|
|
|
editorial
| ombudsman |
debate
| imprensa
mídia |
cultura |
perfil | nostalgia
| opinião
em
tempo | olho
vivo | leitor
| e-mail | expediente
anteriores
| próximas
edições | inicial
Sigam-me
os bobos
Fabiana Amaral
Transmitido em mais de 120 países. Traduzido em mais de dez idiomas. No ar há 30 anos. Chegou a alcançar mais de 60 pontos de audiência e ainda mantém níveis louváveis de audiência. Suas frases e modismos, a despeito da época, são ouvidos e recitados por todos. É quase impossível encontrar alguém que não tenha extremamente vivo na memória pelo menos um episódio inteiro. Superprodução de Spielberg? Clássico de Hollywood com caríssimos efeitos especiais? Não! Oh, quem poderá me responder? "É o
Chapolin Colorado!" E o Chaves também.
Esses dois seriados foram a tacada certeira de Roberto Bolaños, um mexicano que hoje tem sua própria emissora de TV. Ninguém imaginava que dentre suas séries, justamente estas duas, feitas sem muitos recursos, com pedras e móveis de isopor e piadas toscas, que decolariam. "Não contavam com sua astúcia".
O engraçado é que as produções do "submundo" latino são sempre achincalhadas pelo povo todo, incluindo os próprios latinos. Mas se tratando de
Chaves e Chapolin, a unanimidade chega perto do real. E isso é mais engraçado quando percebemos que não existe nada demais nas produções, muito baratas, por sinal. A trama de
Chaves, por exemplo, se passa numa vila de subúrbio com personagens saídos do comum e um "que" de caricatura.
No caso de Chapolin, um herói medroso e atrapalhado, nada é tão absurdo - além de suas pílulas de "polegarina" que o reduzem a 20 centímetros - dentro da proposta de super-heróis. Ele luta com bandidos, fantasmas e monstros, mas rezando para escapar do confronto. Acaba, por sorte, se dando bem. É fisicamente e intelectualmente o contrário dos heróis americanos aos quais estamos acostumados.
Esses dois personagens - interpretados pelo próprio autor - são utilizados como exemplo de bom programa infantil e que, de quebra, agrada aos adultos. "Isso, isso, isso." Muitos argumentam ser o motivo de tanto sucesso o humor ingênuo, sem apelar para racismo, preconceitos variados, ou insinuações sexuais. Você não vai encontrar
em Chaves ou Chapolin coisas do tipo "pocotó" ou "boquinha da garrafa" e, mesmo sem piadas de mau gosto, conseguem fazer a galera rolar de rir. Eles "fizeram intencionalmente, todos os seus movimentos são friamente calculados".
E agora quem poderá nos defender?
Enfim, na atual conjuntura chega perto do que pode ser considerado pedagogicamente perfeito. Certo? "Palma, palma, não priemos cânico". Os julgamentos também podem e são feitos olhando o outro viés da história. Quem é fã dos seriados pode começar a ficar bravo com a possibilidade de crítica aos seus ídolos. "Tá bom, mas não se irrite", é só um comentário.
Os que jogam no time do contra enxergam problemas nos sucessos mexicanos e, embora alguns possam ser até radicais, outros não são tanto assim. Para começar, temos o
Chaves. Um garoto que mora num barril - e, às vezes, diz que mora no oito, casa que ninguém nunca viu - e não tem família. Mas, a despeito disso, vive razoavelmente bem, e sozinho. Não seria difícil encontrar crianças que vejam a possibilidade de morarem sem família também.
Mas não pára por aí. Nenhuma família daquele cortiço é completa. Tem o seu Barriga, mas quem é que viu sua esposa? Tem uma mulher que vive batendo no vizinho e se encontra com um amante que é professor do filho - mestre este que, ainda por cima, dá longas baforadas em seu charuto em plena sala de aula. Já Quico, filho de dona Florinda, é mimado e egoísta e nunca quer o melhor para seus amigos.
O vizinho, por sua vez, também cria a filha, pérfida até certo ponto, sem mãe por perto. Não trabalha, é alcoólatra, vive fumando e, claro, não paga suas contas e até a filha o ajuda fugir do dono da casa onde mora, para quem deve 14 meses de aluguel. Ainda tem que fugir de uma velha que vive lhe dando cantadas na esperança de desencalhar. Velha que as crianças julgam ser uma bruxa. E, curiosamente, tem um gato que se chama Satanás. "Vem cá, Satanás, vem meu bichinho!" Ui, cruz credo!
Em
Chapolin, os devaneios são maiores e a ala religiosa tem mais o que argumentar. Pode parecer absurdo, mas heróis sempre chamam a atenção para o estereótipo de Jesus Cristo. Não seria, então, de estranhar uma ojeriza por parte dos religiosos a um herói medroso em quem não se pode confiar e que só acerta, quando acerta, por sorte. Nos dois seriados encontram-se pessoas, principalmente crianças, que fazem qualquer coisa, para obter vantagens sobre os outros.
Tem muito mais que se analisar em grandes sucessos como este, mas "calem-se, calem-se, calem-se, vocês me deixam louco!" Ok. Não é que não vamos com a cara deles. Talvez esses detalhes todos tenham sido "sem querer querendo". Mas com tantos pontos contra é melhor ficar bem ligado antes de se "juntar com essa gentalha". Ops, "me escapuliu!"

criação: lisandro staut |
|