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Vítima do próprio cartão

Cléia Kattwinkel

A situação política brasileira no início de 1980 era confusa e a crise econômica se agravava a cada dia. O País ainda era comandado pelos militares, mas já se falava em abertura do regime. O governo do general João Baptista Figueiredo se propunha a ampliar aos poucos à abertura política e sofria pressões para a volta imediata do estado de direito. Partidos da esquerda exigiam democracia e ganhavam apoio social, enquanto passeatas estudantis e as greves dos metalúrgicos demonstravam o clima de descontentamento popular. 

Apesar de ainda não existir total liberdade de expressão, os abusos tinham diminuído, em relação ao governo do general Ernesto Geisel e de Armando Falcão. Um exemplo de repressão foi sofrido pela revista Veja, que tinha como editor-chefe Mino Carta. A revista foi obrigada a enviar as matérias para a Polícia Federal e até para Brasília, e claro, foram censuradas. Lentamente, a mídia recuperava a liberdade trazendo à tona escândalos contribuindo para o enfraquecimento do regime militar. 

Em 1981, a TV Bandeirantes apresentava o programa Cartão Vermelho, encabeçado por Mino Carta e produzido por Fernando Faro e Amilton de Almeida. Esse programa estava inserido a um maior, chamado 90 Minutos. O Cartão Vermelho era um programa de entrevistas em que Mino Carta entrevistava personalidades da política e economia da época. 

As entrevistas causavam muita polêmica, principalmente pelo espírito ousado de Mino Carta, que distribuía cartões amarelos e vermelhos conforme o desempenho do entrevistado. "Era usado um cartão amarelo quando o entrevistado falava alguma besteira", relata Mino em entrevista ao Canal da Imprensa. "Se a besteira fosse enorme, dava-se o cartão vermelho", relembra.

Foi em um desses programas que Mino Carta resolveu entrevistar Ulysses Guimarães, do PMDB. Só que desta vez quem levou cartão vermelho foi Mino, cujo programa foi cassado pela própria emissora. De acordo com Mino Carta, o programa terminou por censura interna, no final de 1981, o que, segundo ele, tinha a ver com a ditadura. Mino Carta já andava na corda-bamba, só precisava cometer uma falta. O programa durou apenas três meses. Levou cartão vermelho e foi expulso.


                                  
                    

                       

criação: lisandro staut