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Zé Pequeno parecia grande

Delton Unglaub

No século XX, pode-se destacar como ponto alto, o desenvolvimento do cinema nos Estados Unidos e, conseqüentemente, no mundo ocidental. Foi nesse período que o cinema transformou, criou e adaptou hábitos da vida do homem pós-moderno. Os americanos sabem qual é a importância desta "fábrica de sonhos". Por meio dela fabricam e vendem para o resto do planeta produtos variados e o modo de vida "americano".

O mundo se acostumou a considerar os filmes americanos como um modelo para seu próprio cinema, identificando-se com os heróis, sentimentos e até às idéias norte-americanas. A França investe quase um bilhão de dólares por ano em cinema. Já a Inglaterra, 280 milhões de libras. Mas foi o Brasil que conseguiu quatro indicações para o Oscar. Imagine o que Fernando Meirelles faria com um investimento parecido?

Pode-se dizer que a história do Brasil no Oscar nunca teve lá grande expressividade, até Cidade de Deus (2002) ser produzido. Com o sucesso do cinema nacional no exterior, o interesse do brasileiro pelos filmes produzidos no País aumentou. O cineasta Murilo Salles diz ser lógica esta premissa. Para Salles, isso já está acontecendo. "No ano passado, o PIB aumentou minimamente e a ocupação das salas cresceu 23%."

Porém, não foi apenas Cidade de Deus que trouxe esta mudança. Começando por O Quatrilho (1994), seguido de O Que é Isso, Companheiro? (1997) e Central do Brasil (1999). Estas películas acordaram o público brasileiro para a qualidade do seu cinema, sem mencionar outras produções de sucesso.

O Quatrilho, de Fábio Barreto, chegou ao Oscar só em 1996, 33 anos depois da última indicação. Fernanda Montenegro se destacou em Central do Brasil, mas não obteve o prêmio. Em O Que é Isso Companheiro?, Bruno Barreto teve chances, mas não conseguiu. Carandiru (2003) teve recepção calorosa pelo público em Cannes, chegando a ser aplaudido de pé.

Quando Cidade de Deus alcançou quatro indicações, a mídia brasileira se concentrou em torno do filme. Mas, convenhamos: falta uma boa caminhada para um Oscar atravessar a alfândega brasileira.

Segundo uma pesquisa publicada no impresso Meio & Mensagem (1.º/3/04), 49% da classe "A" não vai ao cinema enquanto 15,2% da classe "C" vai. Percebeu-se que a ascensão dos filmes nacionais revelando a cultura brasileira atraiu um público maior de classe "C" aos cinemas.

Infelizmente, as características do filme brasileiro envolvendo língua e costumes locais não chamam atenção do público internacional. Na verdade, isso acontece por causa de uma minoria que dita o que é atraente. Precisa-se de certa "politicagem" para que o mundo acolha o cinema brasileiro. 

No encerramento do Festival de Cinema de Gramado, o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, afirmou: "O cinema contemporâneo está baseado em uma nova economia que não é mais aquela dos grandes estúdios do passado, nem a da aventura solitária de alguns pioneiros corajosos. Hoje, para os incipientes cinemas nacionais que precisam se impor em seus próprios países, o nó do sistema é a distribuição dos filmes e sua conseqüente difusão."

No caso do Brasil, a ausência de um cinema nacional seria inconcebível porque, além de ser um País de destaque, tem um povo que sabe atuar de forma magnífica. O maior exemplo está na exportação de novelas. No mesmo pronunciamento, Gil defende que "nossa civilização tem a obrigação de fazer um cinema que tenha, para o século XXI, a mesma importância que o cinema americano hegemônico teve para o século passado". Será que o governo vai utilizar esta ferramenta indispensável que vem despontando no Brasil?

                   



criação: lisandro staut