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Lixo
midiático
Fernando Silva
Sexo, drogas e rock'n roll - a receita perfeita para a "felicidade" no mundo da adolescência. Isso é o que a maioria dos adolescentes pensa. E não é de hoje. Há anos a juventude tem sido ancorada com essa ideologia. A violência se torna ativa nesta fase da vida. Crueldades são cada vez mais normais - "rapaz entra na escola onde estuda e mata, fere, sem dó nem piedade". Parece não haver mais consciência do que é certo ou errado. E para aumentar esse trágico quadro social a mídia impera com sua forma errônea de aprendizagem.
Os pais se perguntam: "Onde foi que eu errei? De quem é a culpa?" Conforme a Mestre em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Tânia Zagury, apontar culpados ou denunciar causas é tarefa complexa, talvez até pretensiosa. "Mas algumas pistas podem ser, porém, levantadas com certa margem de segurança". É claro que existem vários fatores que levam a "eclosão desses acontecimentos", mas são sempre liderados por um poder maior.
A mídia tem um tremendo papel de influência na sociedade. Essa degradação da juventude é transmitida subliminarmente, "poucas vezes percebida pela maioria". Seja num programa humorístico - onde o mais forte humilha o fraco, o negro, o portador de deficiências físicas ou até mesmo em desenhos animados.
Quem é que nunca ouviu falar dos "pestinhas" Beavis and Butthead? Tratava-se de um desenho animado que relatava as babaquices de dois adolescentes de 14 anos que viviam no ócio. Suas ocupações limitavam-se em ver televisão e vadiar na escola. Algo comum no antro da adolescência. Aliás, esse era o objetivo de Mike Judge ao criar o desenho - mostrar a rebeldia sem causa dos adolescentes norte-americanos. Só que ele não pensou no quanto isso faria mal a essa "tribo".
Transmitido, primeiramente, pela MTV norte-americana o desenho teve grande audiência em quase toda a década de 90. Os dois descerebrados eram tão idiotas e desbocados que chegava a ser hilário. As pessoas gostavam de ver aquilo. Não raciocinavam que era apenas uma sátira da realidade. No primeiro episódio da série,
Beavis e Butthead - numa versão mais educada significa "cabeça oca" - jogam basquete fazendo de bola um sapo. "Eles brincam o tempo todo ignorando o sofrimento do anfíbio que morre no final".
A série era composta de pequenos episódios, cada um mais absurdo do que outro. Judge, que além de criar os dois feiosos da televisão também dublava cada um - exagerava nas "brincadeiras" dos moleques. Num episódio, Beavis e
"Cabeça Oca" cheiram gás de cozinha - um ato que na realidade provoca morte instantânea. Noutro eles incendeiam casas. "Foi este o ato que provocou uma tragédia no EUA, em 1992 - um menino incendiário causou a morte de sua irmã mais nova".
Apesar desse acontecimento o desenho continuou com seu estilo desbocado e cínico. No meio de cada programa, a dupla de inconseqüentes avaliava um videoclipe de qualquer gênero musical. "Os comentários eram feitos com muita ironia e sacanagem". Segundo eles o clipe só era bom se fosse um "rock pauleira", ou se tivesse mulheres seminuas.
Para a maioria dos adolescentes que assistiam aos episódios esdrúxulos de
Beavis and Butthead, os dois eram como seus gurus musicais e sabiam como "levar a vida". Influenciados pelo desenho, muitos jovens desenvolveram personalidades parecidas ou iguais aos encrenqueiros da TV. Prova de que a mídia exerce grande poder na educação dos jovens.
O último episódio da dupla sarcástica foi ao ar no final de 1997. Com certeza eles não fazem muita falta. Até porque outros surgiram em seu lugar, como
South Park. Não adianta. Por mais que surjam pessoas tentando resgatar a integridade dos jovens, sempre terão de competir com o poder da mídia. Os adolescentes preferem ouvir personagens irreais a seus próprios pais. Isso é a realidade.
Por quase oito anos consecutivos a sociedade teve que assistir seus filhos se deleitarem com
Beavis and Butthead. Um seriado que nasceu com a intenção se satirizar "os delinqüentes dos EUA, que eram rebeldes sem causa, vândalos, esnobes e odiavam aulas. Era para ser
apenas uma crônica satírica à alienação juvenil". Mas não se
limitou a isso.
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