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Fábulas na TV

Rômulo Gomes

Abertura da novela "Pantanal": mulher que vira onça / Foto: TeledramaturgiaNão é muito comum encontrar uma mulher que se transforma em onça e uma escrava que se torna rainha. Apenas La Fontaine pensaria nisso, talvez porque ele escrevia fábulas somente para crianças. Só os autores Benedito Ruy Barbosa e Walcyr Carrasco se assemelham ao escritor francês, com a diferença de que atingiam adultos que queriam sonhar como crianças.

É inegável o fato de que estas histórias se tornaram grandes sucessos de audiência nos anos 90 e revolucionaram o modo de se fazer novela. O sucesso do gênero deslocou-se da TV Globo para a TV Manchete. A emissora conseguiu com as novelas Pantanal (1990) e Xica da Silva (1996-1997) adiar a falência e adquirir grande influência no meio televisivo.

A novela Pantanal, de Ruy Barbosa, quebrava um antigo paradigma que fazia sucesso na Rede Globo. As novelas que tinham somente a capital do Rio de Janeiro como cenário eram bem aceitas. No entanto, Ruy Barbosa percebeu uma monotonia e inseriu o Pantanal Mato-Grossense e sua cultura como um novo contexto que poderia dar certo.

Surgiu então a idéia de dramatizar a história simples de uma família típica da região. Com o ícone da mulher que se transforma em onça, a arisca Juma Marruá, interpretada pela bela e então desconhecida atriz Cristiana Oliveira, a trama conseguiu estar sob os comentários de muito brasileiros em 1990.

Sua primeira exibição (seria reprisada novamente em 92 e 98) foi em 1990, sob a direção de Jayme Monjardim, ascendendo em sua carreira e se tornando um dos principais diretores da atualidade. A convite de Monjardim, Ruy Barbosa foi para a Manchete, pois não conseguiu o aval necessário para produzir a novela na Globo. Os diretores queriam transformá-la em minissérie ou ambientá-la em uma fazenda paulista ou outro cenário para baratear a produção, pois era caro e arriscado. Mas Ruy Barbosa recusou.

Fascínio

Ao ser veiculada, os telespectadores ficaram fascinados com a beleza do Pantanal, devido ao fato de ser uma realidade distante da sociedade. Destacou-se ainda a autenticidade da história e seu envolvimento com o público, quer pelas belezas naturais ou o erotismo e sensualidade constantes na novela.

O resultado foi impressionante. Durante a veiculação da novela, a Manchete se mantinha no pico de audiência no horário nobre de segunda a sábado: alcançava 40 pontos de audiência. Antes brigava pelo segundo e terceiro lugares com a Bandeirantes e o SBT.

No site Teledramaturgia, o criador, Nilson Xavier, menciona que "o público adorou conhecer a paisagem de um lugar pouco conhecido do Brasil. O espectador relaxou na frente da tevê com paisagens deslumbrantes e uma história simples". À época, 30% do faturamento de publicidade da rede foi devido à novela.

Aquele foi um ano sensível para a Manchete. Teve parte dos seus bens confiscados pelo Banco do Brasil, para o qual devia 60 milhões de dólares. Mesmo assim faturou quase o dobro desta quantia com Pantanal. Entretanto, suas dívidas aumentavam cada vez mais.

Taís Araújo na pela da poderosa Xica da Silva / Foto: TeledramaturgiaSem muitas novidades de sucesso conseguiu novamente alcançar altos índices de audiência somente em 1996, com a novela de Walcyr Carrasco, Xica da Silva. A trama é baseada no livro Xica Que Manda, de Agripa Vasconcellos. Sob o pseudônimo de Adamo Angel, Walcyr, conta a história da escrava Xica da Silva, que ao se casar com um fidalgo ganha carta de alforria e se torna a manda-chuva da região, devido a influência de seu marido. 

A trama também explorou cenas sensuais, dando destaque para a nudez da atriz principal, Taís Araújo. Destaque também para os pseudo-atores, como o cantor Eduardo Dusek e a atriz pornô italiana Cicciolina - que, pra variar, também apareceu nua.

Sem capítulo final...

A experiência e a influência desta teledramaturgia foram fundamentais para a reestruturação da telenovela brasileira. Em um seminário na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sobre telenovela e cinema, foram sintetizadas as seguintes idéias:

"Os seres humanos sempre necessitaram de uma saída da realidade, onde seus desejos se realizem e se dê vazão a todos os acontecimentos por nós tão ansiados e produzidos. Desde as épicas de Homero, passando pelas cantigas da Europa Medieval, até chegar nos romances, sempre se produziu representações culturais, que além de retratar os modelos sócio-econômicos e políticos de cada época, refletiam os desejos e aspectos da realidade da maioria dos seres humanos: conflitos amorosos e familiares, disputas pelo poder, situações cômicas e trágicas."

Desta forma, a percepção da popularidade das novelas é bem inteligível. Brasileiros acostumados com a mesma paisagem e o mesmo caos se distrairiam facilmente sob o viés ilusionista de belas mulheres ou paisagens afrodisíacas. Mas a gama de mecanismos é infinda. Para tal, fez-se necessária a insistência de Ruy Barbosa em produzir algo novo, para que as grandes emissoras pudessem presenciar as tendências que viriam nos anos seguintes.

Vale ressaltar que os produtores globais criticavam a "exploração sexual" das novelas da Manchete, como mencionou Roberto Marinho em entrevista à revista Veja (19/05/90). É curiosa a mudança de idéia ocorrida. Jayme Monjardim, diretor de Pantanal, passou a trabalhar na Globo pouco tempo depois do sucesso de Pantanal, assim como Ruy Barbosa.

A Manchete conseguiu mostrar que apesar dos poucos recursos e uma situação financeira instável é possível produzir novelas que são consideradas antológicas. Mesmo desaparecendo poucos anos depois, vendida para a Rede TV!, a Manchete permitiu uma contribuição incisiva e permanente nos 40 anos das telenovelas brasileiras.

* Os dados históricos deste artigo se embasaram em matérias da revista Veja (19/5/90) e do jornal O Estado de S. Paulo (13/5/90) e no site Teledramaturgia <www.teledramaturgia.com.br>

                                        

criação: lisandro staut