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gente se vê aqui, companheiros!
Gabriel Ferreira
Atualmente tudo o que acontece no mundo, para quem não sabe, é contado pela TV. No Brasil, não é diferente. E nesse caso pela maior TV brasileira, a TV Globo. A população brasileira parece que só sabe ligar seus televisores num canal - os políticos também. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entretanto, sempre foi um pouco diferente. Remava contra a maré de Marinho e combatia a Globo como se ela fosse o próprio anti-Cristo das redes televisivas.
Ao discursar, em 6 de setembro de 1987, em Aracaju, Lula disse que a TV Globo e o Roberto Marinho "não fazem outra coisa a não ser mentir para o povo". Para surpresa e espanto do povo, desde esse dia até hoje - um ano de governo petista - a opinião do presidente mudou da água para o vinho.
Atualmente, a emissora é elogiada pelo PT e por Lula, que, depois de eleito, deu suas primeiras entrevistas exclusivas para o
Fantástico e para o Jornal Nacional. A principal preocupação da emissora de Marinho nunca foi que tipo de governo ou governante subiria ao poder, mas sim a defesa dos interesses desta classe governante. Interesses estes que, por sua vez, se transformariam em seus próprios e com os quais se passaria a identificar.
A afirmação é um pouco forte, mas fatos a confirmam. Todos os dias os olhos do povo estão ligados nos telejornais da Globo. O Brasil acorda com o
Bom Dia Brasil, almoça com o Hoje, janta com o Jornal Nacional, sem esquecer que vai para a cama com o
Jornal da Globo - e depois com o Jô. Cada um destes tem noticiado todo o trajeto que Lula fez nesta sua caminhada governamental de um ano.
Espelho dos telejornais
Quem sobe ao poder precisa ter credibilidade com a população. Os jornais e programas da Globo conseguem de uma forma mágica providenciar isto. Talvez por alguma réstia de simpatia, ou linha editorial, a emissora manteve sua postura favorável para com o opositor José Serra durante as últimas eleições. No entanto, foi ágil o suficiente para divulgar os resultados das pesquisas e convidar o novo ungido da nação para uma entrevista exclusiva no Fantástico.
Lula foi mostrado na telinha como o tão esperado presidente que viria mudar o rumo da nação verde-amarela. Somente na primeira semana do novo governo o Bom Dia Brasil transmitiu 22 de suas matérias sobre a nova Presidência, o
Hoje, 20, o Jornal Nacional eleva o número para 30 e o Jornal da Globo mais 20.
A Globo procurou passar com emoção - e intenção - o novo governo que ocuparia o Planalto. O repórter responsável enfatizou a pessoa de Lula com palavras como "um povo cheio de esperança e carente de afeto procurou o candidato do PT". Em demasiada sentimentalidade, a matéria continua relatando, "olhando para Lula e enxergando a si mesmo em cima do palanque, o povo gostou do que viu".
Estas matérias, apesar de nem todas estarem ligadas diretamente com o nome do presidente, não deixaram de somar pontos a favor do novo eleito. Desde simples comunicados sobre a óbvia instabilidade econômica - devido à mudança de governo - até a matéria especial sobre o que é bursite - dor no ombro conseqüente do acidente com Lula - os jornais da Globo ocuparam seus horários com mais de 50% sobre Lula. Depois do novo governo, novamente Lula e mais um pouco de Lula.
Após um ano no poder, os telejornais da Globo ainda se preocupam com uma coisa: informar o povo desprovido de informação - que é o seu nível de Ibope. Novos presidentes no poder trazem Ibope. Isso não se pode negar, assim como a quinta vitória na Copa do Mundo e a Guerra do Iraque. Mas nada traz mais gosto do que noticiar o que acontece dentro do Brasil, sem ter que ir para fora.
Por várias vezes neste ano de governo os telejornais classificaram a eleição de Lula como sendo uma conquista histórica e, sobretudo, fundamental. Trazendo assim uma adequada solução para a nação.
"Boa noite e até a próxima edição"
A mesma emissora que anos antes cobria perfeitamente a corrida de Fernando Collor e Lula ao poder - incluindo todos os detalhes sobre o seqüestro de Abílio Diniz, presidente do Grupo Pão de Açúcar, e de seus seqüestradores vestidos com camisetas do PT - hoje exibe um PT diferente. Seus militantes são os libertadores do povo oprimido.
Resta lembrar que a Globo tem comparado Lula ao longo deste seu primeiro ano no poder com o personagem bíblico Moisés, libertador do povo de Israel das garras do faraó egípcio. Infelizmente, a emissora falha na tentativa de comparação, pois falta a Lula abrir logo os mares que bloqueiam o avanço do Brasil e encontrar quem é o faraó que está impedindo este progresso.
Entretanto, os telejornais têm feito a sua parte. Noticiado o que existe, o que vêm e o que lhes convêm também. A Globo nisso não mudou e nem está no planejamento de "coisas para melhorar" de sua agenda.
O jornalismo da emissora parece estar dividido entre as críticas habituais ao presidente Lula e seu partido. É a postura mais otimista que um governo deveria ter, como foi pontuado um ano atrás em época de eleições pela emissora. Incrível, mas em menos de um ano se esqueceu o que defendia. Já se tornou um hábito. E os hábitos são difíceis de se esquecer.

criação: lisandro staut |
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