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Do povo para o povo

Larissa Jansson

Corria o ano de 1937. O mandato do então presidente Getúlio Vargas, eleito pela assembléia constituinte de 1933-34 chegava ao fim, e no ano seguinte deveriam ocorrer novas eleições para a presidência da república. Armando Salles de Oliveira se candidatou pelo partido Constitucionalista e Plínio Salgado pelo Partido Integralista. 

Getúlio, que afirmou abandonar o cargo assim que seu mandato chegasse ao fim, na realidade procurava meios para continuar no poder, uma vez que a Constituição não permitia a reeleição. 

Armando Salles de Oliveira despontava como vencedor. Contudo, rumores de que os comunistas estavam planejando a tomada do poder começaram a surgir. Rumores diziam que ocorreriam "massacres, saques e depredações, desrespeito aos lares, incêndios de igrejas, etc", colocando a segurança nacional em risco.

A notícia foi vinculada na Hora do Brasil e em alguns jornais. Como resultado desta situação inventada por Vargas, a nação ficou em suspense. O estado de guerra foi aprovado pelo Congresso e os direitos individuais foram suspensos por 90 dias. Os constitucionalistas tentaram evitar um golpe, mas em 10 de novembro o Congresso foi cercado pelas tropas da polícia militar. À noite, Vargas anunciava em cadeia de rádio "uma nova fase política e a entrada em vigor de uma carta constitucional elaborada por Francisco Campos". Nascia então o Estado Novo.

Durante esse período o País foi governado por decretos-leis e os Estados passaram a ser administrados por interventores. Por meio da censura, o governo reprimia e moldava as informações com objetivo de formar uma opinião pública favorável, construindo inclusive sua própria versão da fase que o Brasil atravessava. A perseguição política e tortura eram medidas aplicadas pelo governo para reprimir movimentos subversivos.

Criando diretrizes

Durante essa fase agitada da história do Brasil, e cinco meses após o golpe, surgiu como resultado de um convite de Azevedo Amaral à Samuel Wainer, o periódico semanal Diretrizes contando com a colaboração de Octávio Malta, Rubem Braga, Di Cavalcanti, Astrogildo Pereira, Osório Borba e outros. Com objetivo de expor e debater questões políticas, econômicas e culturais de forma moderna, inteligente e dinâmica, desde o princípio a revista se destacou por ter uma linha editorial que se destoava do discurso pró-Estado Novo generalizado. Diretrizes não era vinculada à rede Diários Associados, de Assis Chateaubriand, como a maioria dos impressos. 

A revista mostrou grande aceitação logo na segunda edição, cuja tiragem se esgotou. Com o passar do tempo, se firmou no meio jornalístico e o número de colaboradores aumentava. Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, Aníbal Machado e Jorge Amado fizeram parte da redação. A partir de 1940, Afonso Arinos de Melo Franco, Austregésilo de Athayde, Cassiano Ricardo, Edison Carneiro, Érico Veríssimo, Manuel Bandeira, Gilberto Freyre completaram o time de jornalistas e escritores.

Mesmo com membros do Partido Comunista presente na redação (incluindo um dos fundadores, Astrogildo Pereira), Diretrizes nunca teve uma ligação oficial com o Partido Comunista Brasileiro. Samuel Wainer e Azevedo Amaral, diretores da revista, não eram filiados a nenhum partido e conseguiam manter uma linha editorial equilibrada, às vezes com artigos elogiosos ao Estado Novo. Os demais jornalistas e escritores possuíam convicções políticas variadas. A relativa longevidade do periódico foi atribuída à flexibilidade intelectual de Samuel Wainer, que era bem sucedido em adaptar o conteúdo de acordo com as circunstâncias do momento. Mesmo assim, Diretrizes sempre estava na mira do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda).

A tiragem variava entre quatro e cinco mil exemplares. A revista contava com a simpatia dos leitores que gostavam do seu posicionamento antifascista e antinazista. Eles reconheciam, na linha editorial, a luta por causas justas e de interesse da população. Concursos e premiações eram promovidos entre os leitores, como o concurso para a "Pequena História da República para Crianças" em 1940. 

Grandes reportagens

Reportagens históricas marcaram as páginas de Diretrizes."Os Grã-Finos em São Paulo", de Joel Silveira, descreveu os hábitos da elite paulistana. A edição teve grande repercussão irritando os ricos e poderosos da época. Graças a essa reportagem, Assis Chateaubriant convidou Silveira para trabalhar em um dos seus jornais. Silveira recusou. 

Após Wainer ter sido perseguido e preso duas vezes, foi exilado nos Estados Unidos em 1943. Foi para a Alemanha no ano seguinte cobrir o julgamento dos líderes nazistas em Nuremberg, como correspondente de Diretrizes e da BBC de Londres. Wainer foi o único representante da imprensa latino-americana na ocasião.
Mesmo contando com muito jogo de cintura para permanecer na ativa no auge do fascismo e da ditadura, Diretrizes finalmente sucumbiu ante a repressão. Uma reportagem sobre Miguel Costa, um dos comandantes da Coluna Prestes, foi o motivo para que a revista fosse fechada.

No dia 4 de julho de 1944, algumas horas após receber o material, o diretor do DIP cancelou a cota de papel a ser usada na impressão. O governo alegou que o periódico foi fechado por divulgar idéias comunistas. Após o fechamento da revista, a maioria dos jornalistas foi para os Diários Associados.
Diretrizes marcou a história da imprensa brasileira por ser o primeiro veículo que buscava informar e, ao mesmo tempo, conscientizar os leitores a despeito do risco que isso significava em uma época marcada pela repressão. 

Com muito jogo de cintura, inteligência e evitando posições extremistas de qualquer natureza, conseguiu desenvolver um jornalismo inteligente e relevante. Ao disponibilizar suas páginas como fórum de exposição e debate de questões de interesse geral, cumpriu o seu papel na luta por um Brasil mais consciente e justo.