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"Uma
arte para poucos"
Neanis Lutzer
"Realmente, a função do
ombudsman cria um espaço para o conflito. Um conflito produtivo, que leva ao debate e à reflexão."
Jairo Faria Mendes, mestre em Comunicação e Cultura
Depois da procura por Osama bin Laden e o medo de Fernandinho Beira Mar, o
ombudsman pode figurar na lista de temidos. Este é um dos cargos mais tempestuosos e ao mesmo tempo mais importantes para o próprio veículo de informação. Ele trata tanto de assuntos da realidade social, quanto da realidade do meio de comunicação onde trabalha.
O ombudsman não existe somente em jornais e revistas. Ele também é necessário em programas de televisão, como divulgou matéria do jornal
A Notícia, de Santa Catarina (9/5/02). Nela, o Ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior, aceita a sugestão dada pelos dirigentes da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) de que cada TV contrate um
ombudsman. "A proposta tem como objetivo principal diminuir os índices de violência e sexo em filmes e novelas", diz Miguel.
É muito importante para o meio de comunicação a pessoa do ombudsman. Nas palavras de Bernardo
Ajzenberg, atual
ombudsman da Folha de S. Paulo, "estimula a auto-reflexão, a busca do rigor, da exatidão, da imparcialidade, que são ingredientes básicos da credibilidade, sem a qual o jornal tende ao fracasso".
No Brasil, muitos jornais já colocaram este cargo em circulação. É o
caso da Folha da Tarde (SP), O Dia (RJ), Diário do Povo (Campinas-SP),
Correio da Paraíba, A Notícia Capital (SC) e a revista Rumos (CE). Entre os que prosperaram com este cargo, estão a
Folha de S. Paulo e O Povo (CE), que ainda permanecem intactos.
Após algumas experiências, os jornais acima citados não puderam continuar com o cargo de
ombudsman. Destacam-se, entre eles, a Folha da Tarde (atualmente chamado de
Agora) e o A Notícia, que extinguiu o cargo antes mesmo de terminar o mandato do representante do cidadão.
O tempo de mandato é outro fator interessante. Na Folha de S. Paulo, o ouvidor tem o direito de ter seu cargo por um ano, podendo ser renovado mais tarde para até dois anos. Isso acontece para haver garantia ao profissional e estabilidade de emprego durante o período.
Um dos principais motivos que pode levar um jornal a retirar o cargo de ombudsman de circulação "é o fato de não estarem abertos à autocrítica. Isso não é nada estranho, é uma característica humana, não é fácil aceitar críticas", nota Jairo Farias Mendes, um dos maiores pesquisadores da área de Comunicação no
Brasil, em entrevista ao Canal.
Mendes, que também é autor do livro O Ombudsman e o Leitor, se interessou por este assunto justamente porque se sentia angustiado com a falta de espaços para a participação do público no processo jornalístico. "Além disso, preocupava-me com os rumos que a mídia tomava e com o rápido aumento da concentração dos meios de comunicação nas mãos de menos pessoas", declara.
Essa preocupação vem tomando espaço no ambiente jornalístico. Muitas empresas, porém, temem este cargo por não estarem ligados ao meio explicitamente. O
ombudsman geralmente precisa de uma independência da direção do jornal, uma sala longe da redação, para que não possa ter nenhum envolvimento com a mesma e o que se passa na agência.
Outro motivo seria as relações "nebulosas que o ombudsman tem com o poder público e com alguns anunciantes", aponta Mendes. "Algumas empresas justificam a não adoção do cargo pelo custo de sua implantação, mas acredito que isso seja apenas uma desculpa", completa.
Certas crises...
Dentre os jornais que não prosseguiram com o cargo, faz-se necessário citar o
A Notícia Capital, que apresentou sérias complicações a respeito do
ombudsman.
Este veículo contratou o jornalista Mário Xavier para tomar a frente desta responsabilidade em 1.º de setembro de 1995 por três anos. Contudo, Xavier exerceu o cargo apenas até 31 de agosto de 1997, quando deveria estender-se até 1998, de acordo com o segundo mandato. Ele então entrou com uma ação judicial relatando sua experiência e o desrespeito ao período de estabilidade combinado com a agência.
Para tentar solucionar o problema e saber o motivo pelo qual essa situação ocorreu, a Associação Brasileira de Ouvidores (ABO) entrou em contato com a direção do
A Notícia. O veículo disse que a experiência não valeu a pena; desde então, o jornal não colocou nenhum
ombudsman para assumir o cargo novamente. Nas palavras de Xavier, a direção do jornal enviou-lhe uma carta dizendo que "não tinha mais nenhum compromisso comigo e meus serviços".
Outro exemplo é o caso da Folha da Tarde, em que mais de um ombudsman já ocupou o cargo no jornal, interrompido bruscamente. O último a preencher a vaga foi Antenor Braido. Encerrado o seu mandato, a
Folha anunciou no dia 29 de julho de 1996 a extinção do cargo com a desculpa clássica: "contenção de despesas".
Ombudsman é necessário?
A necessidade do mercado é de empresas confiáveis. E quem não quer um jornal que traz para você as informações mais precisas do mundo? Pois é, esse veículo não existe, e é por isso que a busca por essa perfeição está mais acirrada dia a dia.
Jairo Mendes comenta que os jornais têm razões para temerem o ombudsman. Segundo ele, são pessoas "pagas pela própria empresa para ter o poder de criticar desfavoravelmente o próprio produto desta empresa e os profissionais que o elaboram".
No entanto não se deve confundir o cargo de ombudsman, defensor do leitor, com o executivo da empresa, responsável por solucionar os problemas. O que infelizmente é inevitável algumas vezes, "principalmente quando a relação do
ombudsman com a direção do jornal é muito próxima", lamenta Mendes. "Quando o
ombudsman não tem coluna para a crítica pública (como ocorre nos jornais japoneses), a função perde seu caráter 'maldito', passa a ser apenas um instrumento a mais para o marketing do meio de comunicação", emenda. Ou seja, a sua função é consultiva, e não executiva.
Mendes continua dizendo que o ombudsman tem a possibilidade de denunciar problemas, contribuindo com a realização de mudanças no veículo em que trabalha. Como o ser humano busca cada vez mais a perfeição, cabe aos meios de comunicação mostrar este caminho, mesmo que este esteja na contramão do próprio veículo.
A credibilidade de um veículo vai depender do espaço que ele proporciona ao seu público-alvo.
Diante da lista de mais perigosos, começa-se a pensar que o ombudsman não se encaixa bem ao lado de Osama bin Laden e Fernandinho Beira-Mar. Se for para extinguir um cargo que serve para melhorar o meio jornalístico, seria melhor então afiançar o
ombudsman e incluir o próprio jornal na lista de temidos.
criação: lisandro staut
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