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Mídia, média e educação

Rômulo Gomes

Avanços significativos nas tecnologias de comunicação elucidaram novos meios de realizar funções sociais existentes numa sociedade. Destas funções, uma que assume primorosa importância é a educação. Essa, quando aliada às ferramentas da informação, adquire novas redes de infiltração sendo percebida por nichos cada vez mais peculiares.

A era da educação a distância é iniciada em todo mundo com o uso estruturado de televisão, rádio e agora, a internet. Dentre as iniciativas, a que certamente possui o maior número de adeptos no Brasil é o Telecurso 2000. É o veículo mais popular de ensino a distância no Brasil. 

Por ser uma iniciativa da Fundação Roberto Marinho (FRM) e da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), o Telecurso é acrescido de notável divulgação e credibilidade. Além deste fato, é apoiado por instituições como: Fundação Padre Anchieta, TV Cultura de São Paulo, Ministério da Educação e Fundação Bradesco. Isso lhe confere grande autonomia e articulação de trabalho, como o novo projeto Telessalas, entre outros, que visa atender 75 mil trabalhadores que por algum motivo interromperam os estudos.

O Telecurso foi criado em 1995. Mas essa idéia de educação a distância surgiu em 1978, apenas com outro nome. O Telecurso 2000, como se apresenta nos moldes atuais, é só uma evolução de outros projetos. É a fusão de duas iniciativas anteriores. Uma deles era o Telecurso 2.º Grau, lançado em janeiro de 1978, pela TV Globo. Foi feita uma parceria da Fundação Roberto Marinho com a Fundação Padre Anchieta, e da TV Cultura de São Paulo. O outro projeto era o Telecurso 1.º Grau, que foi ao ar em março de 1981, resultado da parceria - outra vez Fundação Roberto Marinho - com o Ministério da Educação e a Fundação Bradesco.

Um leque de parcerias e apoios de grandes empresas e renomadas instituições dão o suporte que projeta o programa para dez emissoras: Canal Futura, TV Globo, TVE, TV Cultura, TV Vida, TV Minas, Sistema Sest/Senai, Globo Internacional, TV Ceará e TV Escola. Talvez esse seja um dos fatores que o tornam um dos programas de educação a distância mais reconhecidos do País. 

Os meios pelos quais são realizadas as aulas são muito simples. Um videocassete ou antena, uma televisão, apostilas, lápis e papel. Esse material combinado ao processo do conhecimento pela comunicação, transforma-se num sistema inovador e simples para educar. Assistir um programa exibido às 5h30 da manhã pode não parecer fácil, mas para quem está acostumado a trabalhar muito cedo, não vê grandes dificuldades.

Exemplos e projetos

Entre os vários cidadãos educados pelo sistema, figura o sindicalista Vicente Paulo Souza, o Vicentinho, ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Vicentinho parou de estudar, por falta de tempo, quando cursava a oitava série. Em 2003 estava no último ano de Direito na Academia Paulista Anchieta (Uniban).

Na matéria publicada no Suplemento Feminino de O Estado de S. Paulo em 4/1/2003, Fabiana Caso reproduziu uma citação de Vicentinho: "Comecei a estudar pelo Telecurso em 1996. Quando não podia ver, gravava e levava as fitas e os livros para qualquer lugar que eu fosse, da Bahia aos Estados Unidos."

O Telessalas tenta diminuir o analfabetismo para cerca de 75 mil trabalhadores no Brasil. O projeto tem como base a criação de salas distribuídas em todo o País, das mais diversas formas, desde em centros de convenções de empresas a espaços cedidos por igrejas e outras instituições.

Politicagem

Mas a educação a distância não é só um sonho apenas de ícones como o Telecurso 2000. Existem inclusive preocupações políticas. A ocasião da criação das Leis de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em 1996, mencionava a educação à distância em dois de seus artigos. "O poder público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância", "prover cursos presenciais ou a distância aos jovens e adultos insuficientemente escolarizados". Estes são trechos dos artigos 80 e 87, respectivamente, que denotam a preocupação com esses meios para a educação.

Entretanto, essa preocupação se mostra um pouco tardia e inexpressiva, em alguns momentos. A educação a distância poderia ser um bom meio de ampliar o ensino superior no Brasil. Mas, como demonstra o presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), Fredric Michael Litto, isso não ocorre. De acordo com ele, o conservadorismo do governo e das instituições impede que o projeto seja realizado. "Existem cerca de quatro mil faculdades na fila de aprovação para ensino à distância", afirma Litto, que desde 1971 é professor titular da Escola de Comunicação e Artes da USP atuando no Departamento de Cinema, Rádio e Televisão.

Litto tem importante papel na democratização da educação a distância no Brasil. Ele é coordenador científico da Escola do Futuro, laboratório interdisciplinar de pesquisa da Universidade de São Paulo (USP). Esse projeto propõe o estudo investigativo das tecnologias da educação que vem surgindo. Neste ínterim, insere-se a educação a distância como meta, mas que não se concretiza. 

Porém, o artigo 87 da mesma lei instituía que os esforços na área deveriam ser contundentes. Os oito anos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ilustram esse fato de uma forma mascarada em números significativos, mas não em obras qualitativas de ensino. Daí a queixa de Litto.

Outras iniciativas

Aliado ao Telecurso 2000, o Brasil conta com outros meios de proporcionar educação aos alunos tardios do Brasil. O Instituto Monitor criado em 1940 oferece cursos de especialização profissional para mais de 12 mil alunos. E o Instituto Universal Brasileiro conta com 80 mil alunos no supletivo. Esses são exemplos que a educação e distância tem causado bons efeitos.

Os dois institutos têm o aval do Conselho Estadual de Educação de São Paulo e, normalmente, possuem alunos acima de 25 anos. Diferentemente do Telecurso 2000, os serviços são pagos: 24 a 80 reais mensais. Mas promovem um importante serviço para a educação da sociedade desprovida de instrução.

Mas pensar que tais propostas são novas, ou verde-amarelas, é um equívoco. Um exemplo disto é a solução que a aventureira família Schürmann usou para educar seus três filhos antes de partir em busca do sonho de velejar pelo mundo. Depois de tentar matricular os filhos em escolas comuns, a família Schürmann conheceu a Calvert School. Era uma escola americana com mais de cem anos de tradição especializada em ensino a distância para crianças que trabalham em circos, moram em barcos ou têm a vida comprometida com tempo e distância. Assim, eles buscaram esse serviço que mandava todo o material de uma vez, inclusive lápis e borracha, e depois as crianças fazem as avaliações nos países em que aportam.

Um dos filhos da família Schürmann já foi estudar sobre a internet nos Estados Unidos. Outro fez curso de Cinema na Austrália. E o terceiro preferiu continuar no barco com os pais. No site da Abed, onde se encontra o relato, a mãe das crianças Heloísa Schürmann, menciona que "a metodologia é muito boa. Ensinam as coisas de uma forma empírica e estimulam a criatividade dos alunos nos trabalhos".

O fator interessante desse ensino é a metodologia. Importantes armas tem são usadas para facilitar a assimilação do conteúdo pelos alunos. O Instituto Monitor e o IUB, por exemplo, utilizam o meio gráfico para realizar as aulas. Já o Telecurso 2000 usa o poder da imagem e do som, aliado ao meio gráfico. Além de usar exemplos extraídos do cotidiano das pessoas para ilustrar as situações-problema das disciplinas. Vicentinho afirma que "a metodologia do Telecurso é ótima, porque se baseia na realidade. Freqüentei apenas poucas aulas do cursinho e passei no vestibular".

O novo modelo de Telecurso 2000 rendeu um importante meio de construir o conhecimento de outras pessoas. Até surdos podem se beneficiar do projeto com edições legendadas em que os programas seguem rigorosos padrões para serem produzidos com legendas.

Muito é falado sobre a educação a distância e a mídia tem contribuído com o seu papel social, seja na educação fundamental ou mesmo na pós-graduação. Tais veículos de aprendizado a distância podem ser um meio interessante de gerar novos conhecimentos. 

Porém, cumpre pesquisar os efeitos dessa empreitada midiática, pois, os resultados não sendo estudados, podem esconder conseqüências ainda não previstas. Não se trata aqui de menosprezar as iniciativas, pelo contrário. Incentivar a pesquisa para aprimorar o método e verificar seus reais efeitos é amenizar os colaterais desnecessários. 

Afinal a mídia costuma fazer média de si mesma. É uma função metalingüística subjacente.

                   



criação: lisandro staut