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Ética
pela estética
Wendel
Lima
No mundo em que a imagem é tudo, beleza é fundamental. Com a palavra, os números. Segundo pesquisa da USP, 100% das modelos estão insatisfeitas com suas
medidas. Para a modelo, Karolina Kurkova, a mais bem paga em 2003, a sua pseudofeiura tem até rendido alguns trocados: 20 milhões de reais.
E o que dizer dos 76% de brasileiros e 86% de brasileiras que sonham em mudar a sua aparência? Se a academia é um caminho para isso, lá estão. Em 1994 eram 100 mil, em 1996 totalizavam 150 mil estabelecimentos. Parece que a geração da imagem, propositalmente apelidada de "geração saúde", veio para ficar. Pena que a saúde foi reduzida à estética.
A beleza sempre foi fator de destaque nas relações humanas. Porém, nas últimas décadas têm tomado um espaço que, até então, não lhe cabia. Antigamente era restrita a intimidade familiar ou mesmo a um círculo social limitado. Agora tem a exposição e exploração potencializada pela mídia.
Tal mudança trouxe profundas modificações na estrutura do pensamento humano, bem como nas relações sociais. O homem passa a ter valores invertidos, fundidos, confundidos. Perceber esta realidade é obrigatório. Compreender o porquê,
fundamental.
Antes e depois da mídia
Dividir a história contemporânea do Ocidente, em antes e depois da
"revolução midiática", não é exagero. Em especial, com o advento dos meios de comunicação eletrônicos. Eles venceram a barreira do tempo e do espaço. Conjugaram som, imagem e
interatividade. A sociedade que tinha a comunicação baseada no texto, agora é integrada pela imagem.
A gênese do padrão estético midiático se deu na década de vinte, com a popularização do cinema. Neste momento se consagrou o biótipo esbelto e esguio. Perfil que
perdurou por todo o século passado. O que o cinema começou, a TV e a Internet
consolidaram. E os impressos, por sua vez, seguiram a tendência.
O mais interessante é notar como os meios de comunicação constroem um estereótipo. Na interação entre indivíduo e mídia, existem dois tipos de imagens: a real e a ideal. A primeira é material, física e vivenciada pelo espectador. Há um diálogo
existente no contato social diário. O inverso ocorre na segunda, quando a imagem é
imaterial e o indivíduo apenas vivencia mentalmente. Constituí-se num monólogo
manipulado pelo emissor, no caso a mídia.
O ponto-chave nesta questão se de vê ao fato que o padrão se estabelece nessa
relação quase mediada do sujeito com a mídia. O ideal prevalece sobre o real. Nos últimos anos isso se intensificou, devido ao constante bombardeio de imagens e textos. Assim se universaliza determinado paradigma.
Seleção visual
Se a imagem pessoal exerce papel tão importante nos diversos setores do mercado de trabalho, o mesmo acontecesse sob os holofotes da mídia. Empresas que veiculam, trocam, compram e vendem imagens, "zelam" por elas. O que não pode faltar no
universo imagético são pessoas. Gente quer ver gente. E também quer se ver.
Portanto, os maiores produtos de uma emissora televisiva não são os corpos por
anunciados e celebrizados. No mundo da imagem a informação é hipertextual e ditadora. A embalagem sobrepõe o conteúdo. Com isso, competência do comunicador não é
devidamente valorizada.
Na TV brasileira, em especial, a seleção visual é mais que evidente nos programas
infantis, de auditório, publicidades e telejornais. O primeiro gênero, desde a década de 80, caracterizou-se pelo modelito "loirinha" de minissaia. Iniciado por Xuxa e quebrado pela morena Mara Maravilha, muitas vezes fizeram o gênero "colegial" sensual.
Escolhidas, sobretudo pela beleza. Pois cantar, dançar e apresentar não eram o forte da maioria delas. Foram "divinizadas" pela imagem e irresponsabilizadas pelo conteúdo.
No produto de talk show a indústria cultural brasileira se especializou. As modelos
saem das passarelas para o palco. Algumas fazem escala em revistas masculinas de
divulgação "artística". Empobrecem a programação noturna com a sua falta de cultura geral e noções de postura e técnicas de entrevista. Profissionais mais competentes poderiam estar lá.
Por sua vez, os telejornais vendem a credibilidade pela imagem. Para isso recorrem ao "padrão globo", de repórteres e âncoras, identificado pelo sotaque unificado do
Sudeste e pelo cabelo "chapado". No caso do DFTV, telejornal da Globo de Brasília, o
combinado é cabelo curto para as mulheres. Já o SBT, apelou de uma vez, colocando duas "beldades" no seu telejornal. Uma é desportista, a outra, jornalista com um currículo questionável.
A publicidade de cerveja se consagrou como a grande vitrine dos corpos definidos, bronzeados, "consumíveis" dos modelos estereotipados. Em especial as mulheres, que tinham a sua silhueta associada ao contorno do produto, consolidaram o biótipo.
Apesar de não fazer propaganda de bebida, mesmo dentro do perfil, a atriz Juliana Paes foi eleita pela revista
Boa Forma (março/ 2004) como "melhor impossível". Com 1,70 de altura,
87 centímetros de busto, 65 de cintura e 95 de quadril, é um símbolo do
paradigma estético da mídia.
Quando a beleza não é fundamental na mídia? Quando se explora a "feiúra", o que ocorre, geralmente, em programas humorísticos ou produções culturais. Coibir o
preconceito estético é difícil. Depende da denúncia daqueles que sofrem e da atitude crítica do telespectador. Quem consome deliberadamente imagem, é cúmplice da
qualidade da mensagem.
Por fim, é lamentável constatar que os valores estão invertidos. Uma mídia que advoga uma moral relativista torna absoluto algo tão subjetivo como a beleza. Uma sociedade que se tornou escrava do visual, precisa se contentar com a forma sobrepujando o conteúdo. Com a aparência sobrepondo a competência. Na cultura da
imagem se troca o juízo ético pelo estético.

criação: lisandro staut |
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