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A
origem do lide
Paulo Henrique Tenório
O mundo está vivendo em tempo de guerra. Isso não exige, no entanto, trabalho extra dos meios de comunicação. Pode-se dizer que a imprensa atravessa momento de tranqüilidade se comparado com épocas passadas, em que tecnologia era artifício raro na transmissão das informações. A internet e os satélites suprem a notícia no alcance mais rápido de informar a qualquer parte do mundo.
A Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-1865) associada à falta de tecnologia forçou a imprensa a procurar padrões para a construção da notícia. A busca do óbvio também serviu para que os meios noticiosos se renovassem para melhor e mais rapidamente informar seus receptores.
Qualquer estudante do curso de Jornalismo conhece aquelas famosas perguntinhas - Quem?, O quê?, Por quê?, Quando? e Onde? - que são feitas logo no início de uma notícia. É fundamental dominá-las em qualquer meio de comunicação.
Neste caso, o lide - ou lead, ainda na forma americanizada - é a abertura de uma matéria. O ponto chave para o entendimento. Nos textos noticiosos, deve-se incluir em duas ou três frases informações essenciais que transmitam ao receptor o resumo completo do fato.
Dependendo do meio de comunicação em que trabalha, há algumas especificações e normas de como o lide deve ser redigido. Mas em todos os casos deve-se haver clareza, objetividade, respeito à coordenação das palavras e criatividade.
Transmissões telegráficas
O lide não surgiu por acaso. Veio para suprir a falta de tecnologia no século passado para a transmissão de informações. Este artifício de dar as principais informações logo no topo de uma notícia se firmou em meio à falta de tecnologia dos telégrafos na transmissão de mensagens entre meios de comunicação e dos próprios serviços militares dos países envolvidos nesta intensa batalha. Norte-americanos e ingleses se dizem pais deste recurso que foi implantado em todo o mundo.
Naquela época, não existiam aparelhos capazes de enviar informações para regiões mais distantes. O telégrafo era o meio mais usado, mas ainda assim apresentava falhas: o destinatário da informação geralmente recebia informações incompletas.
Foi nesse contexto que surgiu o paradigma do lide, que colocou na "cabeça" da mensagem enviada as informações principais. Uma forma também encontrada pela imprensa de ordenar uma notícia. Com sucesso, as informações sobre a guerra foram vencendo fronteiras e chegando a todos os pontos do mundo. Rádio, televisão e jornais dependiam muito ainda de aparelhos como o telégrafo para ficar "em dia" com a informação.
A transmissão ao vivo das informações era inexistente. A partir daí, o lide passou a ser adotado como regra em qualquer meio noticioso. Hoje em dia, é aprendido na faculdade.
No Brasil, foi entre as décadas de 40 e 50 que o lide invadiu as redações brasileiras, iniciando sua trajetória no
Diário Carioca, modernizado por Pompeu de Souza, considerado o pai do moderno jornalismo tupiniquim. Atualmente está inserido em qualquer manual de redação.
Na Grécia
Há ainda uma outra versão sobre o surgimento do lide, conforme publicação do mês de maio de 2000 da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Segundo a entidade, "a origem do lide, ao contrário do que consideram alguns manuais ou discursos, não é responsabilidade exclusiva do jornalismo norte-americano ou inglês. Não surge do acaso ou por um simples arbítrio na articulação do discurso. Certamente, a linguagem jornalística valeu-se da tradição greco-romana em relação ao uso das palavras e ao discurso claro e convincente".
Para entender um pouco mais sobre este recurso, em Roma, filósofos retomam a tradição grega da Retórica, entre eles o exímio orador Marco Túlio Cícero. Os retóricos, entre os quais Platão, Aristóteles e Protágoras (cerca de 400 anos antes da era cristã), na Grécia Antiga, já haviam consolidado a idéia de que o discurso deveria ser bem articulado e acessível às massas. A persuasão, que integra o processo de argumentação retórica, já envolvia um modelo de organização do discurso que expunha os fatos, os demonstrava e concluía.
Para os filósofos gregos e, posteriormente, para os filósofos, oradores e juristas romanos antigos, havia três qualidades essenciais: a brevidade, a clareza e a verossimilhança
(brevis, dilucida e verisimilis ou probabilis). Para que a exposição fosse completa exigia-se, no entanto, alguns elementos essenciais.
Cícero, em De Inventione, relacionou os aspectos essenciais para que o texto se tornasse completo. Para o famoso orador romano, era preciso responder as perguntas quem?
(quis/persona), o quê? (quid/factum), onde? (ubi/locus), como?
(quem admodum/modus), quando? (quando/tempus) com que meios ou instrumentos?
(quibus adminiculis/facultas) e por quê? (cur/causa).
As proposições de Cícero, originadas na retórica grega, tornaram-se paradigma da exposição de acontecimentos nos dois milênios seguintes. Em diversos momentos, ao longo de tal período, as circunstâncias do fato tiveram grande relevância na constituição de uma ética da palavra, sendo exemplarmente utilizada no discurso jurídico e na argumentação filosófica. Com isso, buscava-se convencer para a validade moral de um fato e sobre ele emitir-se juízos de valor.
Na imediaticidade em que atua o jornalismo, os elementos retóricos da antigüidade greco-romana constituem eixos fundamentais de seu discurso. É com esta perspectiva, baseada na arte de dizer, resultado da habilidade em fazer, e impulsionado pela Guerra Civil norte-americana, que se estrutura o clássico discurso jornalístico.
criação: lisandro staut
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