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Arte
de contar boas histórias
Paulo Tetzner
O jornalismo literário para muitas pessoas é representado por meio das grandes reportagens escritas. Essas são destinadas aos jornais, revistas gráficas ou livros-reportagem. Nascido e desenvolvido dentro do jornalismo impresso, o gênero literário trouxe da literatura procedimentos de observação, descrição e narração.
Segundo o jornalista Edvaldo Pereira Lima "o jornalismo literário envolve a imersão do repórter na realidade que deseja retratar. Envolve a exatidão no relato de acontecimentos e situações da leitura simbólica do mundo que observa. Une razão e lógica". Um ponto marcante e importante no jornalismo literário é a presença de pessoas na narrativa, incorporando histórias de vida dessas personagens.
O jornalista Sérgio Vilas Boas comenta que "houve um abandono do jornalismo literário com a mecanização da notícia". Ele complementa explicando que, tanto jornais quanto jornalistas "desconhecem que é possível alternar notícia com jornalismo literário dentro de jornais e revistas".
Dentre os meios de comunicação eletrônica que desenvolvem o gênero literário, o mais destacado é o programa
Globo Repórter. Detalhes dos fatos e dos personagens fazem do
programa um espaço para "contar boas histórias". Usando sempre temas atuais, "infiltra" o máximo possível na pesquisa, apuração e apresentação das matérias apresentadas.
O produto
No programa de 15 de outubro de 2004, intitulado "Moradores de rua", o programa mostrou a realidade "nua e crua" das pessoas. Como vivem, idealizam seus sonhos, medos e angústias, por estarem "habitando" nas ruas, praças e pontes das cidades brasileiras e do exterior.
Angústias como a morador de rua Pedro Rodrigues da Silva, que já teve família, casa própria, carro, foi garçom de restaurantes refinados e até chegou a investir em um negócio próprio. Mas, devido à bebida, perdeu tudo. Só restou a lembrança da filha, esposa e amigos. "Tenho saudades de casa, mas eu tenho vergonha de ir para lá. Sou um garçom decente, mas estou sujo", comenta Silva.
Na edição de 22 de outubro de 2004, a pauta foi sobre gravidez na adolescência. Perigos e prazeres, pílula do dia seguinte, camisinha ainda é problema, troca de casais, educação sexual e hora de tomar pílula foram os assuntos apresentados na seqüência de cada bloco.
A pesquisa feita pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e apresentada no programa, mostrou que de cada três crianças que nascem no Brasil uma é filha de mãe adolescente. É o caso real revelado pelo repórter, da garota Bruna, de apenas 14 anos, grávida do namorado de 19 anos. "Sonhava em ser cantora. Todo mundo fala que eu tenho dom para ser cantora", relata a menina insegura por ter que assumir uma responsabilidade tão grande como um filho.
Verdades contadas
Interessante é que mesmo tendo inovações como "jornalismo literário digital" a temática continua parecida com a de seu surgimento, em 1960. Liberdade sexual, movimentos feministas e drogas eram os assuntos constantes reportados em revistas como a
Realidade e Diretrizes, grandes precursoras desse segmento.
Nos exemplos, citados acima a "imersão" é que criava o clima monólogo, depois cinema, depois documentário. Mas sempre com resultado jornalístico. Vilas Boas explica que esse aumento na midiatização em jornalismo literário é possível. Segundo ele, "não é o meio que determina, nem o tamanho, nem o tempo. Isso seria ter uma visão de mundo muito estreita". O campo de atuação do jornalismo literário ainda não é muito extenso, mas é promissor.
Depoimentos, entrevistas, pesquisas, tempo e muita busca atrás da informação.
Globo Repórter é, sem dúvida, um espaço onde o jornalista pode exercer com muita facilidade a arte de "contar boas histórias". "Contar", porque ele vai até o fato, pesquisa e reporta. "Boas", porque devem ser bem contadas. E, "histórias", porque de estórias o mundo está cheio, e fantasiar sobre o que não existe é quase loucura, principalmente pra quem quer degustar a notícia. Enfim, jornalismo literário, mesmo que digital.

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