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Jornalismo ou Propaganda? 

Dalvina Nascimento

Em alguns casos, quando o leitor busca notícia ele não sabe se está lendo conteúdo jornalístico ou um informe publicitário. Isto porque no Brasil a existência de "matérias pagas" tem se espalhado em diversos jornais e revistas. Isso ocorre, principalmente, nos meios de pequeno e médio porte que não possuem independência financeira. Então aceitam dinheiro para fazer publicidade para algum patrocinador dando uma "cara de notícia". 

Esta prática é proibida pela Associação Nacional dos Jornais por meio do código de ética. No entanto, muitos casos são registrados. Segundo o IBGE, o Estado do Paraná é considerado o sexto mais rico do País. Em 2002, gastou mais de 86 milhões de reais com publicidade e propaganda. 

Desse total, o equivalente a mais de seis milhões de reais foram para reportagens pagas em 76 veículos de comunicação - 68 jornais, 6 revistas e 2 colunas. Na época, Jaime Lerner (PFL) era governador. (Observatório da Imprensa, Fernando Rodrigues, 2/9/03). 

José Arbex Jr, no livro Showrnalismo - A Notícia como Espetáculo (2001), fala de como a mídia contemporânea transformou guerras, catástrofes, tudo em espetáculo. Hoje, o jornalismo tende a transformar merchandising em noticiário. 

TV Pessoal

A Rede Record, que completou 50 anos, atualmente tem como proprietário o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. Entre seus programas jornalísticos estão: Fala Brasil, Edição de Notícias, Tudo a Ver, Cidade Alerta, Repórter Record, Domingo Espetacular e o Jornal da Record apresentado por Boris Casoy.

Analisando alguns desses programas, não ficou evidente reportagens que beneficiassem algum patrocinador, isso porque o principal patrocinador é o próprio mantenedor. Mas isto não é suficiente para garantir essa prática não tenha sido adotada em algum momento pela emissora. Isso porque foram registradas denúncias que comprometem a credibilidade do veículo, como na matéria de Daniel Castro, colunista da Folha de S. Paulo.

Na reportagem, Castro fala do acordo que a Petrobrás fechou com a Record para que fosse veiculada até o final do ano uma série de reportagens na emissora. De acordo com ele, a Folha apurou que a "parceria" inclui uma veiculação no programa Repórter Record, 22 reportagens no Domingo Espetacular e uma série com Ana Hickmann no Tudo a Ver

O colunista diz que o Repórter Record já foi ao ar dia 13 de setembro, quando mostrou a plataforma de extração de gás, Urucu, ecologicamente correta. A produção foi da Record, mas a Petrobrás cedeu o helicóptero e "imagens complementares". Ele acrescenta que foram mostrados aspectos positivos dela como, reflorestamento e alfabetização de adultos. 

Daniel Castro, num artigo publicado no site da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), disse que no Domingo Espetacular a ação da Petrobrás deve ganhar o selo "Repórter Radical - BR" e terá como pano de fundo investimentos da estatal em esportes e ambiente. A Petrobrás fechou em junho a compra de uma cota de patrocínio do futebol da Record por R$ 12 milhões e levou como "bônus a parceria jornalística".

Douglas Tavolaro, diretor de jornalismo da emissora, justifica que a Record tem plena liberdade editorial. A Petrobrás não se manifestou. A mesma notícia aparece no site Vox News em 24/9/04. A emissora também é citada como parte no ranking da baixaria.Tudo isso compromete a seriedade da emissora.

Soma-se a isto a liminar determinada pela Justiça Eleitoral do Rio que tirou a TV Record do ar dia 20 de setembro por 22 minutos. Motivo: a exibição do programa Repórter Record que favoreceu o candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PL). Desse jeito, fica difícil ver separação entre departamento de jornalismo e comercial. Isso é uma vergonha!


                
                                        



criação: lisandro staut