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Qual
o sabor da vez?
Rodrigo Galiza
Uma das culturas de brasileiro é uma boa festa, principalmente se for regado ao prato preferido, pizza. Em compensação, dentro dessa cultura não está o hábito de ler. Brasileiro lê muito pouco. E quando lê, parece que o faz comendo pizza e, por isso, não consegue lembrar do que leu. Principalmente, si o assunto for política e antigos casos de corrupção. A história comprova que isso não é coisa de agora. Só nos últimos 15 anos tivemos vários casos notáveis. Só para citar alguns: Collor e PC, anões do orçamento e o famoso caso dos Precatórios. Hoje em dia, esquecido pela maioria. Esse último caso é possível perceber algumas semelhanças com o atual caso do mensalão. Principalmente, no que diz respeito ao prato favorito dos políticos envolvidos: a pizza.
O caso dos Precatórios, títulos de dividas com pagamentos ordenados pela justiça, começou a ter cobertura da mídia em São Paulo em 1996, por meio de denúncias sobre a "Máfia dos Fiscais" feitas pelos jornais locais
Folha da Tarde, O Estado de S.Paulo e Diário Popular. Logo, foi esquecido, como tudo no Brasil. Mas a mídia não teve o cuidado de noticiar as bombas enterradas antes do estrago feito.
Em 1997, após as primeiras denúncias, o caso voltou a ter a atenção da mídia devido as CPIs. O esquema era de superfaturamento de papéis de dívidas públicas em alguns governos estaduais e municipais. Nessa manobra financeira irregular, avalia-se que bilhões de reais eram levados - leia-se lavados - para o exterior em paraísos fiscais. Bancos e seguradoras faziam a intermediação. Esse caso fez alguns famosos, como Celso Pitta e Paulo Maluf, respectivamente, prefeito e ex-prefeito de São Paulo. A participação da mídia foi crescendo aos poucos. Em 1997, quando ocorreu a CPI dos Precatórios, a revista Veja noticiou o caso em 14 dos 42 exemplares do período que envolveu as investigações. Já a
IstoÉ deu atenção especifica ao caso em 20 edições durante o ano. O assunto só foi capa duas vezes em cada revista.
Assim, o caso pôde ser acompanhado de perto pela população. Mas os brasileiros e políticos estavam entretidos comendo pizza. Quando divulgados esses esquemas envolvendo as famílias de Pitta e Maluf, no enriquecimento ilícito por meio do uso da máquina pública, o ex-prefeito disse que "não sabia de nada". E mesmo depois desses escândalos, as pesquisas mostravam Maluf liderando as pesquisas de opinião para o governo de São Paulo.
A imprensa fez descaso e, Pitta e Maluf só voltaram a ter destaque em fevereiro de 1999, com a ajuda da Rádio Eldorado de São Paulo, e dos impressos
Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde que começaram a noticiar mais denúncias envolvendo a prefeitura. Chegaram a divulgar o nome dos vereadores que votaram contra a formação da CPI. Após grande pressão da mídia, no dia 3 de março, a CPI foi instalada com unanimidade de votos e o caso foi investigado. Em 2000, a primeira-dama Nicéa Pitta, acusou seu marido e o ex-prefeito Paulo Maluf de irregularidades e compra de votos contra o impeachment. Mas, novamente o prato favorito dos brasileiros estava na mesa.
Os restos da pizza ainda podem ser vistos. Maluf, em entrevista à Folha, disse que errou ao declarar que Pitta era um bom prefeito. Errou também a população em acreditar que o PT era um bom governo. Quem pagou a conta da pizzada do precatório foi o brasileiro, e está pagando novamente. Só deveriam anunciar que sabor será dessa vez.
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