editorial | debate | imprensa | mídia
 cultura | perfil | nostalgia | opinião
  cotidiano | leitor | e-mail | expediente
anteriores
| próximas edições
| inicial

O Jesus da Renascença

Adriano Luz

"O sofredor", quadro pintado pelo holandês Jan Mostaert, em 1520/The National GalleryNa maioria das vezes em que se fala de Cristo, seja nos telejornais ou em diferentes meios de comunicação, são expostas imagens de um homem sereno com a mão direita sobre o coração, olhar obtuso para o alto e uma auréola em torno da cabeça. Essas são as imagens mais puritanas captadas e geralmente vinculadas a alguma festividade católica. Os protestantes, no entanto, utilizam uma imagem mais humanizada, em que Jesus se encontra junto com outras pessoas.

Tal divinização e humanização de Cristo são conseqüências de pensamentos da Idade Média e do Renascentismo. Tais pensamentos são inferências à cultura e às idéias vividas na época e que, se expressaram fortemente na política, na literatura e nas artes - música, escultura e pintura.

O Brasil é um resultado do Renascimento. Sem uma compreensão deste movimento, se torna difícil entender as raízes do Brasil. Ele é, sobretudo a valorização do ser humano. A civilização medieval foi no bojo teocêntrica, enquanto em contraponto a esta, a renascentista foi antropocêntrica.

O Renascentismo vem incorporar o mundo antigo ao mundo moderno. Há uma volta às formas estéticas antigas, à antiguidade clássica, isto é, greco-romana. O culto dos modelos antigos, especialmente no plano estético, vai caracterizar o Renascimento. A sociedade quer renascer e por isso abandona a idéia de divinizar algo e torna o objeto a ser caracterizado mais humano e próximo, algo palpável. O herói da vez é o próprio homem racional.

O mundo passou por profundas reformas de conceitos que abalariam a fé dos crentes com os pensamentos humanistas da renascença. Um dos grandes filósofos da época foi Friedrich Nietzsche. Ele exalta a Renascença como o ponto mais alto da evolução estética do mundo.

"A crucificação", quadro pintado pelo espanhol El Greco, em 1580/Museu do LouvreNa pintura também se encontravam traços profundos desses pensamentos. Na Idade Média, a pintura exprimia uma concepção bidimensional do espaço, isto é, não há muita luz e existe uma ausência de ação de movimento. O ambiente no seu todo é extraterreno, celestial. A arte é serva da teologia; tudo revela uma concepção teocêntrica do mundo, da vida, dos seres e das coisas.

A pintura do renascimento, ao contrário, é de índole antropocêntrica. Significa o aparecimento do individualismo, a descoberta do homem e da natureza. Em numerosos quadros, o Cristo e a corte celeste são trazidos a terra e pintados ao lado do doador ajoelhado.

Hoje, vive-se mais uma vez o movimento humanista racionalista. Mas só que dessa vez reformulado, com um novo fulgor, tirando os defeitos existentes em sua teoria. Hoje é a união do racionalismo e da força, quando o homem resolve todas as coisas. O poder não vem das cortes celestiais, mas sim da persuasão, por meio da força, embargos políticos e sanções.

Esse é o motivo pelo qual se vinculam imagens de um Jesus sem muitos atributos divinos. Neste novo Jesus, o crente só pode buscar conforto psicológico e sentimental, em vez de uma fé em milagres. Para isso, faz-se necessário recorrer às forças humanas dominadoras e opressoras.

                   

criação: lisandro staut