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Ainda há lugar para Ofélia?

Leandro Oliveira

Ana Maria e o papagaio: culinária, entrevistas e reportagensSão inúmeros os programas dedicados ao público feminino, dos culinários matutinos aos fofoqueiros vespertinos. Restringirei-me aos culinários. De Ofélia até hoje muita coisa mudou. Será? 

Por muitas transformações nos últimos anos, as mulheres de hoje têm muito mais poder de expressão do que antigamente. A necessidade de atrair a audiência e de poder ajudar a mulher moderna fez com que aos poucos os programas femininos fossem sendo reformulados e outros criados. Isso, na teoria.

O programa da cozinheira Ofélia Anunciato funcionou como um divisor de águas. Seu programa tinha um cenário de uma cozinha e um grande balcão e, como carro-chefe, receitas simples, para serem feitas pelas donas de casa. Na verdade, é difícil encontrar mudanças radicais nos exibidos atualmente.

Globo, Record, Bandeirantes e Rede TV!, fazem a escadinha da culinária da TV Brasileira. Ana Maria Braga no Mais Você, Claudete Troiano no Note e Anote, Olga Bongiovani com o Dia-Dia e o trio Ney Gonçalves Dias, Solange Couto e Solange Frazão no Bom Dia Mulher.

Cada uma das atrações tem suas peculiaridades, que podem ser facilmente notadas. A exemplo, Olga Bongiovani, que detém o maior tempo de aparição na tevê, é a que apresenta o maior conteúdo jornalístico. Em companhia do jornalista Otávio Ceschi, Olga realiza um noticiário interativo com notícias de última hora, para que o telespectador tenha informação atual.

Com três horas e meia de duração o programa apresenta vários quadros, entre eles, Mães da Sé, um espaço para famílias desesperadas em busca de parentes desaparecidos.

Contrapondo, Ana Maria Braga tem o menor tempo da telinha - uma hora e meia - e, basicamente, além da culinária, trata de assuntos polêmicos por meio de entrevistas e reportagens. Nenhuma notícia é dada, ao contrário do programa de Olga Bongiovani. Apenas um quadro do programa interage com os telespectadores, chamado de Qual é a Palavra. Ah, claro, tem também as adivinhações com o papagaio...

Note e Anote: culinária gaúchaO Note e Anote, de Claudete Troiano se apresenta nos mesmos moldes do programa global de Ana Maria - talvez porque o programa já tenha estado sob seu comando -, mas com uma duração muito maior. São três horas de programa. Consta que a atração abriga os melhores culinaristas do Brasil, como Álvaro Rodrigues, Laka Brandão e Gaúcho (foto ao lado).

O trio da Rede TV! apresenta um programa em forma de talk-show, com quadros variados e interativos. A notícia também faz parte do Bom Dia Mulher, sob a responsabilidade de Ney Gonçalves Dias, mas em quantidades bem inferiores ao Dia-Dia.

Todos os femininos matutinos aqui citados fazem uma concorrência acirrada entre si, mas nenhum é destaque no Ibope, nenhum aparece entre os cinco programas mais vistos de sua emissora. Apesar de todo o esforço com cenários, qualidade dos apresentadores, modificações para atingirem a mulher moderna, eles ainda não apresentaram resultados tão convincentes.

Ofélia, a grande musa de programas da culinária brasileira, não teria dificuldade de se adequar a estas pequenas mudanças realizadas em programas deste segmento. Acredito que o segredo de Ofélia não era o seu cenário, pois os mesmos balcões ainda são utilizados. Também não era sua receita, pois podemos ter receitas com uma variedade maior hoje.

Seu segredo era sempre fazer com que o público se identificasse com ela e suas atrações, atualmente, o que pouco acontece. Apesar de tratarem de assuntos atuais como drogas, sexo, emprego, beleza e outros, a mesmice predomina com qualquer dos programas aqui comentados, somente mudando o dia de serem apresentados: em "A", o conteúdo é exibido na segunda; no programa "B" na quarta. 

Mercado publicitário sobra para o segmento feminino; o que falta são produtores comprometidos com a mulher moderna e suas reais preocupações, e não somente em chamar a atenção para dar ibope.

Com isso não queremos subjugar a qualidade profissional de seus apresentadores e produtores, mas resultados melhores podem acontecer. Caso contrário, a mídia feminina estará em estágio inicial de evolução, ou melhor, igual a Ofélia.

                   



criação: lisandro staut