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Artimanhas
que dão Vida
Delton Unglaub
Se na época da catequização a Igreja Católica usou padres e jesuítas para propagar a mensagem cristã e conseguir novos adeptos - os índios -, hoje a televisão é o meio moderno de aliciamento.
O novo cristianismo aderiu à era da comunicação e não mais à era de segredos - como nos tempos áureos da Igreja Católica. Atualmente, as ordens secretas e mistérios foram esquecidos, pois esta estratégia não causa o mesmo efeito de antigamente. O cristianismo prega; aparece. Neste contexto, ser "exibido" passou a ser uma característica religiosa.
A Rede Vida é a mais antiga dentre as emissoras católicas e sua transmissão é nacional. Contudo, sua audiência não se compara à da Rede Record - evangélica. Os católicos reconhecem seu mau desempenho nos meios de comunicação. Antonio Miguel Kater Filho, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Marketing Católico (IBMC), em declaração à revista
Veja (8/10/03), confirma: "Aos poucos, cresce entre os bispos a consciência de que o marketing... é uma ferramenta indispensável para a reaproximação com os fiéis." Para que esta reaproximação ocorra, a TV tem sido o palco de batalhas.
A programação da Rede Vida se volta para a família. A emissora é contra a cultura do "ódio, da violência, da corrupção, e de outros males". Cada departamento da Igreja tem seu espaço. Existem programas variados como, por exemplo, mesas redondas que discutem política e temas pertinentes à sociedade, e transmissões de jogos de futebol.
Nesta rede de TV católica, a maioria dos programas é de entrevista; em geral duram entre 30 minutos e uma hora. Há ainda os programas dos padres, que duram cerca de dez minutos. Os dois tipos de atração são semelhantes.
Há ainda debates, como o Tribuna Independente, no qual o telespectador pode enviar fax com perguntas e assim participar da discussão. Todavia, nos programas apresentados, o telespectador tem que ter muito interesse no tema e alta capacidade de concentração para acompanhar tudo até o final.
Serviço à família
O site da Rede Vida deixa claro que a emissora não pertence à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ou ao Vaticano. Uma curiosidade é que afirmam não ser um "projeto religioso". A rede é comercial, mas "a serviço da família". O Instituto Brasileiro de Comunicação Cristã (Inbrac) é quem gerencia a Rede Vida.
A televisão é uma grande ferramenta para os evangelizadores cristãos; sejam eles protestantes ou católicos. A Igreja Católica, para não ficar atrás, seguiu os passos dos evangélicos no Brasil, entrando na TV e depois modernizando sua linguagem. A Rede Vida é apenas um dos vários exemplos dessa tentativa de marcar presença nos meios de comunicação.
Ainda segundo a Veja, na "indústria cultural cristã, católicos e evangélicos mantêm uma disputa acirrada e, no momento, equilibrada. A
exceção é a TV." Luís Roncari, intelectual católico, afirma em artigo publicado em 1984 na revista
Religião e Sociedade, que "se Deus quiser existir, tem que aparecer na televisão; e se quiser se fazer ouvir, não é mais suficiente a palavra, ela tem que converter-se em imagens".
Seguindo a linha de raciocínio de Roncari, a Igreja precisa disputar com os evangélicos na TV se quiser manter uma influência ativa na produção cultural do século XXI. Acontece, então, uma verdadeira "guerra santa" por novos conversos. Com o objetivo de dar vida à Igreja, os católicos investem cada vez mais na TV; como é o caso da Rede Vida.

criação: lisandro staut |
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