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Convocação imediata

Angélica Maffi

Sangue não pode ser visto, nem seu cheiro sentido. Os rastros do martírio foram apagados pelo tempo. Paulo, apóstolo de Jesus, judiado pela corte romana há vinte séculos. Agora em consolo, como se penalizasse seus malfeitores, é homenageado pela igreja apostólica romana. Seu nome é dado a basílica. É as portas desse palco horrorizante, na Basílica de São Pedro que, em 25 de janeiro de 1959 aconteceu a convocação do Concílio Vaticano II.

A idéia de um concílio ecumênico sempre fora discutida, repensada e aguardada antecipadamente, porque se tratava de um encontro onde grandes problemas seriam resolvidos. Fora dos muros da Basílica de São Pedro, o papa João XXIII impacta os frágeis "fariseus", pois o clero estava despreparado para a convocação da "sagrada reunião". E como lei, sua voz branda convidou: "Sei que a idéia do concílio não amadureceu como fruto de prolongada consideração, mas como o florir espontâneo de uma inesperada primavera." 

O que mais intrigava os cardeais era o que levou o pontífice a tal decisão. O próprio João XXIII respondeu esta pergunta no discurso que fez aos cardeais naquele 25 de janeiro de 1959, ao anunciar pela primeira vez o concílio. Não há melhor exposição que suas próprias palavras: "Se o bispo de Roma estende o seu olhar sobre o mundo inteiro, de cujo governo espiritual foi feito responsável pela divina missão que lhe foi confiada, que espetáculo triste não contempla diante do abuso e do comprometimento da liberdade humana que, não conhecendo os céus abertos e recusando-se à fé em Cristo Filho de Deus, redentor do mundo e fundador da Santa Igreja, volta-se todo em busca dos pretensos bens da terra, sob a tentação e a atração das vantagens de ordem material."

Em seu discurso de abertura, João XXIII disse que o progresso da técnica moderna distrai o homem de sua busca ao superior. E continuou: "Debilita as energias do espírito, com grave prejuízo daquilo que constitui a força de resistência da igreja." Na compreensão do pontífice, a decadência espiritual e moral das nações se devia à falta de comunhão com Deus.

A preocupação do líder religioso se deteria em resolver questões práticas e pessoais. Até os dias de hoje não há explicação para sua convocação ter sido imediata. O papa inspirou-se em outros concílios quando convocou esse. Fez a sociedade compreender que, quando cardeais e bispos se reúnem, "o próprio Deus se faz presente". Ele declarou que seria grande a espera por "frutos extraordinários".

Em generosa proporção se encontrava a apreensão do líder quanto à resposta que viria por parte da sociedade. Ele disse: "Pronunciamos diante de vós, por certo tremendo um pouco de emoção, mas ao mesmo tempo, com humilde resolução de propósito, o nome e a proposta de celebração de um concílio ecumênico para a igreja universal."

Esta declaração do pontífice foi muito importante. Ela demonstrou que João XXIII, ao convocar o Concílio Vaticano II, não pensava, pelo menos como pontos principais, na unidade cristã, na reforma litúrgica, nem em outros temas específicos, mas acima de tudo se preocupava com a realidade vivida pelo homem contemporâneo. Isto ficou claro em suas alocuções.

Pronto! Foi decretado que o concílio aconteceria, não havia o que pudesse ser feito.

Como o martírio que um apóstolo vive, assim se sucedeu por diversos encontros o Concílio Vaticano II. Ele durou de 1962 a 1965. Grandes mudanças ocorreram. Na liturgia, nos dogmas e na mente dos cristãos. O objetivo do papa foi alcançado. Por apenas cinco anos, João XXIII esteve à frente do reinado de Roma, mas foi o suficiente para deixar uma história de alguém determinado e de muita coragem. João XXIII morreu. Mas suas ideologias permanecem gravadas nos livros históricos da Igreja Católica.