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Aparente
inocência
Alekiane
Rocha e Myldred Delker
Existem novelas de todos os tipos e para todos os gostos. Há novelas épicas e supermodernas. Folhetins para sentimentalistas e para os mais revoltados. Há novelas e novelas. Porém, são os dramalhões infantis que garantem o Ibope.
Um exemplo disso é uma das mais famosas novelas mexicanas do SBT, Carrossel (1991). A trama se desenrolava em uma escola infantil, na turma da professora Helena (Gabriela Riviero) e seus alunos sapecas. A história enfocava conflitos cotidianos, desde miséria, amores não correspondidos até discriminação racial e social, que prendem a atenção do
telespectador.
Cada um faz o que pode para atingir um público. Em Caça Talentos (Globo, 1996-1999), novela matutina, mostrava a história de Bela (Angélica), uma menina que perdeu seus pais num acidente de carro. Sozinha no mundo é criada por duas fadas, Margarida (Marilú Bueno) e Violeta (Bettina Viany). Adulta, Bela deve escolher entre ser fada ou humana. Sendo assim, é enviada para o mundo real, onde deve tomar a decisão. Arranja emprego em uma agência de propaganda, a Caça Talentos. Lá, se mete em muitas aventuras, desafios e perigos. Tudo do jeito que criança gosta.
É incrível perceber como os produtores utilizam artimanhas, como a magia, para conquistar e segurar o telespectador. Eles sabem que a maioria das crianças gostaria de ter poderes sobrenaturais para realizar os seus mais desejos secretos.
Valores quebrados
A novela Chiquititas (SBT, 1997-2001) foi outro grande sucesso. A história se passa em um orfanato composto por meninos e meninas pré-adolescentes. Lá, eles aprendem que não há problema algum em mentir para ajudar alguém; que não importa as atitudes para que os objetivos sejam alcançados, sejam estes bons ou ruins; e visualizam que é preciso estar sempre bonita e "em forma" para conquistar o seu "príncipe encantado". Vê-se aí a quebra de valores.
Uma cena bem chocante é quando uma das internas desmaia de fraqueza, por estar há vários dias sem se alimentar, devido um regime. Por meio disso, a criança espectadora começa a criar estereótipos.
"Há crianças que com 7 anos estão em um estado de erotização impressionante. As meninas vêm tendo filhos cada vez mais cedo e um fator preponderante é a influência da mídia, que cria imagens que servem de modelo para essas meninas. Então elas querem ser iguais às moças da TV", diz Márcia Alves, coordenadora do projeto Ser Menina, RJ.
Carinha de Anjo (2001), outra novela mexicana do SBT que atraiu muitos telespectadores, contava a história de Dulce Maria (Daniela Aedo), uma garotinha de cinco anos que sofria muito com a morte da mãe. Seu pai, Luciano (Miguel de Leon), cai em profunda depressão e se afasta de todos, inclusive da filha, colocando-a num colégio interno de freiras. Dulce Maria fica sob os cuidados do tio, o padre Gabriel (Manuel Saval), sendo visitada mais pela tia Peruca (Nora Salinas) do que pelo pai.
Qualidade discutível
Alguns autores e escritores dizem que assuntos abordados em novelas servem para ajudar as crianças, pois sempre trazem algo de bom e relevante. Mas é triste notar que não ficou muito claro o que é tão "bom" assim. Se for o fato das crianças crescerem tendo medo de fantasmas e acreditando que as fadas madrinhas sempre resolverão os seus problemas ou que se elas não aprenderem a beijar e se comportar como gente grande logo cedo se tornarão alvo de piadas, é discutível a utilidade destes programas.
Porém, o mais preocupante é que a criança não sabe discernir o bom do prejudicial Deste modo, ela continua a assistir a tudo sem fazer qualquer tipo de seleção. Gerando audiência para algo desprezível e destrói o próprio caráter.
"É com a resposta a cada capítulo que a nossa imaginação vai sendo estimulada a continuar aquela história", diz o novelista Gilberto Braga, em declaração ao livro
A Hollywood Brasileira, de Mauro Alencar. Vê-se que não importa se o que está sendo transmitido influenciará para o bem ou para o mal. O objetivo é entreter e lucrar.
No entanto, algumas pessoas discordam desse argumento. Um deles é o juiz da 1.a Vara da Infância e Juventude, Siro Darlan de Oliveira. Em artigo para a IstoÉ (4/6/97), ele diz que "a banalização das cenas de violência e sexo tem conduzido os telespectadores mirins à imitação de seus ídolos".
Por fim, nota-se que as novelas infantis servem de base. São escolas preparatórias para futuras novelas da vida real.
Os dados históricos deste artigo basearam-se nos sites Museu da TV <www.museudatv.com.br> e Teledramaturgia <www.teledramaturgia.com.br>

criação: lisandro staut
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