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Liberdade alugada 

Danúbia Guimarães

"Sangue, mais sangue! É preciso que o senhor Floriano beba. Os anêmicos dão-se bem na atmosfera dos matadouros, e o Brasil, é um boi manso, que tanto serve para tirar a zorra do trabalho, como para nutrir tiranos", assim bradava o jornalista José do Patrocínio no ápice do movimento antiflorianista.

Após a proclamação da República, o sonho de um Brasil livre se tornou paradoxalmente mais distante. Embalados por uma República de "fachada", o País viu-se dominado pela ditadura militar chefiada por Marechal Deodoro da Fonseca, e logo em seguida, por Floriano Peixoto - por meio de um golpe militar. O marechal acreditava que era somente na base da força que o País cresceria. Símbolo de resistência política, Peixoto ficou conhecido como "Marechal de Ferro", após resistir a revolta das fortalezas de Lages e Santa Cruz, no Rio de Janeiro, e a Revolução Federalista, no Rio Grande do Sul. 

Patrocínio era totalmente contra as imposições do novo presidente, e adepto ao "isabelismo" - movimento que defendia a princesa Isabel, por acreditar que esta, "os redimira da escravidão por puro ato de bondade". Famoso por seus manifestos inflamados tinha sempre o governo como alvo de suas injúrias. Filho de escrava, via-se claramente o motivo pelo qual Patrocínio defendia tão veemente a abolição da escravatura. Para servir de porta-voz da monarquia em tempos republicanos foi fundado em 28 de setembro de 1887, o jornal A Cidade Do Rio, data escolhida em homenagem à Lei do Ventre Livre.

Pobre notável

No final do século XIX a imprensa no Brasil passava por um momento de transição saindo do antigo e cômodo artesanal para se render ao fantástico mundo industrial. Nesse período, o recém-nascido jornal ganhou notoriedade perante os outros veículos, especialmente devido a fama de seu secretário de redação: o poeta Olavo Bilac, amigo íntimo de Patrocínio.

Em 11 de abril de 1892 o jornal de Patrocínio foi fechado. Após o manifesto antiflorianista foram presos jornalistas, intelectuais, políticos, entre outros. Patrocínio não ficou de fora e foi confinado na cidade de Cucuí, no Amazonas. O jornal só seria reaberto após a anistia, alguns meses depois.

A Cidade do Rio era um veículo vespertino, saindo irrevogavelmente as duas e meia da tarde. Especialista em dar uma cobertura completa dos resultados do jogo do bicho, o nosso futebol de hoje em dia, vivia em constante disputa com o jornal, A Notícia.
Enquanto que nas ruas, moleques se esgoelavam para obter as primeiras moedas dos clientes. E assim, sobreviveu o jornal até o ápice da versatilidade de Patrocínio: em busca das causas ingratas, e nada relevantes, abordadas nas páginas do jornal, além dos constantes atrasos salariais.

Adepto ao, "devo, não nego, quando tiver, pago", José do Patrocínio levava seu jornal de modo boêmio. Nem sempre pagava os salários, distribuía os famosos "vales" - quando tinha. Enfim, a única coisa que ele dava aos colaboradores de seu jornal era autonomia, permitindo espontaneidade de pensamentos e liberdade de expressão, contanto que defendessem as causas dos negros. Para contornar as constantes crises na redação estabeleceu uma cozinha e um restaurante em seu jornal.

Mudanças de opinião

Era o governo de Campos Sales. Zeloso e administrativo, conseguiu sanear as contas públicas. Conseguiu, inclusive, acabar com a inflação da época. Neste período, Patrocínio dava indícios de "virar a casaca". Taxado de "jornalista sem opinião", passou a defender o movimento republicano, antes abominado pelo próprio.

A partir daí, José do Patrocínio entrou numa sucessão de deslizes causando a queda final. Irresponsavelmente, perdera as oficinas do jornal na execução de uma hipoteca vencida, e apesar de seus artigos serem bem elaborados e lidos por grande parte da população, acabou deteriorando num abismo sem fim. Seu jornal, que fora símbolo forte do abolicionismo na Corte, transformou-se no "balcão onde Patrocínio alugava o seu talento e arte". Crítico, do que tanto temia, Patrocínio encerrou as edições de seu jornal se transformando no que sempre temera: ser vendido como escravo no mercado republicano.