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Literatura campestre  

Thiago Campossano

Jornalismo literário muitas vezes assume o sentido de ser romance em reportagem. Isso pelo fato de se associar, na maioria das vezes, a palavra "literário" a romances. Mas no jornalismo, o mesmo encontra numa ligação com a literatura, lugar para a exposição de detalhes e riqueza de expressões, até mesmo poéticas. O programa Globo Rural é um conjunto de imagens e sons "literárias".

No dia 06 de janeiro de 1980 ia ao ar o programa jornalístico Globo Rural, para noticiar o homem do campo e suas atividades. Nos seis primeiros meses, a duração era de meia hora por programa aumentando para uma hora diante da grande receptividade. Ao final do mesmo ano, a revista Veja mencionou ser o melhor programa do ano. E a partir de 2000, passou a ser exibido de segunda a sexta-feira.

Fato interessante é que a aceitação é grande inclusive nos centros urbanos, não somente em decorrência das ligações rurais - que vão desde mera admiração pelo campo até a posse de terras - mas pela qualidade do programa. Sua peculiaridade reside na união com o gênero literário em todo o programa. Para começar, vamos citar o aspecto visual. 

O cenário chama tanto a atenção que nem seria necessário dizer. Imagens do campo, plantações e animais formam a "casa" dos apresentadores. E as imagens das reportagens dão o alto nível para o programa. Mostram as coisas reais das fazendas. Se for preciso mostrar um bezerro nascendo, não existe a preocupação com a sujeira e o sangue, tudo é mostrado. 

Para materializar o que se diz, no programa de 24/10/04, a equipe do jornal compôs uma matéria em resposta a uma carta de um senhor que pedia informações sobre o conserto do monjolo em sua fazenda. O interessante é que esse indivíduo era filho de "Seu Bilico", fazendeiro visitado pelo jornal há seis anos. Nessa fazenda, o Globo Rural havia mostrado curiosidades como o doce de miolo de árvore e o galo capão. Reexibiu imagens e adicionou algumas mostrando a castração dos galos. O peão abre o bicho no local adequado, corta os órgãos reprodutores e os retira com os dedos. Faz a costura e coloca, o não mais galo, e sim, galo capão, para descansar.

Essas imagens, como dito, são mais do que comuns mesmo para os que apenas vêem o programa e nem sequer têm ligação rural, os chamados "telefazendeiros". A vestimenta dos repórteres é bem a rigor: calça jeans, botas, cinto e chapéu. E algumas vezes em cima de cavalo. A sonoplastia também encanta e atrai o telespectador. Músicas com o famoso som do mato preenchem as reportagens e marcam a entrada do programa, com sua vinheta conhecida ao longo dos anos. Matérias sobre como cuidar do gado, o toque do berrante, a viola em volta da fogueira e outras mais, marcaram muito na sua história.

Mas como não deixa de ser um jornal, a base de sua qualidade literária encontra-se nas palavras. O jornal possui várias sessões em que encontramos as expressões mais caipiras, principalmente nas grandes reportagens. No dia 17/10, foi exibido um especial sobre a atividade pecuária em Rondônia. O sucesso com raças cruzadas, bezerros de proveta e o aumento da produção comercial foram amplamente enfatizados. O nascimento de um bezerro, com auxílio de um veterinário, foi umas das imagens durante a matéria acerca da produção de embriões em laboratório. 

Após o esforço do veterinário junto ao parto bovino, o repórter pronuncia a seguinte sentença: "Parece que foi você quem pariu..." e leva o microfone à suposta "mãe" para ouvir seu comentário. O diferencial está no modo como o homem é tratado. A figura do homem é extremamente importante. Mesmo que mostrando uma plantação de café, ou uma criação de ovinos, o papel e o trabalho do homem rural é valorizado pela forma poética com que o repórter narra a matéria. 

Esse é somente um caso dessa mistura. Dessa - se bem elaborada - maravilhosa mistura. A vida rural tem cada dia mais alcançado seu estereótipo de admirável, o que torna o conteúdo do Globo Rural cada vez mais rico e explorado pelos "jornaliterários".