editorial | especial | debate | imprensa em foco| links
mídia eletrônica 
| cultura | perfil 
olho vivo 
canal do leitor | e-mail | expediente

anteriores
| próximas edições |
inicial


Vassalagem sob mão-de-ferro

Larissa Jansson

Durante o período da ditadura militar, a arte, os movimentos estudantis e a imprensa foram geralmente lembrados como os principais ícones de resistência - e vítimas - do absolutismo sanguinário que dominou a nação por mais de vinte anos. 

Nessa época surgiram mais de 150 periódicos regionais e nacionais de oposição ao regime militar. Era a imprensa alternativa como O Pasquim (1969), Bondinho (1970), Polítika (1971), Opinião (1972), Movimento (1974), dentre outros que representaram o ponto central de resistência à repressão na mídia denunciando a tortura, a censura, o arrocho salarial e a degradação dos direitos dos trabalhadores. Essa imprensa "subversiva" foi o alvo principal das investidas absolutistas. Jornais foram fechados, jornalistas presos, torturados e mortos.

A grande imprensa como Veja, Estadão e Jornal da Tarde publicava versos de Camões, Cícero - em latim -, receitas de salgados e doces que nunca davam certo e ensinavam os leitores a cultivar flores. Essas notas "especiais" eram publicadas nos espaços das matérias previamente censuradas na tentativa de mostrar ao leitor que algo não estava certo ali. Mino Carta - então editor da revista Veja - semanalmente redigia editoriais "subliminares" falando de demônios que barbarizavam um estranho País, ou desculpando-se por não poder contar algo importante para os leitores naquele momento.

Mas nem todos os veículos de comunicação cumpriram com seu esperado papel a serviço da liberdade e democracia. A história registra vergonhosos casos de representantes de diferentes mídias que não apenas se eximiram da obrigação de trabalhar contra a violação de direitos básicos das massas, mas que se venderam colaborando de forma até criminosa com os órgãos repressores. Alguns jornais e seus respectivos jornalistas não se uniram à resistência. Passaram para o outro lado.

História de uma traição...

Esse exemplo pode ser verificado na trajetória da Folha da Tarde, um dos periódicos do Grupo Folha, de propriedade da família Frias. Entrou em circulação pela primeira vez em 1.º de julho de 1949, permanecendo até 31 de dezembro de 1959. Retornou em 19 de outubro de 1967, sendo extinto em 21 de março de 1999 quando foi substituído pelo jornal Agora São Paulo

A Folha da Tarde nasceu com o objetivo de apoiar e divulgar as lutas pelos interesses e causas sociais, como a cobertura de manifestações políticas e estudantis. Na redação trabalharam jornalistas ativistas de esquerda, membros de partidos comunistas. Mas depois do AI-5 - Ato Institucional n.º 5, que detonou os "anos de chumbo" e espalhou o terror no País -, a linha editorial mudou radicalmente. O expediente sofreu gradativas mudanças que culminaram em um cenário oposto: no período entre o seu ressurgimento até 1984, a Folha da Tarde passou a ser conhecida como o "jornal de maior tiragem" devido ao número de "tiras" - entenda-se como policiais - que passaram a fazer parte da redação. Jornalistas que foram censores federais faziam o trabalho da repressão.

O aparato repressivo da ditadura contava com departamentos como o Serviço Nacional de Informações (SNI) e o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), este ligado às polícias estaduais. No Estado de São Paulo foi criada a Operação Bandeirantes, a Oban, em junho de 1969. Patrocinada por alguns empresários paulistas, a operação reuniu militares, civis e, por meio de prisões, torturas e assassinatos, mostrou-se eficiente na tarefa de desarticular diferentes grupos oposicionistas. Passou a se chamar Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna, o DOI-Codi, em 1970. 

A promiscuidade da Folha da Tarde com o regime militar cresceu e chegou a tal ponto que o jornal ficou conhecido como "O Diário Oficial da Oban". Em suas páginas apoiava o absolutismo procurando justificar o que ele tinha de pior, ressaltando suas atitudes "em nome da segurança nacional". Pelas legalizações de mortes por tortura, distorção ou negação de inúmeros fatos, dentre outros absurdos, a Folha da Tarde se mostrou um fiel cão de guarda militar.

A impressão que se tinha era que enquanto outras redações estavam sob censura, a Folha da Tarde simplesmente passou a publicar o que os militares desejavam, destacando-se algumas vezes pelos detalhes apresentados unicamente em suas páginas. Na verdade, o governo utilizava o jornal para se comunicar com a sociedade e os opositores.

Alguns ex-militantes de esquerda "arrependidos" (Rômulo Fontes e Marcos Vinício Fernandes dos Santos, outrora apontados como "terroristas" pela imprensa censurada e presos pelos militares), após se declararem arrependidos e dispostos a abandonar a luta armada diante das câmeras, passaram a trabalhar na Folha da Tarde pouco tempo depois.

Na noite de 24 de outubro de 1974, Vladimir Herzog, diretor de Jornalismo da TV Cultura na época e membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi ao prédio do DOI-Codi na Zona Sudeste de São Paulo prestar esclarecimentos sobre sua conduta política. No dia seguinte, os militares divulgaram fotos que indicavam que Herzog cometera suicídio na cela. Mas as evidências e os testemunhos de jornalistas presos na época mostraram que sua morte ocorreu sob torturas. 

O caso revoltou os opositores do regime e, uma semana depois, as redações de todos os jornais, rádios, televisões e revistas de São Paulo foram paralisadas trabalhando naquele dia apenas uma hora, para que os jornais e revistas circulassem e rádios e emissoras de televisão continuassem suas programações. Uma multidão foi à missa em memória do jornalista na Catedral da Sé em um protesto mudo contra a repressão.

E a traição continuou...

Mesmo ante a repercussão deste fato, a Folha da Tarde não divulgou uma nota sobre a cerimônia. Ignorou totalmente o que aconteceu. Se dependesse unicamente daquele jornal, ninguém teria tomado conhecimento do que ocorreu. Esse é apenas um dos inúmeros exemplos de vassalagem sob a mão-de-ferro registrados em sua história.

A Folha da Tarde sacrificou tudo o que poderia oferecer de bom para seus leitores, quando preferiu conquistar comodidade e influência. Possuía a princípio uma proposta interessante comprometida com as causas democráticas e interesses do povo. Enterrou-a, contudo, fazendo questão de esquecer seu compromisso junto à sociedade paulista, maculando a história da imprensa brasileira, estorvando o trabalho e envergonhando a classe, cujos profissionais, famosos ou não, lutaram e lutam por meio do trabalho sério ao lado da verdade na batalha diária pela construção de uma democracia genuína.