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A
teoria da sereia
Daniel Liidtke
Você é um marinheiro. Já navega há muitos meses e está mareado devido à paisagem monótona. Mas, de repente, ouve uma voz como nunca em sua existência. Ela o convida a se aproximar. Você segue a trilha do som desviando o barco da rota traçada e indo em direção daquilo que chama a sua atenção. Você lembra das antigas lendas e pensa: "Será que é uma sereia?"
Aquele canto é real demais para ser fábula. As fantasias de sua mente vão a mil, imaginando ser a sereia dos sonhos.
Enfim, o veículo chega ao rochedo coberto de corais de onde parece vir a voz. De súbito, você olha fixamente para o local e depara-se com uma velha, pele despencando, cabelos verdes desgrenhados, olhos fundos e membros cobertos de escamas. Desapontado com a cena dá "marcha ré" na embarcação e volta à rota original.
Por que você não ficou para ouvir o melodioso canto da sereia? Independentemente de sua opinião, pode-se dizer que a imagem obtida foi que o fez desistir do "amor encantado". Acontece que as histórias aparentemente mais ridículas trazem princípios
para diversas áreas do conhecimento humano; inclusive para o telejornalismo.
Imagem e tecnologia
Antes da Rede Globo "dominar" o telejornalismo no Brasil, a TV Excelsior iniciou com inovações nas técnicas de produção da notícia. Com o
Jornal Vanguarda, no ar de 1962 a 1965, alterado na forma e aprimorado no conteúdo dos telejornais convencionais, este adotava postura mais crítica, enquanto se detinha numa preocupação especial: o visual.
À semelhança deste, estreou no país em 1969 o Jornal Nacional. Adaptado da televisão estadunidense casou tecnologia com informação. Fazendo, na verdade, a união entre conteúdo e imagem; um não sobrevive sem o outro.
Com tecnologia de última geração, o JN ganhou cada vez mais audiência. Foi o primeiro a trazer ao
público reportagens coloridas e internacionais via satélite. Assim, acompanhando a evolução técnica mundial da imagem, torna-se o principal telejornal do Brasil - hoje, cerca de 40 milhões de pessoas assistem diariamente ao noticiário. Há quem diga que o conteúdo não é o melhor, mas vê-se como o poder da bela imagem atrai os marinheiros. Perdão, telespectadores.
Fibra ótica, edição linear e demais recursos eletrônicos permitem a busca pelo "ápice imagético". Todavia, muitos extremistas da comunicação tendem a dizer que o sucesso de um telejornal se deve a seu conteúdo; não da imagem. Todavia, a imagem mostrou ser essencial para um telejornal de credibilidade e que deseja, como todos, audiência. Não adianta a sereia ter uma bela
voz se for feia. É infrutífero um bom texto sem uma boa imagem.
Argumenta Luís Carlos Bittencourt, em seu Manual de Telejornalismo: "Uma das coisas que caracteriza o telejornalismo de uma emissora é o tratamento visual. A emissora que leva a imagem a sério sai com vantagem em busca de audiência. A notícia é para ser divulgada, mas com um tratamento visual adequado que ajude o telespectador a decodificar a informação recebida. Muitas vezes, a arte torna mais fácil a compreensão de uma
notícia. O telejornalismo usa arte para fazer mapa, selo, reconstituição, maquete, gráfico, vinheta, abertura etc. O uso de gráfico, por exemplo, torna mais fácil o entendimento de notícias econômicas. Pode ser animado e servir de base visual para um
off, ou mesmo um selo para ilustrar uma notícia."
Embora Bittencourt saliente que a imagem do telejornal não precisa "ser bonita" - como nas transmissões desfocadas de acidentes - percebe-se claramente que a qualidade da imagem está muitas vezes associada à credibilidade. A Globo, por exemplo, vestida com tecnologia de ponta, na década passada apresentava para maioria da opinião pública como emissora que mais divulgava os fatos de acordo como eles aconteciam - pesquisa inclusa em "A Imagem dos telejornais: O povo acusa",
Imprensa, junho de 1996.
Com 40,1% dos votos, contra 30,3% do telejornalismo do SBT, a Rede Globo provou a validade da imagem para conquistar os telespectadores - afinal de contas, "a gente se vê por ali". O distinto Aristóteles já apregoava há séculos: "não pode haver palavra sem imagem". Então, se deve existir imagem, que seja da melhor qualidade.
Aparência
Além da imagem nos aspectos tecnológicos, o telejornal deve também investir na aparência de seus apresentadores. A teoria da sereia confirma isso. Não adianta o âncora ler um texto perfeitamente redigido, se usa um terno desproporcional aos padrões da moda ou até mesmo de tamanho - do tipo que transparece que o defunto era maior - ou se usa cores berrantes no vestuário. Isso é muito comum em telejornais interioranos.
A Rede Globo é perita em aparência. No Jornal Nacional, como William Bonner e Fátima Bernardes. Existe grande produção estética por traz do casal popular. Regina Martelli, consultora de moda da Globo, responsável pelas inovações no visual dos apresentadores, é uma das responsáveis para "aliar harmonia e credibilidade com uma imagem contemporânea", como afirma Mariana Trigo no
Correio Braziliense, em 14/4/02. Mesmo parecendo supérflua, a maquiagem também deve ser uma preocupação; embora fique obviamente em segundo plano.
Por fim, vale lembrar que a "teoria da sereia" não tem comprovação científica. Entretanto, parece coerente dizer que a boa imagem, em todos os seus aspectos, é necessária e essencial para o sucesso do texto
de televisão. O objetivo do uso da imagem não é fugir da realidade, sensacionalismo, entretenimento ou esconder o lado feio do
Brasil, mas sim ser agradável e convidativa, diferentemente da história do
peixe-humano.
É preciso investir em modernidade de imagem para atrair. A sereia da história conseguiria seus objetivos se não fosse a sua feiúra, sinônimo de péssima imagem. Idem para o telejornal.

criação: lisandro staut |
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