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Saudades da agulha hipodérmica
Fernando Torres
Em tempo de guerra, a imprensa pode ser vista sob duas óticas: como vítima do sistema governamental predominante - afinal, está sob censura -, ou como parceira oportunista,
o que dispensa explicações. O fato é que o período pressupõe manipulação das informações, com o intuito de moldar a opinião pública.
A Primeira Guerra Mundial (1914-1919) motivou o surgimento da primeira teoria crítica da comunicação de massa. A teoria hipodérmica pretendia
indicar quais os efeitos provocados pelos
mass media, em especial a propaganda. Alguns intelectuais até mesmo a definem como teoria da propaganda e sobre a propaganda.
Para compreender a teoria hipodérmica, faz-se necessário conhecer o contexto em que ela se insere. Com a Revolução Industrial (século XIX), a sociedade ocidental sofreu profundas transformações: de comunitária passou a contratual. Inicia-se aí o conceito da sociedade de massa, formulado em 1830 pelo positivista Augusto Comte e aperfeiçoado por Herbert Spencer, Ferdinand Tönnies e Émile Durkheim, seus contemporâneos.
Caracterizada pelo isolamento psicológico de seus membros, predominância da impessoalidade e da obrigação social forçosa, a idéia de sociedade de massa é de fundamental importância para o entendimento da teoria hipodérmica. Difere-se da massa do pão e circo romano, pois inclui em sua alienação a presença constante dos veículos de comunicação.
Enquanto a produção intelectual emergia, os mass media ampliavam seu alcance. Os governantes dos países em guerra, com destaque para britânicos e estadunidenses, viram nas novas instituições excelentes canais para divulgar suas idéias patrióticas e nacionalistas. Era necessário unificar as pessoas do mesmo país, torná-las comprometidas com a ideologia estadunidense.
Mentiras e distorções
A propaganda e o cinema mostraram-se irrepreensíveis para essa função. Discursos, cartazes, fotos, filmes e até mesmo noticiários telegráficos foram utilizados para manipular a opinião pública. Os cidadãos comuns foram persuadidos a amar sua pátria e odiar a do vizinho, a comprar a idéia
da guerra. Para isso, os comunicadores se basearam em mentiras e distorções sensacionalistas. Funcionou.
Terminada a guerra, deu-se início a uma análise do ocorrido. Diante dos resultados obtidos e do conceito de sociedade de massa, chegou-se à conclusão de que qualquer conteúdo exibido pela mídia atingiria os indivíduos de maneira uniforme. Todos os receptores responderiam às mensagens midiáticas sem questionar ou sugerir visões diferentes - como robôs.
Assim, enxergou-se a mídia como uma arma poderosíssima, capaz de moldar a opinião pública conforme os interesses do comunicador. Deu-se a essa idéia o nome de "teoria hipodérmica" ou "teoria da bala mágica". Ambos os termos remetiam à psicologia behaviorista E
è
R - bastaria injetar uma injeção no corpo para que este respondesse a seu efeito, ou metralhar um organismo para que este se
debilitasse.
Obviamente, a teoria hipodérmica é por demais simplista para ser aceita sem restrições. Inexperientes no quesito "mídia", os primitivos teóricos da comunicação desconheciam o poder das diferenças individuais. Todavia, a teoria foi amplamente aceita: havia os indiscutíveis efeitos da propaganda na guerra.
Com o passar do tempo e a difusão das idéias a respeito dos mass
media, os estudiosos abandonaram a teoria hipodérmica, considerando-a obsoleta. Seus postulados, porém, foram utilizados para a construção de novas teorias. Chegou-se ao consenso de que a mídia não poderia alcançar a mesma resposta de todos os receptores; poderia, sim, prever variadas espécies de comportamento.
Quanto aos efeitos resultantes da guerra, não houve uma resposta satisfatória para todos: alguns teóricos concluíram que haveria outras explicações para o resultado, desconhecidas até então; em contrapartida, outros estudiosos questionaram se a agulha proposta pela teoria hipodérmica realmente não foi injetada nos organismos.
Nacionalismo xenófobo
Detenho-me nesta última premissa. É fato que os cidadãos do início do século XX desconheciam as técnicas de persuasão da mídia. Até mesmo o termo "propaganda" não possuía o significado de hoje. Assim, não é ilógico conjecturar que as mensagens emitidas aos receptores realmente os levaram ao nacionalismo xenófobo e exacerbado.
Mas, e depois? Nos cenários de guerra criados pelo governo norte-americano, pode-se afirmar que os estímulos da agulha hipodérmica não foram tão eficazes na manipulação da opinião pública?
Apesar de já ter se tornado "lugar-comum" é impossível não lembrar da Guerra do Golfo, quando as emissoras de televisão só exibiam o conteúdo permitido pelo governo norte-americano. Mentiras e distorções também aconteceram ali, como no caso das imagens das crianças kuwaitianas torturadas por Saddam Hussein, bem como a omissão do número de iraquianos mortos.
O mesmo aconteceu na recente Guerra contra o Terror. Até hoje se questiona a veracidade das imagens de palestinos comemorando o ataque ao World Trade Center. Todavia, o efeito veio como uma bomba: todo o mundo ocidental enxergou os Estados Unidos como a grande vítima e ofereceu total apoio ao governo para o combate.
Seria ingênuo acreditar que a população norte-americana se deixaria levar em massa pela tendenciosidade de um único noticiário ou propaganda. Mas o mesmo não pode ser dito quando a esmagadora maioria dos veículos de comunicação estadunidenses são unilaterais e pró-guerra. Ao oferecer apenas uma opção aos receptores, a mídia os deixa expostos à agulha hipodérmica. O resultado final inclui posicionamento uniforme e adoção da mesma idéia a respeito do assunto. Funcionou uma vez, por que não funcionaria de novo?
No atual combate, dos 20 principais jornais norte-americanos, apenas dois se posicionaram contra o ataque ao Iraque. O restante se restringe a
reproduzir a ótica governamental. Em um noticiário que mistura propaganda com o fazer jornalismo não é difícil encontrar vítimas da agulha hipodérmica. Reza-se para que, ao menos, esteja esterilizada.
criação: lisandro staut
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