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Inteligência brasileira

Thiago Cabreira

"(...) Há uma espécie de continuidade de posturas entre variadas épocas históricas da poesia, no que se refere ao afastamento com relação às formas de sentido a conquista da expressão individual original e única, processo histórico que se completa na atualidade, quando a linguagem poética nada mais é que a manifestação livre do indivíduo na sociedade de massas, números extravagantes e volumes abusivos." (Nicolau, N.º 37). Assim nascia O Nicolau, num período imediatamente posterior à repressora ditadura militar, representando um dos marcos da liberdade de expressão de idéias do País.

Editado em 1968, o AI-5 anunciou uma época negra e tempestuosa varrida pela ditadura militar, em que a história brasileira e sua cultura perderam a estabilidade. Vários setores sentiram a censura prévia, principalmente a grande imprensa que, sedenta por liberdade, provocou protestos em jornais e revistas do grande público denunciando a ação repressora. Por exemplo, a revista Veja preenchia os espaços "vazios" com logotipos da Editora Abril; o jornal O Estado de S. Paulo ocupava-os com trechos de "Os Lusíadas". A censura do AI-5 também foi implacável com a chamada imprensa alternativa, que sofria permanente perseguição. Jornais como O Pasquim e Opinião travaram verdadeiros combates com os censores e tiveram vários de seus números retirados das bancas, bem com as constantes prisões de editores, jornalistas e colaboradores.

Logo após esse período de repressões, surge O Nicolau, sob a direção de Wilson Bueno, diretor e idealizador. O nome simbolizava uma das expressões mais significativas daquela época no Paraná: "povo vitorioso" (do grego láos= povo e nike= vitória). Uma homenagem às correntes imigratórias formadoras da cultura paranaense, como os poloneses, ucranianos, italianos, árabes e alemães.

Naturalmente, Curitiba revelou grandes valores literários, como o movimento simbolista, por exemplo. "Na realidade, o Nicolau veio somente para reforçar uma tradição que já existia, vindo a ocupar um espaço relevante, divulgando ainda mais os valores paranaenses", afirma a mestre em literatura brasileira, Maria Lúcia Vieira.

Apesar de receber os recursos de sua produção da Secretaria de Cultura e da Imprensa Oficial do Estado do Paraná, o jornal não perdeu seu maior objetivo: um compromisso mensal com a cultura, o que impediu que se tornasse um porta-voz da ideologia oficial. Manteve uma proposta independente, abrindo espaço para as mais variadas tentativas de avanço e mudança, pois sua idéia de constituir-se um veículo genuinamente cultural foi a base do sucesso.

Vale a pena lembrar que o Nicolau conquistou o reconhecimento e vários momentos de destaque, tanto em âmbito nacional como internacional. Ganhou prêmios como o de "Melhor Veículo Cultural Brasileiro", em 1987, conferido pela Associação Paulista de Críticos de Arte e o de "Mérito Cultural", em 1988, pela União Brasileira dos Escritores (UBE). Também foi apontado como a mais importante publicação cultural da América Latina, no "Encontro Nacional de Escritores de Brasília", pela qualidade de seu conteúdo. Além disso, foi à única publicação da América do Sul a integrar o projeto cultural da Universidade Columbia, de Nova York.

O Nicolau circulou de 1987 a 1998. Estes 11 anos de atuação podem ser considerados uma longa vida, principalmente se for levado em conta que os periódicos de recursos públicos costumam ter uma vida curta.

Características singulares

Percebe-se na proposta do Nicolau um jornal inteligente que não se deixava levar pela mentalidade alienada dos outros meios de comunicação daquela época. Procurava implantar rupturas ideológicas e políticas preestabelecidas pela ditadura brasileira, proporcionando aos leitores a oportunidade de libertação.

O jornal também apresentava uma linha editorial preocupada exclusivamente em veicular a cultura, sem interesses financeiros imediatos. Outra marca era divulgar as produções de escritores inéditos numa página denominada "Os novíssimos do Estado".

Além de procurar informar, em muitos momentos foi além dessa expectativa. Por meio de "insights" usou seu caráter elitista adotando uma linguagem que não atingia a compreensão da massa.

Periódico cultural

Como traço principal, percebe-se uma característica típica do Nicolau no que diz respeito ao lirismo, encontrado na maioria dos textos jornalísticos, críticos, humorísticos e didáticos. Esse fato contribuiu para transformar o periódico numa práxis poética. 

O Nicolau incita a reflexão no que se refere a globalização, que cada vez mais integrado pelos meios de comunicação insiste em propagar a concepção do progresso como fruto exclusivo do avanço tecnológico destinado a produzir e consumir. Ao contrário, mostra em seu discurso poético a valorização do pensamento e da liberdade de idéias, tão enriquecedoras da cultura humana. 

A necessidade que se tem de obter recursos, cavou um imenso abismo entre a poesia e o homem. A participação emotiva já não faz mais parte do repertório humano. Os cifrões do capitalismo extinguiram a imaginação e o caráter democrático do receptor. O Nicolau, por sua vez, tornou-se uma ponte, ligando os sonhos à realidade.