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Revolução, involução e
uma história para contar
Rômulo Gomes
O ano, 1870. A situação política, caótica e antagônica. Monarquistas e republicanos se figuravam no embate que se estenderia até a proclamação da República, 19 anos depois. Nesse ínterim, a pequena imprensa representada por pasquins e afins, começa a ter muita influência nos grandes centros. De 1870 a 1872, mais de 20 jornais republicanos surgem no Brasil.
Dentre eles, A República reunia os melhores elementos da imprensa e da literatura. Seu prestígio era incontestável na corte, na cidade do Rio de Janeiro. Este jornal ajudou a transformar a política, tal era o poder e a possibilidade de mobilização da sociedade por meio da imprensa no Império.
Criado em 3 de dezembro de 1870, A República era quase todo escrito por Quintino Antônio Ferreira de Sousa - que se autodenominava, Quintino Bocaiúva - Aristides Lobo e Manuel Ferreira de Almeida. Luís Barbosa da Silva financiava o jornal, que circulou pela última vez em 1874.
Inicialmente pertencendo ao "Clube Republicano", o veículo tornou-se posteriormente o órgão do Partido Republicano. Passou por duas fases. Na primeira, de sua inauguração a 4 de outubro de 1871, o jornal não tinha redatores declarados e era publicado às terças, quintas e sábados. Já na segunda, a partir do dia 1o de setembro de 1871, começou a ser publicado diariamente.
A República conseguiu ter dez mil exemplares impressos diariamente, índice dificilmente alcançado à época.
A repercussão do jornal estendeu-se pela história na instituição da República no Brasil. Com tendência oposta às virtudes monárquicas, este veículo conseguiu mobilizar a elite da época em prol da forma de governo republicano.
Manifesto Republicano
Quando começou a circular na corte, A República divulgou o Manifesto Republicano. Esta forma, adotada pela ala radical dos liberais, era costume da época. Consistia em um documento assinado por várias autoridades do País.
Segundo Fernando Vasconcelos, em artigo para a Tribuna de Petrópolis (31/12/00) As 57 pessoas que assinaram o manifesto eram "figuras de incontestável prestígio político, profissional e social e que haveriam, alguns deles, de prestar à República, depois de sua proclamação, relevantes serviços". Tome-se como exemplo os advogados Joaquim Saldanha Marinho e Aristides Silveira Lobo, este, ministro durante o Governo Provisório.
O Manifesto, divulgado em 13 de dezembro de 1870, considerava a monarquia vigente como uma "uma instituição decadente". Eram utilizadas expressões como: "direitos da nação", "opinião nacional", "soberania do povo", "causa do progresso", "liberdade individual", "liberdade econômica", "voto do povo", entre outras.
Mas a máxima deste documento era propor o estabelecimento de uma federação que se firmasse na "independência recíproca da província, elevando-a à categoria dos Estados próprios unicamente ligados pelo vínculo da nacionalidade e da solidariedade dos grandes interesses da representação e defesa exterior".
"Somos da América e queremos ser americanos." Esta era a frase final do Manifesto divulgado por Quintino Bocaiúva, como já foi dito, como o redator de
A República. Sua experiência com a imprensa o expôs como o principal estivador das idéias republicanas na imprensa e foi tido como "o Príncipe dos Jornalistas Brasileiros" pelos seus contemporâneos. Envolveu-se com teatro e direito, mas dedicou-se integralmente ao jornalismo, o que sem dúvida lhe projetou profissionalmente.
A coerência de suas idéias refletidas num jornal, bem como sua afinidade com o assunto tratado o tornaram um cidadão envolvido na consciência política. Ele esteve presente na administração da República como governador do Rio de Janeiro, ministro das Relações Exteriores e senador. Pode-se dizer que Quintino Bocaiúva foi a maior representação da imprensa brasileira em sua época.
Parente lusitano
O fato de haver um veículo capaz de envolver toda uma sociedade e transformar o cenário político não era recente. No mesmo ano da criação do jornal
A República, um jornal homônimo a este circulava em Portugal com uma história semelhante.
Em 11 de maio de 1870, os portugueses começam a publicação de A República, com o subtítulo de
Jornal da Democracia Portuguesa. Colaboraram com o jornal nomes como Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queirós, Luciano Cordeiro, Manuel Arriaga e Batalha Reis. Este veículo conseguiu colocar no poder o Marechal Saldanha no movimento conhecido em Portugal como Saldanhada. Ironicamente, o jornal desapareceu tão rapidamente como o governo do marechal.
A coincidência pode ser bem forte, mas não há registros da influência do veículo português com o brasileiro. No entanto, o fato de também haver uma linguagem que forçava o movimento republicano é bem curioso.
Na primeira edição do veículo português, Antero proclama: "A República é, no Estado, liberdade; nas consciências, moralidade; no trabalho, segurança; na nação, força e independência. Para todos, riqueza; para todos, igualdade; para todos, luz". Ele ainda invoca vários pensadores que agiram coercitivamente à época, como Proudhon, Michelet, Feuerbach e Littré.
Assim, pode-se perceber a coerência entre os dois. A ponte entre os dois veículos poderia ser Joaquim Nabuco, uma das várias personalidades do Brasil que teve algum relacionamento com este jornal português e também militava em prol das mudanças no Brasil. Apesar de trabalhar no
Jornal do Commercio em Londres e ser um monarca assumido, Nabuco prezava pela abolição da escravatura e por outras causas nacionalistas.
O jornal A República, agora o brasileiro, pode ter denotado uma ideologia "anárquica e paterna". Mas essa imprensa somente contribuiu para que hoje pudesse haver seriedade no trabalho existente e reafirmar o poder da mídia. A relevância deste e de outros impressos foi vital para o processo da instituição da República no Brasil.
A República faz parte desta história, assim como a fez.
* Os dados históricos deste artigo basearam-se em trechos do livro
História da Imprensa no Brasil, de Nelson Werneck Sodré, no artigo de Fernando Vasconcelos para a
Tribuna da Imprensa (31/12/00) e nos sites da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e no Instituto Superior de Ciências Socais e Políticas-Universidade Técnica de Lisboa
criação: lisandro staut
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