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Paixão
pelas ondas
Paulo Tetzner
As lembranças da Primeira Guerra ainda pairavam na mente das pessoas quando aqui no Brasil o médico, professor, escritor e radialista Edgard Roquette Pinto cultivava o desejo de criar uma rádio. Essa teria finalidade educativa e, de preferência, ligada
à Academia Brasileira de Ciências.
Os Estados Unidos e a Europa, em 1920, viviam a euforia da invenção do rádio e da capacidade de informar as pessoas, de todas as partes do mundo, sobre os fatos e acontecimentos da época.
Tempos difíceis
Uma rádio funcionando no Brasil poderia ser uma arma perigosa que levaria os segredos dos militares até as potências estrangeiras. Essa era uma grande preocupação
da época. O importante era impedir que a população escutasse o rádio.
O poeta, jornalista da Gazeta do Rio e cronista de O Estado de S.
Paulo, Amadeu Amaral, recebeu um convite de seu amigo Roquette Pinto para ouvir uma transmissão em fase experimental da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.
A surpresa foi enorme. Quando chegou à casa de Roquette Pinto, viu no jardim uma vara de bambu servindo de antena com fios de cobre que iam até a sala. Esses estavam
conectados a uma bobina de papelão ligada por um fio-terra à torneira da pia e um fone comum de telefone para ser colocado na orelha.
Objetivos
Com uma programação totalmente voltada para educação e cultura, mais parecia uma extensão da Academia de Ciências. A produção, redação e apresentação dos programas eram feitos pelos próprios acadêmicos.
O próprio Roquette fazia questão de toda manhã ler todos os jornais. E duas horas depois
apresentava o
Jornal da Manhã destacando e comentando as notícias.
Também recitavam poesias e tocavam músicas. Outros traziam discos com clássicos de óperas e comentavam os compositores, músicos e cantores.
Mas a programação não era somente musical e literária. Apresentavam palestras e cursos sobre português, biologia, história, francês e geografia. A programação não atingia todas as camadas sociais, pois os aparelhos eram caros e poucos podiam adquirir.
O desejo de Roquette era manter a rádio sem comerciais e sem anúncios. Entretanto, quem iria arcar com as despesas das transmissões? Para isso, o radialista institui um fundo de auxílio mantido por associados.
"O rádio é a escola dos que não têm escola. É o jornal de quem não sabe ler; é o mestre de quem não pode ir à escola; é o divertimento gratuito do pobre; é o animador de novas esperanças; o consolador dos enfermos e o guia dos sãos, desde que o realizem com espírito altruísta e elevado", comentava Roquette.
Na rota de um crescimento natural, outros locutores, programadores e roteiristas chegaram. Trabalhavam recebendo salários pagos pela própria rádio. A Academia de Ciências começou a perder a direção da programação. Roquette continuava priorizando a educação.
Mudança ou morte
Novas emissoras surgiram com programações variadas. Educadora, Philips, Transmissora, Guanabara, Tupi, Farroupilha e a Nacional estavam bem mais avançadas. Com isso, a Rádio Sociedade teve que colocar na programação um pouco de entretenimento.
Em março de 1932 um decreto assinado pelo presidente Getúlio Vargas autorizou a veiculação de propagandas no rádio. O decreto abriu portas para o surgimento de patrocinadores, programas de auditórios, transmissões esportivas, anúncios e jingles.
Mantida sempre pelos "sócios", a rádio estava sem condições de modernizar os equipamentos e ampliar a potência para enfrentar as concorrentes. As óperas, que eram transmitidas na íntegra, estavam perdendo espaço para os programas populares de auditório.
Para evitar a morte da emissora, Roquette tinha apenas uma solução: reverter os canais a um órgão oficial - o Ministério da Comunicação e Saúde.
Em 1953 convenceu um amigo, o educador e secretário da Educação, Anísio Teixeira, a fundar uma radioescola.
A Mudança
Não suportando mais as dificuldades e a pressão de ter que mudar a estrutura - e junto com ela seus ideais -, em julho de 1936, Roquette doou a rádio para o Ministério da Educação e Saúde.
O ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema, levou o pedido de Roquette ao presidente Getúlio Vargas. O presidente agradeceu, mas sugeriu que a doação fosse feita ao Departamento de Propaganda e Difusão Cultural. Roquette parecia adivinhar que, em menos de um ano, o
setor se tornaria o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do Estado Novo. Ele escreveu uma carta ao ministro enfatizando que a doação seria feita ao "Ministério de Educação do povo, não ao governo".
"Entrego esta rádio com a mesma emoção com que se casa uma filha", lamentou Roquette. Ele deixou a sala e foi para um pequeno corredor e chorou. Naquele momento a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro deixou de existir para nascer a Rádio Ministério da Educação.
Em 18 de outubro de 1954, enquanto o radialista escrevia um artigo para o Jornal do Brasil em seu apartamento, sofreu um derrame e morreu.
criação: lisandro staut
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