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Imprensa apimentada

Vanessa Candia

Primeira página do "Revérbero Constitucional Fluminense"Desde os tempos monárquicos do Brasil, a imprensa sempre esteve presente na construção da história. Os jornais Revérbero Constitucional Fluminense e A Malagueta foram de grande importância no processo de independência do Brasil.

O Revérbero, jornal de propriedade de Joaquim Gonçalves Ledo e Januário da Cunha Barbosa, pode ser considerado, entre os dois periódicos, o que mais influenciou no processo. Foi o primeiro jornal independente do governo no Rio de Janeiro. A independência do Brasil era sua bandeira - mas sem grandes cortes dos laços com Portugal.

Teve vida curta. Foi lançado em 15 de setembro de 1821 e veiculou até 8 de outubro de 1822. Inicialmente era impresso semanalmente, tornando-se em janeiro de 1822, quinzenal. Circularam 48 números ordinários e três extraordinários.

Composto de 12 páginas, o Revérbero era vendido por 120 a 160 mil réis. Publicava artigos de Lisboa, Paris e Londres. Mas sua marca registrada eram os artigos doutrinários, que criaram força juntamente com a evolução da independência.

Outros fatos importantes tiveram a participação de Ledo e Januário. Por meio de um manifesto publicado no dia 1.º de janeiro, intensificou-se a campanha para que dom Pedro ficasse. Alguns dias depois, este diria a famosa frase "diga a todos [e a Ledo e Januário] que fico".

Nelson Werneck Sodré, em História da Imprensa no Brasil, classifica o Revérbero como "o melhor arauto das reivindicações brasileiras". Mas a despeito das considerações do historiador, uma falha jornalística gerou dúvidas sobre os reais objetivos do jornal. Quando proclamada a independência, atitude tão "batalhada" pelos redatores, nada foi publicado.

Em 15 de outubro, o Revérbero Constitucional Fluminense, não veiculava mais. Por meio do Correio do Rio de Janeiro, os redatores explicavam seu fechamento dizendo que "empreendido só para o fim de proclamar a independência de seu País, nada mais lhe resta a desejar, uma vez que ele [o País] vai ter uma Assembléia Constituinte e Legislativa, que já tem um imperador da sua escolha, que é nação e nação livre".

A partir de então, surgiram vários problemas para os redatores, explodindo numa perseguição, pois misturaram os conceitos de independência e liberdade. Ledo foi exilado para Buenos Aires e Januário e outros envolvidos para França. Ledo chegou a ser eleito para a Constituinte, mas não pôde assumir. Somente em 1823 eles retornaram ao Brasil. 

Periódico ardido

A Malagueta foi o último jornal que surgiu no Rio de Janeiro, em 18 de dezembro de 1821. Luís Augusto May, homem de estilo e personalidade totalmente condizentes com o jornal, era o dono do veículo. Tempos depois se tornaria o primeiro jornalista brasileiro a ter o jornal comentado no Correio Braziliense, de Hipólito da Costa.

Cada edição era formada por um artigo somente, escrito na primeira pessoa e na forma de uma carta ao imperador. Seu objetivo era intervir no debate político e propor medidas constitucionais.

Curiosamente, A Malagueta se tornou o jornal mais popular do Rio, com cerca de 500 assinaturas - à época, equivalente a milhões. Sua existência pode ser dividida em quatro fases. A primeira, de 18 de dezembro a 5 de junho de 1822, com 31 números; a segunda, com sete números extraordinários, de 31 de julho de 1822 a 10 de julho de 1824; a terceira, de 19 de setembro de 1828 a 28 de agosto de 1824, quando devido ao prestígio do jornal, May se elegeu deputado com 91 números; e a última, em 2 de janeiro de 1831 a 31 de março de 1832, quando retornou a Câmara, com 36 números.

Mesmo sendo um jornal extremamente crítico ao governo, pois seu ideal era independência total de Portugal, A Malagueta usava o bom senso. Prova disso foram palavras referidas ao jornal por seus rivais que o chamavam de "sábio e sapientíssimo".

Devido a seus artigos um tanto "quentes" foi o primeiro jornal a sofrer censura. Mas não parou por aí. Como conseqüência de uma publicação no dia 5 de junho de 1823, em que fez diversos ataques a José Bonifácio, May foi vítima de espancamento. O próprio May narra o ocorrido detalhando que "alguns homens que o tempo não permitiu contar(...) que levava espadas(...) que eu vi.

Após o "cobrirem de cassetadas" puseram uma pimenta em sua boca e o obrigaram a mastigar. May levou alguns meses para se recuperar e quando voltou a trabalhar tinha uma visão política renovada. É o que todos pensavam... e queriam. 

* Os dados históricos deste artigo se basearam nos livros Insultos Impressos - A Guerra dos Jornalistas na Independência, de Isabel Lustosa, e História da Imprensa no Brasil, de Nelson Werneck Sodré

                   

criação: lisandro staut