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Quando a imprensa atropela a ética

Sandro Heringer

A filosofia operante na mídia brasileira, em certos veículos de comunicação, é a insistente exposição deliberada de reportagens com base em indícios apresentados como se fossem fatos consumados. Tudo pela ganância de transformar notícia em mercadoria e atender interesses pessoais e financeiros do quarto poder. Com isso, alguns erros, que ficaram gravados na história, foram cometidos pela imprensa. Atropelando sem piedade essa palavrinha tão discutida e pouco aplicada: ética.

Que o diga o ex-ministro da Saúde do governo Collor, Alceni Guerra, acusado na época de superfaturamento na compra de bicicletas para o seu ministério. O nível das acusações infundadas teve um efeito cascata e os estragos foram incalculáveis, obrigando o ex-ministro a entregar o cargo, e deixando seqüelas na vida política e pessoal. 

Lojas do Pedro

A primeira página do jornal Correio Braziliense, do dia 4 de dezembro de 1991, trazia a seguinte manchete: "Saúde compra 22 mil bicicletas superfaturadas". Com o objetivo de combater uma epidemia de cólera que se alastrava por algumas regiões do país, o ministério abriu uma concorrência pública para suprir os agentes comunitários com equipamentos necessários, incluindo as famosas bicicletas. Três empresas participaram, vencendo as Lojas do Pedro, de Curitiba.

Na reportagem, a jornalista Isabel de Paula dizia que "por um preço quase 50% acima do mercado, a Fundação Nacional de Saúde (FNS),vinculada ao Ministério da Saúde, adquiriu 22.500 bicicletas para agentes comunitários por Cr$ 3 bilhões, 307 milhões e 500 mil. As bicicletas, marca Caloi Poti FM, custaram à Fundação Cr$ 147 mil a unidade, enquanto em Brasília as concessionárias Caloi estavam vendendo cada uma a Cr$ 99 mil. Pelos valores de mercado em Brasília, o governo poderia ter economizado mais de Cr$ 1 bilhão na compra".

Antes dessa reportagem, a imagem do ministro já não era positiva, em virtude das constantes cobranças e acusações referidas a seu ministério, sobretudo pela dobradinha TV Globo e jornal O Globo. Segundo Mario Sergio Conti no livro, Notícias do Planalto - A imprensa e Fernando Collor, esses ataques direcionados a Alceni eram pela aliança que o ministro tinha com o governador do Rio de janeiro Leonel Brizola, do qual Roberto Marinho, presidente das organizações Globo, era inimigo declarado. 

Nos dias que seguintes, o Correio continuou com as denúncias: "Saúde confessa superfatura de 22 mil bicicletas"; "TCU investiga superfatura de bicicletas"; "Escândalo das bicicletas derruba direção da FNS"; "Alceni culpa imprensa e sai de bicicleta". Outros jornais e revistas entraram na guerra praticando a chamada imprensa-tribunal. As matérias se tornavam um verdadeiro julgamento nacional. Criando uma enormidade de juízes acusadores. 

Bicicletas derrubam 

O ponto culminante para a queda do ministro foi a reportagem que o jornal O Globo publicou no domingo, dia 8 de dezembro, divulgando uma foto em que Alceni passeava de bicicleta com o seu filho Guilherme, de doze anos, no parque da Cidade, em Brasília no dia anterior. A matéria vinha acompanhada das manchetes: "Devassa geral na Saúde começa hoje", "Ministro diz que não pede demissão", "Maluf quer a saída de três ministros". Tudo como se o inquérito já estivesse terminado.

O mesmo jornal trouxe no outro dia uma charge desmoralizante de Chico Caruso que entraria para história da mídia impressa. Alceni guiando uma bicicleta dupla e seu filho atrás com uma tarja preta nos olhos com se ele fosse um menor delinqüente. 

No dia 23 de janeiro de 1992, o ministro entregou sua carta de demissão ao presidente Collor. Segundo o jornal O Globo, "Alceni afirmou que se sente traído por seus assessores do ministério da Saúde, que vai abandonar a vida pública e que contratou um advogado para processar as pessoas que o estariam acusando indevidamente de participar das irregularidades".

Depois da tempestade 

Depois do "linchamento público" sofrido pelo ministro, em outubro daquele mesmo ano, o inquérito foi arquivado por falta de provas do envolvimento de Alceni Guerra nas compras das bicicletas. O ministro foi inocentado do crime de prevaricação e de corrupção. Os seus assessores, Nelson Marques e Carlos Pastro foram indiciados num processo da Justiça Federal. 

A mesma imprensa que o condenou esqueceu daquela palavrinha citada lá começo. Ética. Aprendemos que no decorrer das nossas vidas, os erros são referenciais para acertos. Mas parece a que imprensa não faz questão de recordar os erros. Outros escândalos marcaram a mídia.

Em nome da ética, a precipitação de denunciar ações de pedofilia num colégio de São Paulo, gerou o caso que ficou conhecido como Escola Base. Mas isso é uma outra história. Essa não foi e não será a última vez que ouviremos falar das injustiças cometidas pelos meios de comunicação. Se um dia tirarem um pouco da tal falada, liberdade de imprensa, talvez atrocidades jornalísticas como essas citadas só serão vistas no capítulo: "Exemplos para não serem seguidos".


                           
                    

                       

criação: lisandro staut