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A feira do esporte

Sandro Heringer

O rumo que o telejornalismo esportivo tomou ultimamente enche de assunto os críticos de plantão e ao mesmo tempo esvazia o estômago do telespectador brasileiro que se vê diante de tamanha falta de opção. Para começar, o estilo dos apresentadores é o mesmo, pode conferir, só muda o logotipo no canto do vídeo, até a tonalidade das narrações é a mesma, e as gírias também. Vai saber onde começou essa mistura de informar com aquele jeito impertinente como se a verdade tivesse um único dono.

A telinha está abarrotada deles. É comparável à uma feira livre. Acontece quase no mesmo horário, os vendedores querem falar um mais alto que o outro, e é só o consumidor andar mais um pouquinho que acaba encontrando um tomate menos podre para pôr na salada.

A diferença é que na feirinha a variedade de frutas, legumes e verduras é bem maior que o cardápio de esportes oferecido pelos programas. O velho futebol, que nunca sai de safra, a penca de gols é fresquinha e barata. E ocupa 80% do prato do dia. Yes! Nós temos futebol! Mas o esporte se resumiu a isso? Cadê o telejornalismo esportivo?

Para o tão aclamado padrão Globo de qualidade, o produto "esporte", deve ser de preferência exclusivo, vindo de plantações altamente controladas e despachado direto da cidade maravilhosa. Na feira livre esportiva, a banca do Globo Esporte e do Esporte Espetacular, os únicos programas do gênero da casa, a especialidade são os times de futebol do Rio de Janeiro e de São Paulo, enfiando goela adentro do povo brasileiro sabores que não fazem parte do seu paladar diário. Cadê o tempero do Nordeste e os sotaques do Sul? Não é à toa que o Corinthians e o Flamengo são as maiores torcidas. O segredo é a uma boa cobertura lobista.

E para se destacar entre os berreiros dos feirantes e conseqüentemente vender mais, uma generosa pitada de humor global vai bem. Como diziam lá trás, o povo quer pão e circo. Então, palhaçadas nele. Destaque para os comentários sem graça, com a pretensão de serem engraçados, entre uma matéria e outra de Mylena Ceribelli, Tino Marcos e companhia. "Precisávamos fazer com que o Globo Esporte voltasse a ser divertido. O esporte estava passando por uma mudança que a televisão não tinha entendido. Nossa proposta era transformar um fato esportivo em um evento de entretenimento", são palavras do ex-editor-chefe do Esporte Espetacular, Décio Lopes. 

Um dos programas mais antigos da rede, o GE completou no último sábado, 24 anos, tendo sempre aquela música de abertura, que só de ouvir já dá vontade de almoçar. Entre uma garfada e outra, o telespectador fica entretido durante trinta minutos. Segundo o chefe de reportagem do GE, Lédio Carmona, "ele está para o Jornal Nacional assim como o Esporte Espetacular está para o Fantástico". Eu iria além, colocaria umas colheradas de Vídeo Show e Casseta & Planeta

Principalmente o EE, que recentemente completou 30 anos, inspirado no programa da rede americana ABC, o Wide World of Sports é entretenimento puro. Exibido nas manhãs de domingo, ele se propõe a exatamente isso. Uma miscelânea de gincanas com artistas, entrevistas com atletas em suas casas, desafios radicais com celebridades, e no meio disso tudo, um pequeno espaço para os esportes. Tudo isso com muito humor. E nesse quesito, alguns repórteres enfiam o pé na jaca. Destaque para o engraçadinho Régis Röesing, que leva troféu abacaxi com louvor, trazendo reportagens cheias de teor irônico.

Mas nessa banca nem tudo passou do ponto. As transmissões ao vivo de eventos esportivos, como futebol de areia, atletismo, vôlei de praia e de quadra, automobilismo, dentro do Esporte Espetacular, são interessantes e divulgação de esportes desconhecidos do grande público, como por exemplo as matérias dos VI Jogos dos Povos Indígenas, exibidas em novembro de 2003 são no mínimo curiosas. Sem falar na ampla cobertura que ambos os programas globais estão dando sobre os Jogos Olímpicos em Atenas. É um presente, e não de grego. 

É isso aí freguesia! Assim como na feira livre, o que tem qualidade o cliente leva para casa, o que não presta, também. Na hora da xepa a disputa é acirrada. Tem sempre alguém comprando banana sem saber que está estragada.

                   



criação: lisandro staut