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"Promotor" da imprensa
Katianne Jouguet
Nesta atual conjuntura, em que a opinião pública culmina no andamento progressivo de determinado órgão do governo ou particular, o crítico de mídia entra em cena.
Ombudsman, ouvidor público, media criticism, tanto faz. O fato é que esse profissional tem seu papel nos meios de comunicação.
Contudo, raros são os veículos de mídia no Brasil que mantêm um crítico de mídia ou que se dispõem exclusivamente a isso. Vários jornais já tentaram institucionalizar o cargo de
ombudsman; sem êxito. Representatividade mesmo tem a Folha de S.
Paulo. Este impresso foi o primeiro no Brasil a adotar a coluna do ombudsman, em 1989. Mas o pioneirismo teve início muito antes.
Em 1975, a Folha engatinhou no que seria o precursor do ombudsman
no Brasil. Sob a direção de Cláudio Abramo, o veículo topou inaugurar a coluna de crítica à imprensa "Jornal dos Jornais", apesar do receio de Octavio Frias, dono do jornal. Sua primeira edição criou polêmica até entre os jornalistas do próprio impresso. O manifesto aberto, promovido pela coluna, quase não foi publicado.
Alberto Dines, então diretor da sucursal do Rio de Janeiro, assinava a coluna todas às segundas-feiras, na página 6 (ocupada hoje pelo
ombudsman). "Jornal dos Jornais" não dava abertura às reclamações do público. Dines expunha apenas o seu ponto de vista sobre determinado sistema de mídia. Ele trabalhava como
media criticism ou crítico de mídia.
O texto era pesado e virulento. A coluna passou a ser conhecida como "imprensa alternativa". "Fiz cobranças, como quando da morte da Zuzu Angel, que ninguém deu. Antes do Vladimir Herzog morrer, eu já estava denunciando que ele estava sendo perseguido por um jornaleco de São Paulo, ligado à Polícia", declarou Alberto Dines em entrevista à Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), em 2002.
"Jornal dos Jornais" não foi propriamente um sucesso. O País vivia os tempos do regime militar e muitas das críticas não agradaram o governo. Além disso, a
Folha da década de 70 não era exatamente a Folha de hoje.
A própria coluna não possuía lá grandes qualidades: Dines não tinha acesso a todos os jornais e telejornais, o conceito de
ombudsman ainda era fraco e o próprio autor não tinha a maturidade suficiente para exercer o
media criticism. Além disso, a coluna era impressa em corpo "8" (um capricho vingativo do diagramador, desafeto de Dines). "Jornal dos Jornais" circulou pela última vez em setembro de 1977 (impressa em corpo "4").
Ressurreição
Em alusão à "lendária" coluna, surgiu, mais de duas décadas depois, a revista
Jornal dos Jornais. Criada em de março de 1999, surgiu com o propósito de debater e interpretar assuntos noticiados pela imprensa. A ideologia da revista era a mesma da coluna semanal na
Folha. Cabia a ela criticar as notícias publicadas em jornais e revistas durante a semana.
Com tiragem inicial de 20 mil exemplares, seu primeiro número trazia a reportagem de capa "A vida do foca Mino Carta". A revista era dirigida por Ari Schneider e teve vários colunistas como Carlos Brickmann, Celso Japiassu, Gabriel Priolli, Marco Antônio Araújo, entre outros.
Dentre os articulistas, encontrava-se o publisher Moacir Japiassu. Este, atendia as reivindicações e estabelecia contato com os leitores por meio da coluna "Perdão, Leitores".
Jornal dos Jornais criticava a própria imprensa e expunha os erros de ortografia e gramática de diversos veículos de mídia. O
publisher, no caso, era o ombudsman da revista.
Infelizmente, a revista Jornal dos Jornais também não foi adiante. Apesar de em dezembro de 1999 ganhar o Prêmio Esso, de Melhor Contribuição à Imprensa, o periódico não emplacou. O veículo não agradava aos poderosos, pois revelava fatos ilícitos e condenáveis. Não emplacou.
Tanto a coluna de Dines, como a revista Jornal dos Jornais assumiram a função de "promotor" na imprensa. Seu dever era atender e resolver as aberrações da mídia. Portanto, persiste a necessidade do crítico de mídia competente, que respeite o leitor como cidadão. Afinal, um "promotor" explica e esclarece o que é e o que não é verdade. Da mesma forma, o crítico de mídia deve proceder.
criação: lisandro staut
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