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Estilo
emergente de entretenimento
Vivian Vergilio
A revista O Cruzeiro não foi apenas mais um veículo do império de Assis Chateaubriand. Pode-se dizer que era seu carro-chefe e a principal revista ilustrada do País, numa época em que emanava o jornalismo sensacionalista e o conglomerado da imprensa.
Foi o português Carlos Malheiros Dias que planejara lançar inicialmente a revista. Porém, ele não teve dinheiro o suficiente para levá-lo adiante. Neste mesmo período, Chateaubriand se interessa pelo projeto, mas também não possui dinheiro para comprá-lo. Consegue então, por meio do presidente Getúlio Vargas, a soma de 250 contos e passa a controlar o veículo.
Em 10 de novembro de 1928, a primeira edição do Cruzeiro - sem o artigo no início, que só seria incorporado mais tarde - vai às bancas em todo Brasil; é a primeira a abranger todo o território nacional. De cara, atinge 50 mil exemplares.
O primeiro número trazia uma peculiaridade: indicava o tempo que seria gasto pelo leitor para a leitura de cada texto. Na capa, uma mulher sensual, atirando um beijo aos
leitores; as 64 páginas repletas de anúncios - detalhes que perdurariam
durante sua circulação.
O veículo era de publicação semanal e possuía agentes em todo País e correspondentes em Roma, Paris, Lisboa, Berlin, Nova York, Londres e Madrid. A assinatura anual, para o território nacional, custava 45 contos (variava no exterior) e o exemplar avulso 1 conto. O periódico era impresso em Buenos Aires - para Chatô, as gráficas brasileiras eram muito precárias, inferiores às africanas.
Depois de emplacar, o veículo passou a alcançar, em média, 200 mil exemplares em cada tiragem. Mas isto era pouco perto dos 720 mil exemplares editados sobre o suicídio de Getúlio Vargas, em agosto de 1954. A matéria teve 12 páginas e foi composta por Arlindo Silva. Daí para frente, o índice se manteve.
Perfil
O Cruzeiro foi um veículo diferente de qualquer outro. Sua primeira leitura deveria ser superficial; o leitor olharia toda a revista rapidamente e depois retornaria a leitura atenta somente onde lhe interessasse. A revista misturava realidade e fantasia e abrigava os melhores jornalistas do País.
Várias editorias supriam as necessidades do público feminino, como "Dona", que correspondia ao perfil da leitora de
O Cruzeiro - mulheres de maior poder aquisitivo. Também se destacavam as editorias de "Sete Dias", com as crônicas de Franklin de Oliveira, e "Última Página", de Rachel de Queiroz.
Entre outros, os assuntos trazidos eram sobre as novidades do cinema e a vida dos astros de Hollywood, esportes, e uma sessão de perguntas e respostas na área de saúde. O quadro ainda é composto por charges, contos, culinária, coluna social, os podres da política e moda.
Tudo isso recheado de muitas fotos, de preferência estouradas. O que valia na revista eram as imagens, que contavam praticamente todo o acontecimento, quando muito o texto da legenda.
As publicações humorísticas tinham destaque na revista. A charge "Amiga da Onça", criada pelo pernambucano Péricles de Andrade Maranhão, reproduz um tema do cotidiano, e outras criações, como a "Pif-Paf", de Millôr Fernandes, começam a aparecer.
Dupla dinâmica
A ética jornalística, que não era tão cobrada à época de circulação de
O Cruzeiro, permitia ao jornalista David Nasser a aumentar, omitir e fantasiar os fatos, dando um primor às suas matérias. Nasser, o repórter mais conhecido dos anos 50, trabalhou na revista a partir de 1943
(saiba
mais). Ele viria a ser o assunto principal para o livro do jornalista Luiz Maklouf Carvalho,
Cobras Criadas.
Nasser se associou ao fotógrafo francês Jean Manzon. Era a dobradinha perfeita: o primeiro arranjava e produzia as matérias impactantes e o segundo as ilustrava.
A dupla Nasser e Manzon se consagrou na edição de 24 de junho de 1944, com a publicação da matéria "Enfrentando os Xavantes", que trazia 18 páginas de fotos de selvagens atacando um avião a flechadas e bordunadas. A reportagem repercutiu em 60 países e fez a revista se esgotar nas bancas. Surgiu a marca que acompanhou a revista por quinze anos: "Texto de David Nasser e fotos de Jean Manzon".
Decadência
Mas o império do paraibano Assis Chateaubriand não pôde resistir eternamente. Com o regime militar e a ascensão dos impérios vizinhos - em especial as Organizações Globo - os Diários Associados começaram a perder seu prestígio. Com sua morte, em 1968, o grupo foi obrigado a se desfazer pouco a pouco de seus veículos.
Apesar dos altos índices de venda, a revista O Cruzeiro dava um prejuízo de 340 milhões de cruzeiros ao ano. O jeito foi investir em publicidades. A revista não trazia mais grandes reportagens, mas matérias pagas e isso refletiu nas vendas, que caem para um pouco mais da metade que alcançaram com matéria sobre o suicídio de Vargas. A queda é tamanha que a revista deixa de ser semanal.
"Além das próprias dificuldades, O Cruzeiro também era obrigado a pagar as contas de sua congênere latino-americana, ainda circulando apesar de decididamente esquecida pelas agências nacionais de publicidade", narra Fernando Morais, em
Chatô, o Rei do Brasil.
Com todo o império de Chatô caindo, O Cruzeiro também se extingue. Em julho de 1975, vai às bancas a última edição, dando capa ao jogador Pelé, vestido de Tio Sam.
A revista destinada à elite, que trazia coluna social, reportagens diversas e muitos anúncios, sai do mercado defasada. A queda de
O Cruzeiro dá espaço às recém-nascidas Veja e Realidade, estas, porém, sem o estilo e a ousadia escancarada em cada uma de suas páginas.
criação: lisandro staut
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