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Preconceito: goleador de sonhos

Gabriel Ferreira

Vivemos em uma aldeia global onde as distâncias são curtas e as diferenças estandardizadas devido aos modernos meios de transporte e à tecnologia avançada dos veículos de comunicação. Todos se conhecem, e por sua vez, conhecem tudo. A vida se torna massificada e o preconceito colabora com isto. Contudo, são poucos os que nunca ouviram falar, bem ou mal, do brasileiro.

Muitos viram as costas quando ouvem falar dessa gente. Outros abrem as portas de suas casas para conhecer mais da cultura e do povo tão amigável que aparentam ser. Após a Segunda Grande Guerra, o Brasil se tornava a mãe de nações, o lugar preferido de emigrantes de todo o mundo. Mas o quadro inverteu, e na década de 80 a alta inflação pesou mais na balança que o amor à pátria. Muitos partiram fazendo sacrifícios. Todos procurando um determinado sonho.

Por esta razão o preconceito, que até então só existia para com outros emigrantes - ou baseado em razões "mais óbvias" ou "mais justificáveis" como cor, etnia, grau de instrução, etc. - tornou-se uma realidade para o brasileiro. Para os leigos, preconceito é ter uma falta de educação tremenda e um desrespeito gigantesco ao fazer um pré-julgamento. Ou a quem generalizamos determinado comportamento.

Mas isto já vem de longe. Podemos dizer que começou no Brasil quando há 500 anos um navegador português, chamado Pedro Álvares Cabral, descobriu a Terra de Vera Cruz e apresentou o Brasil ao mundo ocidental com todos os seus valores corrompidos, políticas inúteis, estilos de vida consumistas e materialistas. Ao serem abusados, os índios almejavam a liberdade e a oportunidade de explorar o mundo como foram explorados.

Esta vontade de "crescer" levou muitos brasileiros a migrarem para outros países. Mas também levaram muitos a permanecer com o sonho de melhorar a nação. Os que saíram, conheceram o que é ser visto como a ralé da sociedade. Aceitando qualquer negócio para começar uma nova vida. Os que permaneceram, presenciaram um governo sem estrutura e objetivos.

Realidade dura e crua

Hoje, os brasileiros que venceram na vida no exterior são jogadores de futebol, entertainers, donos de restaurantes, hotéis, atores e o resto continuam "colonizados" nas mãos dos patrões, repetindo-se a história mais uma vez. Porque neste mundo tem que existir sempre o "escravo mal pago".

Mas a imprensa tem olhos cegos. E a européia, em todas as matérias e reportagens, acaba sempre associando os imigrantes africanos aos atos de violência cometidos em cada país. As do Leste europeu às máfias e tráficos. E o brasileiro é visto como o rei da prostituição ou um excelente jogador de futebol "duplo B" (barato e bom) para o time multimilionário europeu.

O velho continente dos emigrantes lida agora com problemas decorrentes da inserção de imigrantes. E o novo País de emigrantes, o Brasil, aprende a proteger seus cidadãos expatriados em terras longínquas. No entanto, o preconceito é acompanhado de uma variedade de justificativas, e todas elas baseadas na ignorância de alguém.

O preconceito para com o produto "made in Brasil" atingiu o extremo quando a permanência do melão brasileiro na Europa foi ameaçada. Ninguém escapou! Nem a fruta brasileira. Isso somente porque o mercado de hortifrutigranjeiros da Europa constatou que os melões brasileiros exportados são grandes demais e com uma forma ovulada. Alegam que não condiz com as famílias européias, que menores, e não proporcionam um fácil transporte e facilidade na hora de comer sobre pratos.

Voltando o foco para o ser vivente em questão, o meio-campista brasileiro, Donato, ex-jogador do Atlético de Madri, em 1991, foi alvo de uma humilhação pública por Jesus Gil, presidente do clube, só por ser brasileiro e jogar no futebol europeu. Numa de suas excêntricas idas aos balneários - antes de cada jogo para levantar o moral dos jogadores -, Gil rebaixou Donato ao lhe chamar de "morto de fome", "comedor de banana" e "ser que não sabe o que é viver em um país civilizado". Pouco tempo depois Donato jogava no Deportivo La Coruña. O time não humilhou o jogador em campo mostrando seus talentos.

Optar por novos padrões

É raro ver algum brasileiro executar algum cargo superior no exterior. E frases como "tenho sonhos a alcançar" e "desejo uma vida melhor" não são reconhecidas nem valorizadas pelos preconceituosos. Raramente os sonhos são mal-escolhidos. O fim para concretizar estes sonhos é que não justifica os meios para alcançá-los. É por estas e outras razões que o brasileiro se lasca no exterior: ganância e falta de humildade.

O preconceito que o brasileiro sofre é o mesmo que o português, o alemão, o mexicano e o chinês sofrem quando tentam algo melhor para sua vida. A maneira como o brasileiro vive é que irá erradicar, ou pelo menos conter, o preconceito generalizado.

Todos sofrem com as mudanças. Uns pela calada, outros pela descarada. O importante é que os padrões que regem suas vidas sejam de valor e honra. Povo sofrido, mas vencedor, o brasileiro continua a perseverar e não desiste na conquista de seus sonhos. 

Preconceituosas são pessoas que não sabem conviver com as diferenças que lhes cercam. Quem não consegue isso, sempre terá sempre a consciência pesada. Ou em alguns casos, recheada e pesada de tanto dinheiro que ganhou às custas de trabalhadores honestos e de gente fina, como o povo brasileiro.

                                        



criação: lisandro staut