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Professores
asssassinos
Victor Drummond
É difícil imaginar um indivíduo que não tenha entrado em contato com desenhos animados durante a infância. Não estou me referindo aos leitores que passaram os momentos infantis durante as décadas de 20 (ou antes desta), 30, 40 ou 50 (nesta última, a televisão ainda estava em seus primórdios aqui no Brasil).
Estes cidadãos possuíam outras alternativas de entretenimento, como as bonecas de pano, os carrinhos de madeira, as bolas feitas de meia. Cresceram longe da influência da babá eletrônica, que ao invés de contar "histórias para boi dormir", exibe através dos desenhos animados, histórias surrealistas e sagas incríveis, ora cheias de amor, ora marcada por cenas brutais de violência.
Quem passou a infância ou adolescência durante as décadas de 70, 80 e 90, com certeza assistiu a desenhos como
Pica-pau, Pernalonga, He-man, Zé Colméia, Corrida Maluca, Tom & Jerry e
Pequeno Príncipe. Alguns desses ainda são exibidos, mas já não conquistam tanto a atenção da garotada de hoje. Ela está é interessada em assistir
Garotas Superpoderosas, As Trigêmeas, Bob, a Esponja, A Vaca e o Frango e
South Park.
Este último, transmitido pelo canal Fox, é uma afronta a qualquer ser humano que o assiste em sã consciência. É extremamente violento e pornográfico. As personagens principais possuem características terroristas; adoram explosões e se divertem com o sangue do personagem Kenny, que sempre morre ao final dos episódios e seu corpo é devorado por ratos. As crianças podem ouvir frases clássicas como "Sua mãe é uma prostituta", mencionando as mais leves. Um dos personagens fica tão nervoso quando meninas passam perto dele a ponto de vomitar, além de possuir um cachorro com comportamento gay.
Inocentes feiticeiros
O programa infantil TV Globinho, na Rede Globo, exibe novos cartoons, como
Ubos. Trata-se de um desenho que explora o mundo dos mágicos e feiticeiros. Um dos personagens vai para uma escola especial que prepara as crianças para serem magas e bruxas. Cassandra, aluna veterana da escola, diz frases como "as bruxas dominam e os magos babam" e "meu charme feminino é uma forma de magia".
No desenho, o telespectador encontra um príncipe que foi transformado em sapo de brinquedo por uma bruxa; um dragão anão e a diretora da escola que se transforma em uma gata. Cassandra recebe pelos correios um livro com o título
Viagem ao Centro da Terra, ponto chave da trama. O livro, chamado Ubos, conversa com as personagens e as leva para o centro da Terra.
Lá recebem a missão de destruir Zarlak, um mago supremo, traiçoeiro e cruel que está roubando toda a magia do mundo. Segundo um dos personagens, que cursa o terceiro ano da escola para magos e está se transformando em duende, Zarlak pertencia ao alto conselho de magos e foi expulso junto com seus seguidores.
O bisavô de Cassandra deu a sua vida para salvar o mundo de Zarlak, mas fracassou porque não conseguiu tirar os poderes do mago supremo. Se o leitor tem algum conhecimento da Bíblia perceberá as sutis analogias aos relatos bíblicos. Zarlak e seus seguidores podem ser comparados a
Lúcifer e seus anjos, que foram expulsos do céu, como descreve o livro de Isaías. Há uma crítica ao sacrifício feito por Jesus Cristo, quando é dito que o avô de Cassandra deu a sua vida para salvar o mundo, mas fracassou.
São a esses tipos de histórias que as crianças de hoje estão expostas. Nada vemos de comum entre a infância daquelas décadas do início do artigo com a que é desenvolvida e polida hoje pelos desenhos "infantis".
Os desenhos e o comportamento infantil
No Jornal da USP, ano XVIII, número 639, há um artigo de Yannik D'elboux que responde a esta indagação. Segundo a autora, as crianças imprimem suas experiências internas no conteúdo assistido e constroem outras mensagens baseadas no que assistiram a partir de suas próprias vivências. D'elboux acrescenta que "os desenhos animados também re-elaboram mitos, símbolos e metáforas que atingem a subjetividade das crianças, auxiliando-as a solucionar seus conflitos internos através de narrativas que tratam do nascimento, da vida, da morte, do herói arquetípico, da Cinderela, do príncipe encantado, do amor e outros (...)".
D´elboux escreveu sobre a pesquisa: "Os resultados apontam que crianças que assistiam a cenas de violência na TV com mais freqüência tinham mais relatos de agressividade na fase adulta. Os principais programas considerados no estudo foram
Cyborg - O Homem de Seis Milhões de Dólares, Justiça em Dobro, Dirty Harry, Mulher Biônica
e o desenho animado Papa-Léguas".
De acordo com D´elboux, "os pesquisadores afirmam que os homens mais expostos à violência televisiva cometeram até três vezes mais crimes ou atos de agressividade na fase adulta. E as mulheres registraram até quatro vezes mais episódios de brigas e agressões do que aquelas que não se identificavam com os programas mais violentos".
E o que dizer do inocente
Tom & Jerry? O que tem demais em um gato correndo atrás de um rato? Afinal de contas, isso é comum no mundo animal. Ao fazermos uma análise mais crítica, pode-se perceber a rivalidade, a disputa pelo espaço dentro do mesmo ambiente. É uma comparação ao que acontece entre o irmão mais velho e o mais moço, ambos querendo a atenção dos pais e disputando seu "habitat" dentro de casa. Mas, além de uma "mera coincidência", o desenho pode tornar-se alvo de contemplação no imaginário infantil e uma maneira de alcançar objetivos por meio da imitação dos atos dos personagens.
A opinião da equipe do Laboratório de Pesquisa sobre Infância, Imaginário e Comunicação (Lapic) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, que tem como principal objeto de estudo a televisão, discorda da pesquisa norte-americana. Seu posicionamento também foi publicado no artigo de D´elboux: "A psicóloga e coordenadora do Lapic, professora Elza Dias Pacheco, diz que a criança faz a distinção entre o real e a ficção antes até dos 6 anos e que a influência no comportamento poderia ser, no máximo, momentânea." Elza acredita que a televisão sempre leva a culpa pelos maus comportamentos infantis e não se analisa fatores mais importantes, como a falta de afeto e a desorganização da família no mundo atual.
Elza Pacheco, coordenadora e psicóloga do Lapic (Laboratório de Pesquisa sobre Infância, Imaginário e Comunicação) é ainda mais contundente ao afirmar que os desenhos animados podem exercer uma forte influência educadora sobre as crianças. "Ela destaca que os desenhos animados podem fornecer subsídios para o aprendizado infantil através de situações que envolvem vários temas, do amor à violência.''
Vamos às compras, papai?
Uma das produtoras que mais exploram o potencial desse público infantil é a famosa Disney. Quem não se lembra dos clássicos como
O Rei Leão (1994), Vida de Inseto (1998), A Pequena Sereia (1989),
101 Dálmatas (1996), Branca de Neve e os Sete Anões (1937),
Cinderela (1950), A Bela e a Fera (1991), Toy Story (1995),
Peter Pan (1953). Não é difícil encontrar bichinhos de pelúcia, acessórios de cama, mesa e banho, roupas, bonequinhos, jogos, quebra-cabeças e afins dos personagens. A Warner Bros também não fica para trás, promovendo a venda de brinquedos e roupas com a cara de
Pernalonga, Tazz Mania, Coiote, etc.
Entre as novas atrações da TV Globinho, as crianças podem acompanhar
As Três Espiãs Demais. Com características extremamente consumistas e preocupadas com a beleza, três jovens foram escolhidas para trabalhar em uma organização contra o crime mundial. Ao mesmo tempo em que têm que capturar criminosos se preocupam em usar roupas caras e em ganhar um emprego na Chik Boutique, uma grife famosa que pode promovê-las a
top models.
Pode até ser que a televisão desempenhe um papel educador sobre as crianças, como defendem os profissionais da USP. Mas hesitaria em deixar meus filhos à mercê de uma professora tão ensandecida que não se preocupa em ensinar a amar, mas a competir, a vingar-se e a consumir.

criação: lisandro staut |
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