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Da
manufatura ao digital *
Fernando Torres
Se os noveleiros reclamam da irrelevância e dos diálogos insossos das atuais novelas da Rede Globo é porque pouco conhecem a respeito de seus primórdios. Ninguém imagina que os primeiros folhetins
globais eram importados de Cuba e baseados em obras latino-européias, algo semelhante aos dramalhões exibidos atualmente pelo SBT.
O gênero novelístico se infiltrou na emissora desde a sua inauguração, em 1965. A primeira novela diária da Rede Globo estreou em 30 de abril, exibida às 22h.
Ilusões Perdidas era escrita por Ênia Petri, dirigida por Líbero Miguel e protagonizada por Reginaldo Faria e Leila Diniz. A produção paulista compunha-se de apenas 50 capítulos e sua existência é praticamente desconhecida hoje.
Tão inexpressiva quanto esta, Paixão de Outono, da cubana Glória Magadan, foi ao ar em setembro de 1965. Dirigida por Líbero Miguel e Fernando Torres, e protagonizada por Yara Lins, Wálter Forster e Reginaldo Faria, a novela inaugurou o horário das 21h30.
Em outubro do mesmo ano, ia ao ar Rosinha do Sobrado, escrita por Moisés Weltman, dirigida por Graça Mello. O folhetim era estrelado por Marília Pêra e Gracindo Júnior e exibido às 19h. Sua existência, contudo, só foi descoberta recentemente, o que dificulta sua reconstituição.
O Progresso, novela de Hélio Thys, exibida no mesmo ano, também só veio a ser conhecida
há pouco tempo. A trama era dirigida por Graça Mello e Jardel Mello.
Alguns nostálgicos se lembram da simplória adaptação do clássico O Ébrio, escrita por José e Heloísa Castellar, baseada no romance homônimo de Gilda de Abreu e do cantor Vicente Celestino (que teve uma breve aparição no primeiro capítulo).
A trama conta a história de Gilberto (Ricardo Nóvoa), médico que se torna alcoólatra após ser traído pela mulher, Marieta (Líria Marçal). A história já havia sido filmada pelo cinema, em 1946. Produzida pela Globo paulista, a novela durou apenas três meses, de novembro de 1965 a fevereiro de 1966.
Entretanto, a maioria dos mestres no assunto defende que as novelas globais só se efetivaram realmente com
Eu Compro Essa Mulher, também da cubana Glória Magadan, Baseado no romance
O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, o folhetim foi exibido em março de 1966.
Épica, a saga narrava as desventuras de Francisco Aldama (Carlos Alberto) e Maria Teresa (Yoná Magalhães), entremeadas pelas armações da vilã Úrsula (Leila Diniz). A novela rendeu mais telespectadores no Rio de Janeiro do que em São Paulo, permanecendo seis meses no ar.
Rainha da telenovela
O fato é que Glória Magadan - de batismo, Maria Magdalena Iturrioz y Placencia - ficou conhecida por muito tempo como a rainha da telenovela. Ainda em 1966, escreveu
O Sheik de Agadir, baseada no romance Taras Bulba, de Nicolai Gógol.
Yoná Magalhães, pupila dos olhos de Glória, interpretava a princesa Janette Legrand e dividia-se entre o amor do sheik Omar Bem Nazir (Henrique Martins) e do oficial francês Maurice Dummont (Amilton Fernandes). A trama se ambientava no Oriente Médio, mas era filmada nas dunas de Cabo Frio, no Rio de Janeiro.
As histórias de Glória eram assim: bizarras, melodramáticas, fantasiosas, completamente alheias à realidade brasileira - ainda mais do que hoje, acredite. Ela incorporava, ainda, a fama de plagiária, pois seus folhetins "capa-e-espada" eram todos cópias dos clássicos europeus.
Foi então que a Rede Globo decidiu acabar com os dramalhões de Glória e montar um núcleo de autores especializados em novela. A chegada de Janete Clair e Dias Gomes à emissora, em 1967, tiraria paulatinamente o reinado da novelista, que em 1970 se transferiu para a TV Tupi, e, mais tarde, para Miami. Antes, porém, ela ainda escreveu algumas novelas para a Globo, como
A Rainha Louca e Demian, o Justiceiro.
José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, foi essencial para a institucionalização da qualidade das novelas globais. Sua ojeriza à mediocridade forçou a criação da Central Globo de Produção, bem como a padronização das novelas quanto à duração, horários e temática.
Véu de Noiva (1969), escrita por Janete Clair, dirigida por Daniel Filho e protagonizada por Regina Duarte, marcou a passagem do sensacional espanhol/mexicano para o real brasileiro. A estratégia vingou, pois a emissora conseguiu superar a TV Tupi, grande rival no quesito telenovela à época.
Em 1973, as novelas ganharam nova tecnologia: cores. A primeira novela a ser exibida em cores foi
O Bem-Amado, de Dias Gomes. Os técnicos, porém, ainda não sabiam como operar o equipamento. Assim, o resultado incluía tonalidades fortes e colorações berrantes.
Literatura na TV
Foi o diretor Herval Rossano quem idealizou as adaptações da literatura clássica brasileira às telenovelas. Sob as mãos de Gilberto Braga,
Helena, romance de Machado de Assis, inaugurou o horário das 18h, em 1975, sendo a primeira obra literária transportada para a telinha da Globo. Bom a cultura popular, excelente para o governo militar.
Na verdade, Helena se iguala hoje a uma microssérie, pois teve apenas 20 capítulos. À época, ficou conhecida por
mininovela. Lúcia Alves vivia a bastarda protagonista e contracenava com Osmar Prado, seu meio-irmão Estácio. A história já havia sido filmada pela TV Paulista, em 1952.
Seguiram-se a ela, A Moreninha (1975), Senhora (1975), Gabriela
(1975) - com destaque para a atuação de Sônia Braga no papel-título -,
O Feijão e o Sonho (1976) e Olhai os Lírios do Campo (1980). A atriz Nívea Maria era a preferida dos novelistas para compor as personagens de época; ela protagonizou
A Moreninha, O Feijão e o Sonho e Olhai os Lírios do
Campo.
Todavia, o top da "novela literária" aconteceu com a adaptação de Escrava Isaura (1976-1977), do romance de Bernardo Guimarães. A trajetória da escrava branca, vivida por Lucélia Santos, emocionou não só a platéia brasileira, mas também a mundial. A Globo exibiu o folhetim em mais de cem países, entre eles Alemanha, Portugal, Rússia, Croácia e Bósnia - nesses dois últimos, sua transmissão chegou a paralisar por semanas a guerra decorrente.
Quem é o assassino?
O gênero policial infiltrou-se na novela mais cedo do que se imagina. Glória Magadan incluiu-o no dramalhão
O Sheik de Agadir, deixando os telespectadores sem conhecer a identidade do Rato, estrangulador em série que deixava sobre suas vítimas uma tarântula negra. Para manter o suspense, a autora mudava a personagem a cada semana, o que acabou por deixar-lhe sem opções. No final, coube à estreante Marieta Severo, então com 19 anos, interpretar o malfeitor. Final sem nexo, típico de Glória.
Mas foi na novela O Astro (1977-1978) que o suspense se institucionalizou. "Quem matou Salomão Hayala (Dionísio Azevedo)?", foi a pergunta dos noveleiros de plantão durante 13 dias. Diferente de
O Sheik, o final teve sentido: Edwin Luisi, na pele de Felipe, era o misterioso assassino.
Vale Tudo (1988-1989), grande sucesso de Gilberto Braga, além de imortalizar Glória Pires no papel da vilã Maria de Fátima, fez o País indagar por cerca de um mês quem era o assassino de Odete Roitman (Beatriz Segall). A cena do último capítulo é clássica na história da telenovela: a câmera revela Leila (Cássia Kiss), que aciona a arma e dá fim à vida da personagem.
A Próxima Vítima (1995), porém, mostrou-se inédita em todos os sentidos. Ao contrário de suas antecessoras, o núcleo central se embasava na identidade do assassino. O autor, Sílvio de Abreu, matava em média uma personagem por mês, jogando por terra toda a lógica formulada pelo público. O último capítulo foi gravado apenas meia hora antes da exibição.
No Brasil, o mau-caráter Adalberto (Cécil Thiré) interpretou o serial
killer, mas outras versões foram exibidas em vários países. O enredo de
A Próxima Vítima estampou até as páginas do New York
Times, o auge para Abreu. Ele bem que tentou repetir a dose em Torre de Babel (1998), mas a trama não decolou como o esperado.
Outros sucessos
Seria injusto esquecer de citar a primeira versão de Selva de Pedra (1972-1973), estrelada por Francisco Cuoco e Regina Duarte. Consta que até mesmo o presidente Juscelino Kubitschek quis conhecer Regina, celebridade incontestável à época. Mesmo com um enredo envolvendo bigamia, Janete Clair, a autora, driblou a censura e no capítulo 152 alcançou 100% da audiência.
Já Roque Santeiro (1975) não teve final tão feliz. Escrita por Dias Gomes, a novela foi interrompida nas filmagens do capítulo 30. A saga contava a história do povoado de Asa Branca, construída em cima do mito de Roque Santeiro. A censura vetou, alegando ofensa à moral e aos bons costumes.
Dez anos depois, a Globo refilmou a história, desta vez com Regina Duarte, como a viúva Porcina, e José Wilker, como Roque. Lima Duarte interpretou o Sinhozinho Malta, mesmo personagem da primeira versão. A novela caracterizou-se como um dos maiores sucessos da TV Globo.
Mais recentemente, O Rei do Gado (1996-1997) alcançou grande sucesso perante o público, destacando-se por sua referência ao movimento dos sem-terra. Benedito Ruy Barbosa explorou o núcleo de forma a despertar ira e polêmica em membros da Igreja Católica e a aprovação de líderes do PT.
O início do milênio viu um dramalhão semelhante aos de Glória Magadan, uma feliz tentativa de retomar a fatia do público abocanhado pelos
reality shows. Ironicamente, era outra Glória - a Perez - quem escreveu
O Clone (2001-2002), sucesso de audiência e campeão de críticas. A trama reunia no mesmo caldeirão estapafúrdias pesquisas científicas sobre clonagem, o combate às drogas e o difuso mundo islâmico-marroquino. Tudo permeado por requebradas danças do vente. Ish Alá!!!
Outros sucessos também ficaram marcados no decorrer dos anos, como as primeiras versões de
Irmãos Coragem (1970-1971) e Pecado Capital (1975), Dona Xepa (1977),
Pai Herói (1979) Guerra dos Sexos (1983-1984), Cambalacho (1986),
Tieta (1989-1990), Pedra Sobre Pedra (1992) e A Indomada (1997).
Fracassos
Nem só de glória viveram as novelas da Globo. Muitas, apesar do status de superprodução, acabaram por naufragar pouco depois do lançamento.
Pode-se dizer que o pior desastre em telenovela aconteceu em 1967. A produção convidou o ator Emiliano Queiroz para escrever
Anastácia, a Mulher Sem Destino. Sem grandes noções novelísticas, ele criou mais de cem personagens para uma história ambientada na Rússia, mas filmada (adivinhe!) no Brasil. Não emplacou.
Janete Clair foi chamada para salvar o dramalhão. Ela inventou um furacão/terremoto e matou todos os personagens, resolvendo parcialmente o problema. A eliminação só se compara à explosão do shopping de
Torre de Babel (1998), em que todos os personagens polêmicos morreram soterrados, numa ousada tentativa de resgatar o "prezado público".
Em 1991, o bem-sucedido Gilberto Braga viveu a primeira parte de seu pesadelo. Com elenco de primeira classe,
O Dono do Mundo viu seu ibope despencar em virtude da repercussão da mexicana
Carrossel, exibida pelo SBT no mesmo horário.
O dramaturgo tentou de tudo: despiu a "heroína" Márcia (Malu Mader) e triplicou as crueldades do
playboy Felipe Barreto (Antônio Fagundes), mas de nada adiantou. A novela terminou com audiência escassa.
Três anos depois, viria o segundo capítulo: Pátria Minha. Como se não bastasse, a não-resposta do público, ainda houve a confusão entre Felipe Camargo e Vera Fisher, marido e mulher na vida real. A atriz perdeu o sono por causa de Isadora Ribeiro, com quem Felipe contracenava na novela. As constantes brigas culminaram na demissão do casal e na separação.
Diante do impasse, o autor criou um incêndio no hotel: morreram os dois. Houve ainda desentendimentos com a comunidade negra, que acusou a emissora de racismo. Depois do episódio, Braga só voltou a escrever novelas em 2000, com
Força de um Desejo.
O mais recente fracasso acabou há poucas semanas. Esperança (2002-2003) era praticamente uma cópia de sua antecessora,
Terra Nostra (1999-2000). Benedito Ruy Barbosa, pra variar, perdeu-se no meio da novela, sem idéia do que fazer com as personagens. Walcyr Carrasco, chamado às pressas, procurou ajeitar a trama. O resultado não foi bem um sucesso, mas, pelo menos, a novela escapou de ter a pior audiência de uma novela das oito (o que passou perto).
Reflexos do pós-modernismo
Com certeza, muitas novelas de destaque, positivo ou negativo, foram esquecidas. Porém, o que se pretende destacar aqui é a importância da telenovela na realidade do brasileiro comum.
Para Mauro Alencar, mestre em telenovelas pela Universidade de São Paulo, a vida com a novela se torna bem mais interessante. "Fica mais fácil resolver nossos problemas tendo a ficção como companheira", declara ele em entrevista à revista
IstoÉ Gente.
Para outros, no entanto, a telenovela é uma invenção demoníaca. José Arbex Jr., famoso por seu posicionamento esquerdista, encara o folhetim como domesticação do imaginário. "Os telespectadores depositam nas criações de telenovela expectativas que transcendem o mundo do faz-de-conta, como se as imagens correspondessem a pessoas vivas, de carne e osso", critica em seu livro,
Showrnalismo.
Caso clássico dessa confusão entre ficção e realidade ocorreu na novela
De Corpo e Alma (1992). A atriz Daniela Perez, que interpretava a personagem Yasmin, foi barbaramente assassinada por seu par na trama. A confusão ocorrida na cabeça do telespectador de onde terminava a Yasmin e onde começava a Daniela tornou-se insuportável. O mesmo pode ser dito da campanha contra o câncer na novela
Laços de Família (2000-2001), na pele de Camila (Carolina Dieckmann).
A questão é antiquíssima. Debater em torno dessas premissas não levam a lugar algum, pois ambas contêm facetas da verdade. Acredito que o problema da telenovela não seja propriamente o envolvimento com a ficção, mas sim o cabalístico equilíbrio entre o bem e o mal, tendência cada vez mais forte nas produções globais.
Tome-se como exemplo a novela Por Amor (1997-1998). Durante toda a trama, a personagem Orestes (Paulo José) luta contra o vício da bebida. O núcleo visava a conscientização social, objetivando levar as pessoas na mesma situação a procurarem tratamento especializado. No último capítulo, Orestes se filia ao grupo dos Alcoólicos Anônimos, fechando a questão.
Ora, tal encenação merece aplausos até mesmo dos críticos mais contumazes. Todavia, a novela não acaba aí. No mesmo capítulo, e também no decorrer de toda a história, a grã-fina Branca (Suzana Vieira) delicia-se com inúmeras doses de martinis. À época, uma pesquisa revelou que o consumo e a venda de martinis praticamente dobrou, fenômeno levemente revertido após o término da novela.
Branca caracterizou-se por suas mentiras e trapaças. No entanto, a vilania não conseguiu extinguir a simpatia dos telespectadores. O mesmo pode se dizer a respeito da babá Nice (Glória Pires), de
Anjo Mau (1997-1998). Dividida entre o amor sem limites e os planos maquiavélicos para alcançá-lo, a personagem caiu nas graças do público. Ao contrário da primeira versão (1976), Nice tem final feliz.
É aí que mora o perigo das telenovelas. Os capítulos equilibram na mesma balança o bem e o mal; como deuses. No caso de
Por Amor, é quase impossível determinar o que predominou.
Segundo o filósofo Jean-François Lyotard, na obra Moralidades Pós-Modernas, "o pós-modernismo ignora o bem e o mal, o verdadeiro e o falso (...). Ele se determina de acordo com o que é operacional ou não, no momento em que se julga".
É nesse contexto que as novelas se inserem; são produtos típicos da cultura pós-modernista do século XXI. Assim como o mundo pós-moderno, elas englobam relativismos, consumismos, diversidades, emoções exacerbadas, sensações, o bem e o mal, em perfeito equilíbrio. Em suma, a realidade - ou uma cópia dela.
* Serviu como
fonte de pesquisa histórica o site Telenovela
<www.telenovela.hpg.com.br>, mantido por Nilson Xavier, entre outras
fontes primárias e secundárias
criação: lisandro staut
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