cidadãos dos países pobres - a que são acometidos os países desenvolvidos. 

Desenvolvidos em ocultar ao resto do mundo seus problemas sociais e pilantragens. Pois bem, reforçar uma imagem garante o status.

Ao desligar seu televisor, Tel está bem informado. Ele sabe que nos países pobres há muito mais miséria, desgraças, mortes, rebeliões, analfabetismo; sabe que não há leis. E também foi informado que nos países ricos (pode-se usar no singular), as notícias giram em torno das carinhas maquiadas que aparecem nas páginas da coluna social. Seus eternos ídolos. Via de regra, qualquer desastre ocorreu porque um estrangeiro, tão bem-acolhido no mundo desenvolvido, é um selvagem. É por isto que seu país ainda é subdesenvolvido!

O Tel, espectador, aprendeu muito em duas horas quando exposto às informações. Esta é a história dele. Amanhã será assim também porque ele não passa de um espectador, comum e brasileiro, vítima da ordem capitalista, que até deita na cama pra ver "as quentinhas" do noticiário e fica conectado a três emissoras no horário nobre e no horário dos nobres, recebendo o mínimo de informação. Na omissão ou na interpretação errada dos fatos, quem tem a perder é ele, o Tel, espectador.

"Que venha o desenvolvimento!", exclama Tel. "Que mostrem como é ser de primeiro mundo", suspira o espectador. E todos anseiam pela paz mundial. E todos agem em nome da paz mundial. Inclusive o Tel, espectador.

                                        



criação: lisandro staut