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Uma novela chamada Tupi

Fabiana Amaral

"Sítio do Pica-Pau Amarelo" / Foto: TeledramaturgiaDepois de explodir no rádio, a novela tinha parada certa. A televisão foi e continua sendo o grande palco da novela no Brasil. A adição de imagens era o fator preponderante da nova versão para os folhetins.

E foi na TV Tupi, primeira televisão da América Latina, que as novelas ganharam cara e corpo. A primeira foi ao ar em 21 de dezembro de 1951 exibida duas vezes por semana. Sua Vida Me Pertence, interpretada e dirigida por Walter Forster, mostrou que o gênero não vinha apenas para deixar as mulheres quietinhas chorando. Quebrou padrões, mostrando o primeiro beijo na TV. Oh! Que escandaloso, Vida Alves e Walter Forster num absurdo... selinho!

Na seqüência, veiculou o clássico Sítio do Pica-Pau Amarelo, marcando época com os "modernos" efeitos especiais. Um dos episódios, no qual a trama se passava no fundo do mar, a maneira encontrada para o cenário foi colocar um aquário na frente da câmera enquanto os atores encenavam atrás aparentando fazer companhia para os peixinhos. Foi nesse sucesso que começaram os experimentos com merchandising. Já que não havia intervalos comerciais, os patrocinadores anunciavam na própria trama. E rendeu.

As novelas foram criando corpo, mas tudo ainda era muito artesanal. Como não havia uma produção, digamos, prolífera, o jeito era adaptar sucessos norte-americanos e de autores latinos. Outro fator que caracterizava esse processo artesanal era a realidade da época de ausência de videoteipe. Sendo assim, toda a encenação era ao vivo, inclusive os tapas e pontapés, que ficavam literalmente marcados no ator.

Alma Cigana foi a primeira novela diária da TV Tupi e do horário nobre das oito, isso em março de 1964. [Em tempo: a primeira novela diária foi na TV Excelsior, em 1963. 2-5499 Ocupado, com Tarcísio Meira e Glória Menezes.] 

As inovações não pararam por aí. Alguém já se perguntou de onde veio a idéia de colocar modelos lindas e burras para se fingir de atriz, na televisão? Quem respondeu ser uma idéia recente, enganou-se. A idéia teve início na novela A Gata (1964) caracterizada por implantar grandes reviravoltas nas tramas. Também, com tanta ameba contracenando, não admira o autor ter que mudar o enredo tantas vezes. É dessa obra também o mérito de ser uma das primeiras censuradas pela ditadura militar. Parece que os fardados não gostaram muito das inovações.

As repressões não vêm somente da linha dura. Com uma dramaticidade melhorada, os atores eram confundidos com seus personagens e foram apanhados nas ruas. Foi o que aconteceu quando O Cara Suja estreou, em 1965. Aliás, foi essa novela que deu início à saga italiana na tevê.

Percebe-se na Tupi desta época uma ascendência e atenção voltada também para os dramas sociais tomados como tabu. O exemplo disso é a abordagem do preconceito social e racial, como visto na novela A Cor da Pele, também de 1965.

Ascendência também financeira


Desde seu início, a novela é marcada por fortes pressões ideológicas, mesmo que imperceptíveis a olho nu. Nota-se também a pura e simples transferência dos dramalhões para a tevê. Sem tirar, nem pôr - quer dizer, colocando. Colocando as caras, bocas e lágrimas das atrizes. Os sucessos do rádio eram reaproveitados, com a esperança de que o que deu certo lá daria aqui também.

E dava, visto ser, ainda no início, tudo novidade. Neste caso, os autores inventavam as histórias mais absurdas, como irmãos que nasceram grudados e foram separados no nascimento. O negócio todo é que um só sentia as dores dos dois. Parece fantasioso demais, mas em 1966, em Irmãos Corso, deu certo.

Com novas televisões entrando em cena e tentando a concorrência, na TV Tupi as telenovelas foram mudando. O sucesso Antônio Maria, de 1968, marca o fim dos dramalhões. Entram em cena diálogos mais realistas, com linguagem coloquial. Era mais fácil para os telespectadores que não tinham o trabalho de entender a linguagem culta.

Inovação e preeminente decadência

"Beto Rockfeller" / Foto: TeledramaturgiaBeto Rockfeller foi talvez o divisor de águas e uma grande contribuição da Tupi para a televisão brasileira. Foi nessa trama de 1968 que se começou a trabalhar a imagem de anti-herói. É que até então, todos os protagonistas eram tão perfeitos quanto uma nota de 25 reais. Os atores eram uma espécie de super-homem, com a beleza de Brad Pitt, o charme de Richard Gere, a inteligência de Albert Einstein e a delicadeza e compreensão de, bom não existe.

Com Beto Rockfeller a realidade fica mais palatável, atingindo um público maior. Foi nessa novela que aboliram as grandes e pomposas sinfonias como trilha sonora para a assimilação de sucessos populares da época, como Bee Gees e Beatles.

Ainda nesse ano, morre o patriarca das telecomunicações brasileiras, Assis Chateaubriand, dono da TV Tupi, que antes de morrer fez o favor de angariar consideráveis dívidas. Nota-se uma decadência na programação, sobretudo nas telenovelas, que mais dependiam de verbas. A marca dessa decadência foi a novela O Retrato de Laura (1969), que teve rendimento inexpressivo no Ibope.

Uma tentativa de sobrevida foi visto com Nino, o Italianinho (1969-1970), iniciando uma espécie de neo-realismo. É a primeira novela que retrata algumas caricaturas, como a megera e o bajulador, estilo que perdura nas novelas de hoje.

As coisas não caminham bem, principalmente quando resolvem por no ar dramas a la quadrinhos. Nada pessoal contra Uga-Uga, mas Super Plá (1969-1970) e João Juca Jr. (1969-1970) foram símbolos do que não fazer em novela. Uma tentativa de misturar ação e falas de histórias infanto-juvenis. Não agradou o público. Como a versão recente da Globo teve considerável sucesso, dá até para afirmar um certo declínio no público. Pelo menos à primeira vista.

Mulheres de Areia (1973-1974) foi um estrondoso sucesso e até causou mudança social. Como a trama mostrava pescadores explorados pelo capitalismo exacerbado, foi fundada uma cooperativa em favor deles por causa da novela. A sobrevida se alongou um pouquinho com a primeira novela em cores da Tupi, O Machão, em 1974.

No decorrer da década de 70 já não dava para segura as coisas. Com a TV contendo despesas até o último, o salário dos funcionários não estava em dia e até as fitas eram reutilizadas. Foi assim inclusive, que muitas obras se perderam na História. Percebe-se que a Tupi serviu, de certa forma, nesse período de decadência, como trampolim para a Globo, que estava em alta. Muitos dos artistas passaram para a nova emissora que dava vistas de superimpério.

Em 1980, o defunto começa a feder e o caixão tem que ser fechado e enterrado de uma vez. A última novela foi Drácula, uma História de Amor, que foi vendida para Globo, com autor e elenco. Mas a Tupi agonizando ainda tenta atrapalhar o drama exibindo os capítulos que detinha em seu poder. Não deu certo.

Depois de escândalos financeiros insustentáveis, greve de funcionários e mais a marcação do governo, passados 29 anos e dez meses, encerra-se o dramalhão da TV Tupi. Como seu fundador, as telenovelas tiveram altos bem altos, mas acabaram num baixo bem baixo. Drácula foi o ar pela última vez em 17 de setembro de 1980. E não teve remake.

                   

criação: lisandro staut