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Consumo
de cultura
Rômulo Gomes
Cultura como manifestações peculiares de um povo, é uma coisa. Cultura significando uma rede de televisão pública que transmita valores e expressões de uma sociedade, também é outra coisa. O que diferencia "cultura" da TV Cultura é a versatibilidade que o veículo adquire com sua abrangência nacional. A cultura pode se delimitar a uma região, um Estado. Mas quando transmitidas por satélites, extrapolam qualquer plano estratosférico e pousam em qualquer lugar.
De fato, é uma história interessante. Afinal, colocar cultura no ar é realmente algo espantoso. Principalmente quando se admite um País com diversidades tão exorbitantes e manipuladas por uma política freneticamente escalafobética como a do Brasil. Como admitir subsistência para algo tão caro. Como sustentar uma rede de televisão, e ainda, veicular algo que não chama tanto a atenção? Apesar de seus méritos visíveis, a TV Cultura tem ainda outros truques, bem mais escondidos.
Criada em setembro de 1967, a Fundação Anchieta - Centro Paulista de Rádio e Televisão Educativas - que cuidava da TV Cultura e das rádios AM e FM homônimas à TV, iniciou seu trabalho. A instituição dessa fundação, realizada pelo governo do Estado de São Paulo, visava conceder autonomia administrativa para a rede de televisão evitando mudanças drásticas quando o governo estadual fosse mudado. Isso criou certa independência, e por outro lado, o eterno problema da TV Cultura: dependência dos investimentos do Estado.
Como se sabe, para ser mídia é preciso estar na mídia. Ou seja, qualquer veículo impresso, radiofônico, televisivo deve ter um bom número de anunciantes e uma boa relação com publicidade para se manter noticiando. Tratando-se de TV Cultura isso ocorre de maneira diferente. Seus investimentos advêm do Estado, poucos recursos são provenientes da publicidade, especificamente. Quando se diz poucos, leia-se 20 % de recursos baseados em publicidade e terceiros, aliados à 80 % de assistência direta do governo.
Esse panorama parece criar alguns paradoxos intrigantes. Não é preciso ser economista para saber que o governo "nunca tem dinheiro", isso, até um indivíduo lunático sabe. Portanto, 80% de investimentos estatais não significa muito dinheiro, mas sim, uma quantia que, dividida em 100 partes deliberam 80 que são responsáveis por órgãos federais. Sendo assim, o investimento sendo de 10 mil reais deixaria oito mil sob a tutela do estado, ou por sua vez sendo de 100 milhões restariam 80 milhões para serem investidos pelo governo. Tupiniquismo à parte, é mais fácil pensar nos 10 mil reais.
Pelo menos quando se pensa nas possibilidades da TV Cultura, e é vislumbrado o que se assiste - ou melhor "reassiste", "(re)reassiste, e depois assiste depois de uns dois ou três meses de reexibição. Esses problemas, em parte, são gerados pelas impossibilidades da emissora em custear seus projetos. O problema persiste como afirma Glauber Piva, sociólogo e Secretário Nacional de Cultura do PT: "a TV Cultura de São Paulo tem sido, ano após ano, relegada à desimportância pelo governo estadual no que diz respeito aos investimentos".
Uma rede que já contou com inúmeros profissionais como Paul Singer, e outros professores sociólogos, inclusive alunos que se formaram na Escola de Comunicação e Arte (ECA) da USP, têm um potencial para se destacar cada vez mais no cenário nacional. Isso por que a TV Cultura tem uma capacidade muito grande em inovar. Exemplificando, foi a primeira rede de televisão a ter um ombudsman. Ou seja, a preocupação com o telespectador começou a existir, e o desejo de crescimento e inovação foi sempre almejado.
Audiência adequada
De acordo com a filosofia da rede, a intenção é não "querer contemplar todo mundo ao mesmo tempo através da vulgarização da programação. O que se pretende é uma audiência adequada", conforme visualizado no site da emissora. O texto do prossegue: "A Cultura (emissora) não orienta sua programação pelos mesmos critérios de audiência das TVs e rádios comerciais".
As dualidades não deixam de existir. Assepcionando as sátiras, o investimento sendo feito, na maior parte, pelo governo cria uma certa liberdade e limpeza na programação. Sem intervalos mediados por máquinas de lavar, incríveis sofás de ar tão versáteis como o Kama Sutra, ou aparelhos de musculação abdominal que parecem pequenos aeromodelos. A publicidade polui a programação. Mas, lembrando do paradoxo surge uma dúvida: será que uma dependência do governo não provocaria insurreições personalistas e que influenciassem na programação da emissora?
Segundo Osvaldo Martins, ombudsman da TV Cultura, a finalidade da emissora
"é servir à sociedade. Apesar de veicular publicidade, não se submete às pressões do mercado". Neste ponto, a publicidade poderia ser um problema, explica Martins. Sendo uma autoproclamada TV pública, não tem vínculos ideológicos com governos ou mercados. Mas esta questão deixa dúvidas de quem estaria interessado em bancar uma TV assim, já que nem mercado ou governo podem interferir. E se a justificativa é a de que o governo deve zelar pela manutenção e divulgação da cultura, nesse caso, volta-se à teoria da porcentagem citada acima relembrando a facilidade da decorrência dos 10 mil reais.
Mas tratar de publicidade numa emissora como a TV Cultura é realmente complicado. Se num repente há problemas devido à dependência com o governo, por outro, os investimentos em publicidade comprometeriam uma série de benefícios da rede. O que impressiona mesmo é a vanguarda que a iniciativa da TV Cultura promove com sua programação e novidades que tem implantado na televisão brasileira.

criação: lisandro staut |
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