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Solapadas
cômicas
Daniel Liidtke
Ao contrário do que muitos pensam, a história da imprensa brasileira não foi escrita apenas pelos jornalões. Além destes, pequenos jornais de nomes exóticos também contribuíram para fomentar discussões e calúnias de maneira humorística em épocas de grande censura, desenvolvendo espírito crítico e ativo nos brasileiros.
O que você acharia se fosse a uma banca e encontrasse um jornal chamado Sentinela da Liberdade na Guarita de
Pernambuco? Pois é, isso aconteceu em 9 de abril de 1823. Este era o nome do periódico de Cipriano José Barata de Almeida, preso depois por participar da Confederação do Equador - ele, contudo, continuou suas publicações até mesmo na cadeia. O jornal defendia a independência e a abolição da escravatura.
Foi durante essa época, tempo em que a censura cerceava ferozmente a imprensa do País, que surgiram os pasquins. Com linguagem violenta, denunciado a "podridão" do governo, estes jornais-panfletos chegavam até a insultos pessoais.
São aparentemente insignificantes e inexpressivos exemplares que não passaram de "brincadeiras jornalísticas". Todavia, eles participaram dos ideais de liberdade e luta nos quais o Brasil viveu desde os tempos de regência até a República.
Esses periódicos irônicos, os pasquins, tiveram seu auge entre 1830 e 1850. Folhetos como
O Homem de Cor e O Crioulinho tratavam de assuntos relacionados à abolição e racismo. Já outros, como
O Grito dos Oprimidos, O Brasil Aflito, O Burro Magro e O
Caolho, parecem mostrar um Brasil sem visão, em que as pessoas gritam por um governo justo.
Existiram ainda uns mais radicais, como O Torto da Artilharia, O Palhaço da Oposição e outros que viam a nação como um hospício:
O Enfermeiro dos Doidos, O Médico dos Malucos. Além desses, circularam pelo País afora outros como
O Buscapé, O Soldado Aflito, O Macaco, O Carijó e O Martelo.
A esses jornais de nomes exóticos se deve grande parte da proliferação do estilo jornalístico irreverente e crítico-cômico. Com nomes tão esquisitos, totalmente diferentes de uma convencional
Folha de S. Paulo, aqueles jornais trouxeram a "promessa de divertir o público sem deixar de informá-lo", como declarou Paulo Francis, ex-pasquim da atualidade.
Contudo, indo além da informação, esses jornais solaparam a devassidão da sociedade e de seu governo, sonhando - mas também lutando - com uma nação democrática e íntegra.
Aos esdrúxulos, nossa consideração.
criação: lisandro staut
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