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Chá das seis

Fernando Torres

Aqui Agora - Clique para ouvir"Para um filósofo, todas as notícias, como são denominadas, não passam de tagarelice, e os que as lêem e publicam são como velhotas tomando chá."
                             Henry David Thoreau

Embora o escritor Henry Thoreau (1817-1862) se referisse à imprensa de tostão do século XIX ao redigir a crítica acima, o princípio também se aplica aos telejornais - se é que assim podem ser chamados - do fim da tarde. Cidade Alerta (Record), Brasil Urgente (Band) e Repórter Cidadão (Rede TV!) abusam da mistura entre jornalismo, sensacionalismo e entretenimento para um horário considerado livre.

Impossível não remeter a entrada desse gênero na televisão ao extinto Aqui Agora, do SBT, exibido de maio de 1991 a dezembro de 1997, às 18h30. O programa, um dos mais polêmicos da TV brasileira, se auto-intitulava um instrumento de defesa do povo, sem rodeios e máscaras. Sua vinheta (clique na foto para ouvir) e slogan, "um telejornal vibrante, que mostra na TV a vida como ela é", comprovam a estratégia.

Contudo, o programa não foi o pioneiro no gênero. Em 1981, ao meio-dia, já ia ao ar o regional Goiânia Urgente, transmitido pela TV Record e dirigido por Célio Rezende. No ano seguinte, o SBT exibiria O Povo na TV, apresentado por Wilton Franco. Ambos caracterizavam-se pelo relato sensacionalista, reportagens sem edição e ataque às autoridades.

Mas o Aqui Agora era diferente de tudo o que já se havia produzido na TV tupiniquim. A fórmula foi baseada no programa argentino Nuevo Diario, estudada com afinco por Marcos Wilson e Albino Castro Filho, antigos diretores de jornalismo do SBT. A equipe também procurou inserir o imediatismo do rádio, perdido em meio à incessante busca pela estética proporcionada pela televisão.

Em defesa do povo

Ivo Morganti e Cristina Rocha, no comando do Aqui Agora O Aqui Agora começou mais light que seus antecessores. Para começar, os apresentadores - Ivo Morganti, Cristina Rocha (veja foto), Patrícia Godoy e Sérgio Ewerton - ficavam sentadinhos atrás da bancada e não rugindo como um leão dentro da jaula.

Como o noticiário prometia cuidar dos interesses do povo, de cara trouxe reportagens até interessantes sobre as greves decorrentes do governo Collor. Alcançou cerca de 10% da audiência.

Entre os repórteres, destacou-se Celso Russomanno. O jornalista tratava de casos da defesa do consumidor, do tipo "essa família comprou uma geladeira com defeito e o revendedor não quer trocar". Ele encerrava as reportagens com a célebre "estando bom para ambas as partes, Celso Russomanno, Aqui Agora", frase que o consagrou.

À época, Russomanno recebia cerca de 40 telefonemas diários de pessoas logradas, e não eram apenas pobretões. Em 1992, destacou-se o caso do roubo do carro de uma madame da Zona Sul de São Paulo por um manobrista de um restaurante. A ricaça contatou a equipe do Aqui Agora e conseguiu reaver o automóvel.

Destaque também para a chorona e ofegante Magdalena Bonfiglioli. Apesar de competente jornalista, sua performance era um fiasco. Não se sabe se premeditadamente, a repórter desaguava diante das câmeras chacoalhantes ao cobrir catástrofes - sua especialidade. Conquistou a simpatia do público, mas a ojeriza da redação, que a considerava fraca e expressiva demais.

Violência, um caso a parte

Mas o grosso mesmo do Aqui Agora era o conteúdo policial. O programa trouxe para a televisão o radialista Gil Gomes, famoso por suas matérias e crônicas policias em São Paulo. O jornalista se tornaria figurinha carimbada do programa, entonando voz de drama e suspense para anunciar a barbárie e a violência das cidades.

"Não sou paladino da Justiça, nem acho que a televisão deva ter esse papel. Sou apenas um repórter que apura até o fim os fatos", declarou Gil Gomes à revista Veja (18/11/92), para quem o repórter era mais popular que Tarcísio Meira. Certa vez, ainda segundo o periódico, familiares de uma vítima adiaram o enterro especialmente para sua chegada.

Muitas das reportagens transmitidas tiveram seu papel social, como o furo exclusivo sobre o massacre do presídio Carandiru, em São Paulo. (A mesma reportagem de Veja relata que Gil Gomes foi o primeiro repórter a supor que o número de vítimas fosse bem maior do que o relatado nos boletins policiais.) Porém, em alguns momentos, o telejornal apostou primordialmente na cobertura de crimes e assassinatos. Apelou.

Em 5 de julho de 1993, o programa transmitiu ao vivo, durante dez minutos, o suicídio da recepcionista Daniele Lopes, de 16 anos. Ao ver o carro da equipe de reportagem, a moça se jogou do sétimo andar de um prédio em São Paulo. O Ibope registrou aumento de 33 pontos, mas não usufruiu muito da vitória. Os pais de Daniele processaram o SBT e receberem indenização de 700 salários mínimos.

Produtores do entretenimento

No Aqui Agora também havia espaço para o entretenimento puro. Comentaristas e apresentadores criaram uma personagem, cada uma com seu jargão. 

Era, por exemplo, o caso de Luiz Lopes Corrêa, comentarista internacional. Para dar tom às chamadas, o ex-locutor de rádio utilizava expressões em inglês - como "here now" ("aqui agora") e vinha vestido de gravata-borboleta e terno xadrez, ao melhor (ou pior) estilo Tio Sam.

O "meteorologista" Feliz: "Boa noite e tempos felizes!" Símbolo de entretenimento também era o "meteorologista" Feliz, o Felizberto Duarte (veja foto). A previsão sempre se iniciava com a frase "Boa noite e tempos felizes!"; o final vinha acompanhado de uma piada e da frase "E piriri, e pororó"; tudo isso debaixo de uma chuva de estúdio - tão verdadeira quanto as informações meteorológicas.

Os comentários políticos ficavam a cargo do cardiologista e ex-candidato à Presidência Enéas Carneiro - que aproveitou para se promover. Despontava também o fofoqueiro Leão Lobo, responsável pelos mexericos das estrelas de TV. Adepto do homossexualismo, Lobo aproveitava o espaço para promover a luta contra o preconceito, com o bordão "dignidade já".

A perua Cinira Arruda completava o quadro em defesa pelas mulheres. "De mulher pra mulher", era seu lema ao sentar-se à bancada e conversar com as telespectadoras, dando dicas e incentivando a lutarem por igualdade e no combate à violência.

Até o boxeador Adilson Maguila deu o ar de sua graça, logo nos primeiros anos do Aqui Agora. De smoking e luvas de boxe, ele era - pasmem! - o comentarista econômico do programa e brandia os punhos para a recessão da economia. Seu jargão era: "O povo não agüenta mais passar fome".

Por fim, vale lembrar de Jacinto Figueira Jr., o Homem do Sapato Branco, que teve sua última aparição na TV no programa. O "repórter" vasculhava as cidades em busca de casos sobrenaturais e escabrosos, como o horrendo "chupa-cabra".

Glória, declínio e morte

Com esse arsenal de violência entretenimento, em outubro de 1992, o Aqui Agora havia dobrado literalmente a audiência. Durante três anos, atingiu até a classe A e B, a mesma quantidade alcançada pelo Jornal Nacional.

Diante do sucesso, o SBT passou a exibir o programa em duas edições, uma delas no mesmo horário do JN - ousadia, por sinal, freqüente na emissora de Silvio Santos. O TJ Brasil, ancorado por Boris Casoy permanecia ensanduichado entre elas, assim como o JN entre as novelas.

E por falar no "todo-poderoso", é válido lembrar que o JN perdeu irremediavelmente parte de sua audiência com essa jogada. Seus índices declinaram de 60% para 50%, forçando o telejornal global a inovar seu modo de "jornalisticar". Consta que o jornal global abriu sua pauta à entrada de notícias sobre crimes, homicídios e seqüestros e até mesmo usou atores para melhor comover os espectadores.

Porém, com o passar do tempo, a fórmula do Aqui Agora se desgastou. Em 1995, os índices começam a baixar paulatinamente. Ao tentar salvá-lo, SS transferiu o programa para o início da tarde. Não emplacou. Em janeiro de 1996, o Aqui Agora voltava a atormentar o chá das seis.

Era o princípio das dores. No início de 1997, o SBT fazia sua última tentativa para manter o Aqui Agora, colocando como âncoras a dupla Leila Cordeiro e Eliakim Araújo, do então temporariamente extinto Jornal do SBT. Nesse período, o telejornal voltou a ser exibido às 13h30, mas preservou o horário das 18h.

Nada disso funcionou. O programa estava fadado ao fracasso. Ao final de 1997, o Aqui Agora se despediu de seu público para sempre. Sua morte teve uma peculiaridade - também típica de SBT. No último mês de exibição, o jornal foi transmitido sem qualquer identificação. Até mesmo a vinheta e os logotipos foram retirados.

O povo queria mais entretenimento. Parte do horário vago foi destinado ao estreante infantil Disney Club; o restante coube ao game Fantasia, apresentado pela ex-sem-terra Débora Rodrigues, alongado em 30 minutos.

Triste fim?

Foi triste o fim do Aqui Agora? Depende. Ao lembrar-se dos veículos não mais existentes, é praticamente impossível evitar o saudosismo, mesmo diante daqueles de perfil sensacionalista e popularesco.

Contudo, deve-se lembrar da importância dos programas populares na TV brasileira. Em artigo para a Revista USP (dezembro-fevereiro/2000-2001), o jornalista e crítico de televisão Eugênio Bucci argumenta que a proposta inicial do Aqui Agora era um mérito, pois dar voz ao cotidiano do trabalhador significava um repertório mais eclético. "Fazer jornalismo popular significa romper com o complexo de madame da TV, uma sala de visitas em que pobre nunca foi bem-vindo", ironiza ele.

Vale lembrar-se da validade de programas em favor dos menos favorecidos. Não com brados de olho no Ibope, mas com a nobre intenção de conscientizar as autoridades e o próprio povo. "Em um País com 90% da população nas classes C e D, é preciso ter programas populares", confirma Gil Gomes, em declaração ao Jornal da Tarde (11/1/03).

Infelizmente, como as linhas acima comprovam e Bucci confirma, não só o Aqui Agora, mas todos os programas de gênero popular descambam na busca do fetiche e da sensação. Enquanto o telespectador continuar a exigir entretenimento, as emissoras de TV não produzirão conteúdo popular de alto nível (existe isso?).

Nesse meio tempo, continuaremos a freqüentar eventualmente o chá das seis. Como velhinhas futriqueiras.

                    

criação: lisandro staut